A questão do feedback

Por Joca Reiners Terron
BLOG DA COMPANHIA

“Feedback é um método para controlar um sistema reinserindo nele os resultados do desempenho passado”. Wiener, Norbert. Deus, Golem & Cia, 1971

1.

Parece que não temos sido suficientemente artísticos. É claro que não temos nos dedicado o suficiente, não mergulhamos tão fundo, estamos longe de alcançar o cume. Não temos sido tão estéticos quanto deveríamos, não desenvolvemos uma poética, como dizem. Não temos passado sozinhos o tempo que deveríamos, deve ser isso. Andamos nos preocupando demasiado com os rumos da política do país.

Não conseguimos ficar em casa tempo suficiente, e mesmo quando ficamos, desperdiçamos nosso tempo nas redes sociais. Talvez sejamos bons em automarketing, parece que sim, talvez sim. Alguns de nós também são bons no que se nomeou self-performance, e até mesmo desenvolvemos alguma consciência do novo modo que as coisas arranjaram para funcionar. Isso tudo, claro, aliado à nossa dedicação em usufruir do tempo em que vivemos, ocupa todo o nosso tempo. Não sobra muito tempo para que sejamos artísticos o suficiente, para que mergulhemos suficientemente fundo. Para que desenvolvamos uma poética, como dizem.

Desperdiçamos tempo demais vivendo nosso tempo, a vida de nosso tempo, gastamos tempo demais com o tempo dos outros. Não conseguimos ficar muito tempo sozinhos, precisamos de feedback. Alguns de nós talvez sejam bons em obter feedback, e parecem entender disso, de feedback, da importância do feedback, do modus operandi das novas mídias. Mas a verdade é que não conseguimos comover ninguém, não tocamos suficientemente fundo as pessoas. É o que dizem.

Parece que é uma limitação geracional, essa impossibilidade de ir mais a fundo, de ter coragem de ficar sozinho por tempo suficiente para que a mágica ocorra. Não acreditamos muito em mágica, certamente isso faz parte do problema. Necessitamos de feedback, nascemos quase ao mesmo tempo que o Big Brother. Não me refiro ao personagem de Orwell, mas ao reality show. É imprescindível que tenhamos tanto feedback quanto um big brother, e se isso não for possível, que ao menos recebamos o feedback dedicado a um ex big brother.

A verdade é que não dedicamos tempo suficiente para desenvolver uma poética, como dizem, para adquirir uma voz própria, como também dizem, pois passamos o tempo todo pensando em feedback, em convívio digital, em militância política nas redes sociais, em pensar os rumos do país por meio de tweets de cento e quarenta toques. E não temos sido suficientemente artísticos nisso, parece que não dedicamos o tempo necessário para que desses tweets e posts e fotos saia algo meramente digno de nota. Passamos o tempo todo pensando em feedback, em talvez obter algum feedback na França, na Alemanha, lá em Frankfurt, quem sabe. E com isso desperdiçamos a possibilidade de estarmos a sós e sermos verdadeiramente artísticos ao estarmos sozinhos, pensando, sofrendo muito, sofrendo demais mesmo.

Parece que não somos muito bons nisso de sofrer, e há quem sofra melhor que nós. Deve ser muito bom poder sofrer bem, sofrer à altura, sofrer artisticamente e com isso fazer com que a mágica ocorra, que surja a poética, como dizem. Mas também não somos muito bons nisso, em mágica. Somos bem medíocres mesmo, artisticamente falando. É porque precisamos verificar o andamento daquele botão de likes ali de cima, e conferir os comentários naquela caixa ali embaixo, e a repercussão nas mídias sociais. Também temos passado tempo demais nos preocupando com a PM, o que acaba atrapalhando o sofrimento estético pois o que a PM causa nem sempre é um sofrimento estético, é porrada mesmo e dói no couro, não na estética. Mas parece que nisso nós somos bons, em levar porrada, até parece que gostamos. Talvez porque a porrada também seja um tipo de feedback, deve ser isso, e nós precisamos muito de feedback. Talvez seja pelo fato de termos nascido quase ao mesmo tempo que o Big Brother (o reality show), que foi um programa de TV que meio que mudou tudo isso, que “colapsou a diferença entre produtor e consumidor”, como definiu alguém mais inteligente que eu (e que fica tempo suficiente sozinho para desenvolver um raciocínio estético convincente). Esse alguém, chamado Steve Rushton, escreveu um dos livros mais interessantes que li o ano passado (levei muito tempo para lê-lo, pois não conseguia ficar suficientemente sozinho para me concentrar), e nele afirma que o Big Brother teve “interessantes consequências econômicas porque, apesar de trabalharmos para que essa mídia funcione, recebemos pouco ou nenhum dinheiro pelo trabalho que realizamos — de fato, na maioria dos casos somos nós quem pagamos de nossos próprios bolsos. O lucro de nosso trabalho vai, na verdade, para produtoras (de TV), companhias telefônicas e conglomerados da grande mídia, assim como para as empresas que nos vendem equipamentos mais atuais. Como consequência disso tudo, não podemos mais afirmar que vivemos na “sociedade do espetáculo”. Somos tudo, exceto consumidores passivos de produtos; nós vivemos em uma sociedade de self-performance na qual constantemente apresentamos a nós mesmos e despertamos o interesse dos outros por aquilo que fazemos, e esta self-performance é uma mercadoria que tem um preço.”

2.

