A praça da alegria dos nossos dias

Foto: J. Rodrigues (NOMINUTO.COM)

Por Eduardo Alexandre

Natal nasceu na Cidade Alta.

Desde sua fundação, em 25 de dezembro de 1599, foi a Cidade Alta o palco dos ajuntamentos sociais de Natal. Sacros e profanos, a princípio na Praça da Alegria, que, após a morte do padre João Maria, em 1905, tomou seu nome a partir de resolução assinada pelo intendente Joaquim Monoel Teixeira de Moura, em 11 de julho de 1906.

Nesse início de século XX, os acontecimentos profanos vieram para a Rua da Palha, que tomou a denominação de Vigário Bartholomeu.

O maior ajuntamento cotidiano de pessoas, as festas da cidade, durante décadas deste século, foram ali perto da antiga Praça da Alegria e da antiga Rua Palha, cidade crescendo rumo aos morros do Tirol: o Grande Ponto.

O Beco da Lama no meio do alvoroço do crescimento da cidade.

Beco da Lama por ser o escoadouro das águas servidas que vinham dos fundos das aristocráticas residências da Vigário Bartholomeu e Rua Nova, depois Avenida Rio Branco.

Beco da Lama estigmatizado pelo nome. Mas Beco buscado pela boemia discreta, ciosa de música e conversa boa longe do ruge-ruge barulhento do entorno.

Por ali, transitava Cascudo, saído do Café Grande Ponto, depois Café Avenida, em busca de novas informações e divertimentos no Potiguarânia, depois Café Magestic, defronte do Royal Cinema, esquinas de Vigário Bartholomeu com Ulisses Caldas. Prosas e prosas, poesia, com Jorge Fernandes, poeta modernista residente na Rua da Palha, cujos fundos de quintal davam para o Beco da Lama.

Quando cansado de suas décadas de dedicação à Academia Norte-riograndense de Letras, Manoel Rodrigues de Melo se dirigia ao Beco. Queria conversa com Berilo Wanderley, Luís Carlos Guimarães, Newton Navarro, Bosco Lopes, amigos que sabia encontraria ali para partilhar uma teutônica, como chamava a cervejinha do desprendimento.

Quando Nasi Canaã se estabeleceu na esquina da Rua Doutor José Ivo (Beco da Lama) com a Cel. Cascudo (pai do etnólogo folclorista), e popularizou entre nós a ‘meladinha’, o doutor Manoel de Brito vez dali parada diária.

E quantas não foram as figuras de importância e sem importância alguma que fizeram dali pouso de cura para as agruras dos dias?

O Beco estigmatizado pela lama que já não mais havia, com o surgimento da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (adjacências sugeridas pelo poeta Volontê para dar consistência à sigla), a querida SAMBA, tomou gosto de festa e muitas vieram para trazer a população tangida pelo crescimento da cidade de volta ao seu centro histórico, berço.

O respaldo de toda a gente que se fez presente às centenas nessas festas foi fator de importância para que o Beco se tornasse um referencial de cultura da cidade. Esse respaldo de amor popular fez com que a nossa Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, voltasse vistas para uma possibilidade concreta de transformar toda aquela área central e também a Ribeira como algo digno de preservação, e tudo se transformou, em 2010, em Patrimônio Histórico Nacional.

É essa conquista de tantos que agora está ameaçada de retrocesso por uma intriga mesquinha de vizinhas que levaram querela ao Ministério Público do Meio Ambiente, que, aferrado a rigidez que compõe leis mal escritas, hoje impõe o fim da festa.

Festa que divulga e traz benefícios, traz emprego, traz turistas.

Por tudo isso, políticos e populares, artistas, hoje estiveram ali naquela esquina pedindo à cidade que se compadeça dos maus presságios de fim de festa e se imponha através de sua cultura como logradouro que, também por amor, se quer preservar.

O Beco é hoje a Praça da Alegria da nossa cidade Natal.

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