A propósito do encontro de um maestro com uma estrela

A cantora Glorinha Oliveira poderia ter evitado a síndrome Romário e resistido à tentação de anunciar o fim de sua carreira nos palcos, na histórica noite em que se reencontrou, no tablado do Teatro Alberto Maranhão, com o maestro Waldemar Ernesto, o mais contemporâneo dos seus contemporâneos musicais. O evento denominado com exatidão de “Encontro do Maestro com a Estrela” aconteceu sob os auspícios da nostalgia dos mais antigos, que recuperaram, naquela improvável ocasião, um turbilhão de amenas lembranças juvenis; aos jovens, restou desfrutar um espetáculo ainda mais raro: o encontro de dois nomes emblemáticos da nossa música, mas que pareciam imersos nas singularidades de suas vidas e acomodados ao anonimato da solidão e do recolhimento e que, numa reversão horária executada com a perícia de um mestre artesão, voltavam ao palco de onde haviam recolhido, há décadas, aplausos e gratas manifestações de júbilo, para ter tudo isso de uma só penada, e pela primeira vez.

O espetáculo revestia-se de um significado tão solene que o mestre de cerimônias Tarcísio Gurgel precisou intervir para reverter o sentido que a cantora, num arroubo que não soube conter, deixou supor que fugiria ao script que lhe fora confiado. “Rompimento unilateral de contrato não vale”, bradou, joco-sério, o experimente apresentador do celebrado programa “Memória Viva”, dublê de professor. Mas também ator e ficcionista.

O fato É que Glorinha imprimiu tanta alma na interpretação da canção “Se todos fossem iguais a você”, velho hit da dupla Tom/Vinicius, que não conteve um surto de voz embargada, de lágrimas súbitas e de contorções faciais que compõem um rosto tomado por profunda emoção. Algo há nessa canção que fala mais fundo ao íntimo da cantora e que a coloca de sobreaviso contra seu emocional. E nessas horas, a ideia de desertar dos palcos lhe parece uma saída obvia. Ou sucumbiria ao peso de tanto emoção…

Chamada de volta ao roteiro preparado para aquela noite, que precisava ser impecável como sonharam seus realizadores, Glorinha Oliveira precisou da ajuda do seu filho Aécio para se recompor, enquanto a plateia se deliciava com o despojamento com que a estrela relegava seu status de musa de quatro gerações.

Mas logo tudo se rearrumou no palco. Como se tudo não tivesse passado de uma reação pueril de que se controla de pronto, a estrela de Glorinha voltou a exprimir um brilho ainda mais intenso. Com isso, reatou a parceria com o maestro Valdemar Ernesto, o que se traduziu numa sucessão de clássicos da música popular brasileira o que, além de garantir uma unidade perfeita ao espetáculo, conferindo-lhe um inegável estatuto de “histórico”, serviu ainda para magnetizar a plateia, fosse pela perícia interpretativa do maestro – que parecia ter recuperado todo o seu melhor estilo anos 1950 –, fosse pela força emocional com que a estrela destilava os versos de rara beleza embutidos nas suas canções.

E se Glorinha se mostrava loquaz como quando em paz com seu público, esse traço só serviu para acentuar a discrepância com o autoimposto silêncio do maestro. Em algum momento do espetáculo, porém, ele próprio se deu conta disso e aproveitou a ocasião em que, atendendo a pedidos, interpretou duas canções da Broadway. Ao final, erguendo-se com o garbo incontrastável dos mestres de orquestra, dirigiu-se ao público. Foi uma fala breve, como convinha ao seu perfil discreto. Não obstante, ele parecia guardá-la há muito na expectativa daquele momento. Destarte, lembrou suas origens gaúchas, sua vinda para Natal e a excelência dessa decisão, vez que aqui se realizou profissionalmente, construiu sua família e fez dos norte-rio-grandenses seu povo de eleição.

Ao se cerrarem as cortinas, ficou a grata impressão de que ainda se podem celebrar noites históricas num recinto das artes. Desde que se reúnam grandes (e raros) artistas, algum milagre se deixa seduzir ao palco.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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