A reflexão de Rushton (que se estende a outros aspectos — todos interessantes — das relações entre a TV comercial, novas mídias e arte contemporânea) fornece aqui outra chave de interpretação, pois sua descrição das novas formas de recepção surgidas com o reality show descreve à perfeição o que é e como funciona a literatura, principalmente a poesia e a dita ficção literária, nos dias atuais. Se não existe algo novo nessas relações é justamente o feedback, e a necessidade que todo autor tem de retorno, não necessariamente financeiro. O lucro costuma passar bem longe da preocupação de qualquer autor com certo nível de sanidade, e não me refiro somente a brasileiros.

Porém alguma distorção surge do choque entre self-performance e criação literária — de novo Rushton: “Não creio que desvie para os campos da ficção científica se sugerir que a mídia contemporânea criou uma forma de relação imediata na qual a subjetividade humana é o principal objeto de produção e consumo, e a mídia funciona como facilitadora de produção e consumo” —, e não é de todo impossível que justamente desse atrito surjam qualidades bastante características da literatura contemporânea. Exemplo 1: que grandes e ricos personagens são J.P. Cuenca e Xico Sá. Problema 1: que grande desafio os escritores J.P. Cuenca e Xico Sá têm pela frente, o de criar personagens literários tão bons quanto eles próprios são (na vida real e no ambiente midiático da self-performance, que no caso de ambos inclui a TV). Problema 2: como disputar atenção consigo mesmo? Exemplo 2: o escritor self-performer não compete com os personagens resultantes de sua própria criação, pois são um sujeito só, uma commodity que tem um preço. Hipótese 1: não existe competição em literatura; não é possível haver competição fora do mercado. Hipótese 2: portanto, se a obra compete no mercado — é incluída em listas de mais vendidos, vende, é comprada —, por exclusão, não é literatura. Hipótese 3: tudo o que é verdadeiramente literatura converge — reúne, soma, expande, amplia —, encontrando particular espaço de desenvolvimento em situações coletivas: revistas literárias, blogues, mídias sociais tipo Skoob, clubes do livro, oficinas de criação e leitura etc. Exemplo 4: no mundo da cyberliteratura (e da self-performance) só existe o feedback, cujas atribuições antigamente eram dadas ao velho DESTINO.

3.

Ezra Pound comparou o capital do conhecimento com o crédito bancário. “A referência de um escritor é o seu ‘nome’”, escreveu o poeta em ABC da Literatura (1934), prosseguindo: “(…) uma afirmação abstrata ou genérica é BOA quando se verifica, em última análise, que ela corresponde aos fatos. Mas nenhum leigo será capaz de dizer à primeira vista se ela é boa ou má.” E completou: “Seu significado só pode ser avaliado adequadamente por alguém que SAIBA.”

Com a self-performance, porém, as tradicionais etapas do aprendizado são borradas: não há mais a divisão professor/pupilo. O escritor self-performer já nasce sabendo, ou melhor: sua prioridade é existir, atuar, dar-se a ver, e não professar um ofício. Literatura em tempos de Facebook é, nesse sentido, ressurreição: “ei, nem todos os escritores estão mortos, eu estou vivo, por exemplo, e estou bem aqui”, diz o self-performer. Não há ascensão (o lento desenvolvimento do ofício literário), só queda. Ao escritor vivo só lhe resta morrer. Mas antes terá de errar. Se tiver sorte, terá tempo para isso.

Assim como na trajetória de um big brother, o self-performer deve dar sinais de desenvolvimento: 1. Por meio de provações, deve provar que é boa pessoa. 2. Deve evoluir, pois isso ensinará algo a seus seguidores, que também querem se tornar pessoas melhores. 3. É um personagem regido pelo feedback, pela moldagem progressiva de seu caráter em decorrência do desejo de seus seguidores (seja bom que eu serei também; na linguagem do BBB, aja corretamente que te salvaremos do paredão).

Períodos de turbulência sociopolítica são ideais ao self-performer, que pode se autoatribuir valores positivos. Para isso, basta se armar contra o Estado-nação e suas instituições (a PM, por exemplo, mas também outras manifestações da tradição, como a própria ideia de literatura nacional, ou contra a geração a que pertence, ou contra a ex-mulher que o corneou). Isso deve ser observado com muita isenção, pois o self-performer não é mais regido pelas convenções, e sim por um estado de permanente visibilidade e autoconfiança.

4.

A cultura do feedback tem mecânica idêntica à da construção de celebridades do star system. De acordo com Mark Andrejevic, o regime panóptico (poucos vigiam muitos) terminou e vivemos sob o regime do sinóptico (muitos vigiam poucos). No caso da literatura isso tem provocado impensáveis demandas de domesticação. Penso no artigo que o escritor selvagem Reinaldo Moraes fez para a Audi Magazine, relatando test-drive de dois dias feito ao volante de um Audi S5 Sportback. Ou de outra experiência do mesmo autor de Pornopopéia, na qual relata aos entretidos leitores da revista do banco Itaú Personnalité seu primeiro vôo em um planador. Tal submissão, da mesma forma que a autoadesão do escritor a valores positivos como a militância política ou a qualquer posição de poder e de correção, age ao mesmo tempo a favor do self-performer — e de sua sobrevivência econômica — e contrariamente à literatura e sua essência negativa, composta de caos e anarquia.

5.

Como o assunto não tem fim, mas o espaço sim, encerro com uma citação de Don DeLillo (extraída de Mao II):

“— Faz algum tempo que tenho a sensação de que tanto romancistas como terroristas se encontram imersos em um jogo de lógica.

— Interessante. Em que sentido?

— O que os últimos ganham, perdem os primeiros. O grau de influência que obtém sobre a consciência das massas depende de nossa decadência como modeladores do pensamento e da sensibilidade. O perigo que representam equivale ao nosso próprio fracasso na hora de sermos perigosos.

— E quanto mais claramente vemos o terror, menor impacto nos produz a arte.”

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua e Não há nada lá. Seu livro mais recente, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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