A ressurreição do apóstolo Paulo

ANTONIO CICERO

“HÁ POUCOS meses, o papa Bento 16 anunciou que haviam sido encontrados os restos mortais do apóstolo Paulo.

Nesse ponto, Ratzinger estava atrasado. Em alguns círculos de esquerda, esse apóstolo já havia sido ressuscitado fazia algum tempo. Basta lembrar o livro de Alain Badiou, de 1997 (“São Paulo: a Fundação do Universalismo”), o de Giorgio Agamben, de 2000 (“O Tempo que Resta: Comentário à Carta aos Romanos”), a reedição, em 1993, do livro de Joseph Taubes (“A Teologia Política de Paulo”) e as muitas páginas que Slavoj Zizek tem ultimamente dedicado a esse apóstolo (por exemplo, em “O Absoluto Frágil”).

Ora, nenhum leitor das invectivas de Paulo contra a filosofia e a racionalidade (por exemplo, em 1 Co 1:19-27 e 3:18-20 e Ro 1:21-22) pode ignorar que ele foi um dos fundadores do irracionalismo cristão. De fato, esses escritores me parecem ser atraídos exatamente pelo irracionalismo de Paulo. Por quê?

Consideremos Badiou. Recentemente, ele tem escrito (por exemplo, na revista “Piauí” de agosto de 2007), sobre a “hipótese comunista”. Basicamente, essa consistiria na suposição de que seja possível eliminar a desigualdade das riquezas, a divisão de trabalho e o aparelho de Estado coercitivo, militar e policial, separado da sociedade civil.

Francamente, não sei se é mesmo possível ELIMINAR a desigualdade ou o aparelho de Estado. Entretanto, Badiou diz também que essa “hipótese” é “uma ideia com função reguladora, e não um programa”. Se isso significa que quem adota a “hipótese comunista” é aquele que orienta suas ações políticas no sentido de, entre outras coisas, promover a diminuição da desigualdade das riquezas, flexibilizar a divisão do trabalho e diminuir a necessidade do Estado coercitivo, então ela é a hipótese que eu mesmo adoto.

Contudo, é preciso lutar por essas coisas em uma sociedade aberta. Um famoso hino alemão oriental dizia que “o Partido sempre está certo”. Tal secularização do pensamento religioso constitui o ápice do irracionalismo e acabou por produzir incalculável sofrimento.

As terríveis experiências do século 20 apenas confirmam empiricamente algo que, por direito, já se sabe desde o iluminismo: nem a igreja, nem a Bíblia, nem o partido, nem o líder genial, nem as massas, nem ninguém é capaz de sempre estar certo. Nada está acima de ser criticado. Por isso, a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. são exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão.

Ademais, nem a violência brutal e sangrenta da ditadura do Partido Comunista da URSS e da Revolução Cultural Chinesa foram capazes de impedir o desenvolvimento do capitalismo selvagem e mafioso -privado e estatal- que hoje medra tanto na Rússia quanto na China.

Ora, não há por que pensar que não seja possível, mesmo nos marcos de uma sociedade aberta, adotar a “hipótese comunista” como ideia reguladora. Uma das provas de que as coisas podem melhorar é hoje a própria experiência brasileira, nos últimos 15 anos de governos democráticos de esquerda.

Mas, naturalmente, os seguidores do apóstolo Paulo não pensam assim. Apesar de reconhecer que “o marxismo, o movimento operário, a democracia de massas, o leninismo, o partido do proletariado, o Estado socialista, todas essas invenções notáveis do século 20 não nos são mais realmente úteis”, Badiou prefere crer na revolução do que na razão.

Para ele, a Revolução Francesa abrira um primeiro período revolucionário; a Revolução Russa, um segundo. Aguardando o próximo, ele confessa: “Não estou em condições de dizer com certeza o que é a essência do terceiro período revolucionário que vai se abrir”. Por que tal mistificação escatológica?

Evidentemente porque ele quer rejeitar em bloco a sociedade aberta em que vive e não é possível fazê-lo racionalmente. Assim, precisa relativizar a racionalidade. É onde entra o apóstolo Paulo. Embora a racionalidade clássica considerasse irracionalistas as teses de Paulo, estas, segundo Badiou, constituíram um “acontecimento” que superou aquela, inaugurando um novo tipo de universalismo. É assim que a racionalidade contemporânea deverá tornar-se obsoleta, quando se der o “terceiro período” da Revolução…

Dada a pressuposição de que a racionalidade contemporânea não combina com tais teses, suponho que -como convém a um discípulo de Paulo- elas se sustentem exclusivamente na fé.”

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