A Praça Gentil Ferreira

A praça é do povo. Lugar de reuniões e paqueras. O tribunal popular de uma cidade. No bairro do Alecrim em Natal fica situada a famosa Praça Gentil Ferreira, cruzamento das ruas Amaro Barreto e Presidente Bandeira. Em 2011 é celebrado o centenário do mais popular e famoso bairro de Natal. Antigo morador das avenidas nove e sete lembro nessas breves crônicas um tempo em que vivi menino os seus carnavais, festas juninas e ouvia as noticias e musicas pelos auto-falantes das difusoras.

Em 2011 também é celebrado o centenário de nascimento do engenheiro e professor Gentil Ferreira, nascido em Santa Cruz em 24/02/1901 e por três vezes prefeito da cidade do Natal. A praça que homenageia o ilustre executivo já sofreu varias intervenções e foi durante muito tempo um lugar de efervescente comércio popular de ambulantes e vendedores de baganas.

Meu querido pai foi comerciante e grande fornecedor de mercadorias para as barracas situadas na praça em baixo de frondosos e abundantes pés de fícus. Toda a praça era ocupada pelas barracas que vendiam de tudo. Confecções, redes, bijuterias e outras miudezas. Boa parte de nossas vidas foram gozadas e trabalhadas na sombra das famosas árvores que infernizavam os ambulantes com suas sementes que não parava de cair.

Na frente da praça ficava o famoso bar e restaurante Quitandinha. Em cima do bar Quitandinha o palco a céu aberto de grandes shows e comícios, Lá eu ouvi o Caboclinho querido Sílvio Caldas, Marines e suas gente, Banda de Pau e Cordas e muitos outros shows maravilhosos.

Ao lado da praça uma frota de táxi de DKW. Quando fazia a ignição dava um tiro que assustava os dias pacatos só alegrados pelos poetas populares e tipos populares que faziam da praça a sua casa e sustento. Na calçada fotógrafos com aquelas máquinas antigas de tripé de madeira e chapas reveladas ao vivo, com uma sanfona fazendo a câmera escura.

Na praça tudo acontecia. As noticias da cidade eram ansiosamente aguardadas no Diário de Natal que circulava somente á tarde. O Hotel Caiana recebia os muitos interioranos e viajantes que freqüentavam a cidade e o famoso Mercado do Alecrim, nos fundos da praça. No interior do mercado público Antonio Carneiro muitas lojas de calçados, quitandas e boxes para vender peixes e carnes, Na frente do mercado ficavam umas barracas de madeiras. O mercado do Alecrim foi construído pelo prefeito Gentil Ferreira em 1938 e depois destruído criminosamente em nome do progresso. Assim também como foi queimado o Mercado da Cidade Alta.
O Quitandinha, a Praça e o Mercado formavam um belo anfiteatro popular de convívio e lazer onde vivi a minha infância. Todos os comerciantes eram amigos do meu pai Melquíades Francisco da Costa. Tudo ali lembra meu pai querido. Com muito trabalho papai chegou a montar uma fábrica de confecções e foi proprietário da Casa São Marcos, ali na famosa e saudosa Praça Gentil Ferreira. Depois papai se converteu ao protestantismo e freqüentava a Assembléia de Deus situada ao lado da praça. Na Paz do Senhor! Os primeiros discos que entraram na nossa casinha eram evangélicos e de belas melodias.

Certo dia um amigo de meu pai me fez um teste de voz. Ele tinha um gravador portátil e pediu para eu falar um pequeno texto. Li e agravação foi um fiasco. Um fiozinho de voz débil definitivamente não dava para locutor da Rádio Rural. Fui ser professor. Também um profissional da voz que não precisa ser possante.

Na praça presenciei muitas cantorias. Zé menininho tocava a sua sanfona e vendedores de cordéis cantavam as histórias fantásticas de Juvenal e o Dragão, Coco Verde e Melancia e tantas outras que fascinavam os ouvintes que compravam os folhetos ao final de cada cantoria. Nada como um cordel cantado. Costume que infelizmente se perdeu nas brumas do tempo. No Alecrim também ficava uma famosa casa que vendia todo tipo de cordel.

Saudades da Praça com seus frondosos pés de Fícus e seus habitantes famosos: Curisco, Maria Sai da Lata, Lambretinha e Velocidade (Esdras de Oliveira). Só não gostava quando papai pedia para mim – o filho mais velho – pedir dinheiro emprestado àquele que me fez o teste de voz e deixou-me frustrado.

Quando tinha fome comia ali mesmo. Um arroz doce, um caldo de cana ou cachorro quente de carne moída com cuscuz café da mata vendido naqueles tabuleiros de alumínio.

Salve meu querido Alecrim em seu centenário.

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