A queda para o alto

Por José Castello
A Literatura na Poltrona

Depois de ler meu post da última quinta feira, que trata da “alma” como condição para a escrita, a leitora Rita Cássia de Sousa escreve perguntando por que considero que os best sellers não são literatura. “Você não disse que podemos tudo?”, ela relembra, com razão. E, aflita, desabafa: “Preciso saber se posso considerar literatura o que escrevo”.

É sempre bom passar as palavras a limpo. Quando falo de best sellers, não me refiro aos livros que vendem muito, ou que têm grandes tiragens. Grandes livros – por exemplo, O filho eterno, de Cristovão Tezza – vendem muito bem e nem por isso perdem a qualidade. Não é o balanço contábil, ou o êxito comercial que confirma, ou desmente o valor de um livro.

Falo, sim, daqueles livros escritos “para vender” – e que, apesar disso, nem sempre vendem! Livros que seguem fórmulas comerciais, que imitam outros livros bem sucedidos, ou que repetem livros já escritos. Livros “sem alma” – para voltar à tal palavra difícil de ontem. Como diz Marcus André Vieira, este livros não passam de cadáveres.

Afora os livros em que a escrita se pauta pela perspectiva comercial, penso ainda em um segundo engano: aquele cometido pelos imitadores. Pessoas que admiram Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond, e passam a achar que escrever bem é escrever “como Rosa”, ou “como Drummond”. Já participei do júri de muitos prêmios literários. Um número imenso de pessoas comete esse erro. Que é, me parece, bem mais que um erro: é uma fuga. O sujeito não ousa se enfrentar, então se esconde sob a máscara do outro.

Não sou eu quem devo responder sua pergunta, Rita, mas você mesma. Como leitor, eu poderia avaliar seus escritos, fazer elogios, ou restrições, relatar o que sua leitura me provoca, discutir aspectos específicos. Mas só isso. Ajuda, sim, mas não resolve nada. A única pessoa autorizada a avaliar o que você escreve é você mesma. O escritor precisa, antes de tudo, sustentar o que escreve. Sustentar suas palavras, ou não será um escritor, mas só um escrivão. Com todo o respeito pelo trabalho do escrivão.

Li, outro dia, um conto de Anton Tchekhov que me ajuda a pensar um pouco mais. Chama-se “O sapateiro e a força maligna”. É a história de Fiodor, um sapateiro sufocado em encomendas, que atravessa as noites trabalhando e, apesar disso, está sempre sem dinheiro. Um dia, quando faz a entrega de um par de botas, se abaixa para ajudar o freguês a experimentá-las. Descobre, horrorizado, que, em vez de pernas, seu freguês tem patas de cavalo. Não está diante de um homem, mas do diabo.

Fiodor sabe que, apesar de maligno, o diabo é muito inteligente. Toma coragem e lhe faz um pedido: quer ser um homem rico. O diabo _ seguindo uma tradição que vem do lendário Fausto _ lhe propõe um pacto. Fiodor enriquecerá, mas deverá lhe dar, em troca, a sua alma. (A alma mais uma vez…)

O sapateiro passa a levar uma vida de luxo. Tem dois lacaios, que lhe servem banquetes, e não precisa mais trabalhar. No lugar de Mária, sua fedorenta esposa, tem agora “uma patroa alta, peituda, de vestido vermelho”, a quem ele, embevecido, começa a beijar.

Novos problemas, que não esperava, começam, no entanto, a perturbá-lo. É rico, e agora tem medo de ser roubado. Já não pode cantar a plenos pulmões no meio da rua, como fazia antes, porque precisa manter a pose de senhor. Os mendigos, que o ignoravam, agora o atormentam. Quando, desajeitado, beija a nova mulher, leva um safanão nas costas. Continua a ser o mesmo desastrado.

Entra em pânico – mas, para sua salvação, acorda. Seu freguês, um homem de carne e osso, e não o diabo, se perfila diante dele e reclama que suas botas não foram entregues. Foi só um pesadelo. Dizendo de outra forma: uma travessia. Travessia de que? Não sei responder. Sei que foi uma travessia rumo a si mesmo.

Além de escritor, Tchekhov era médico e tinha uma visão muito objetiva não só da existência, mas da literatura. Não escreveu esse conto para exaltar, ou para diminuir a riqueza, ou a pobreza. A grande descoberta de Fiodor é que todos temos problemas e só nos resta partir deles. Tudo o que resta a um homem – qualquer homem – é “cair em si”. Ou não chegará a lugar algum.

Esta “queda em si” é, para usar outras palavras, uma aproximação da “alma”. É o ponto de partida de todo escritor: não a conquista, porque ela é impossível, mas a aproximação (muito frágil e parcial) de si mesmo. Não adianta pensar se você vai vender muito, ou pouco. Se vai receber elogios, ou críticas. Isso só atrapalha, só bloqueia o caminho.

Se você escrever pensando em resultados, “sai de si” e não escreve o que tem de escrever. Quando falo de best sellers, falo dessa “literatura de resultados” _ tão em moda em nossos tempos, em que tudo se mede pela relação custo-benefício. Continuo sem saber se ela merece o nome de literatura. Sei, apenas, que existe.

Escritores não vendem a “alma” – até porque a “alma” não se vende. Todo bom escritor é intransigente _ contra tudo e contra todos, faz o que deve fazer. Escreve o que tem de escrever. Agarra-se a si mesmo e não se larga. Foi o erro de Fiodor: abandonou a si mesmo, como um capote velho, e se esvaziou. Tornou-se só um cadáver de si.

Recordo, ainda, uma história que vivi. Um dia, em uma oficina, um aluno me entregou um conto. Vinha em um envelope lacrado. Pediu que eu só o lesse em casa e não o comentasse com ninguém. Era um conto assombroso e tenso, a história de um rapaz que violentava crianças. A leitura não me caiu bem, me atordoou, não me deixou dormir – era um conto estupendo! Um dos melhores contos já produzidos por meus alunos.

Na aula seguinte, lacrado no mesmo envelope, eu o devolvi ao rapaz. E me limitei a dizer: “Aqui está o que você é”. Não estava dizendo, é claro, que ele era um estuprador, estava dizendo que era um escritor. Para deixar isso claro, acrescentei: “Para se transformar de fato em um escritor, só lhe falta sustentar o que escreve”. Quis dizer que devia jogar o envelope fora e entregar o conto a seus leitores.

Acho que fez o contrário, pois nunca mais voltou à oficina. Creio que desistiu de escrever. A “queda em si”, muitas vezes, se parece com a queda em um abismo. Mas, como dizia o título de um livro que li na juventude, ela é, na verdade, uma queda para o alto.

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