A retórica do ódio

Por Vange Leonel
REVISTA FÓRUM

Nada mais é tão simples. Se você, leitora ou leitor, sente saudades de quando as coisas eram mais fáceis de entender, acostume-se: está cada vez mais impossível compreender as relações humanas e os acontecimentos da vizinhança ou do mundo sob uma ótica simplista. O discurso das dicotomias irreconciliáveis (o bem contra o mal, Ocidente versus Oriente, nós contra eles) já não dá conta de explicar o mundo. Pior: essas visões cindidas podem degenerar em uma retórica do ódio.

No início da guerra do Afeganistão, o presidente estadunidense George W. Bush declarou que “quem não está conosco, está contra nós”, como se não houvesse relações multilaterais entre as nações. Depois, apontou um eixo de países “do mal” e ganhou, através deste discurso maniqueísta, corações e mentes para sua guerra ao terror. Amedrontados desde o atentado de setembro de 2001, grande parte da população adotou (ou acabou absorvendo involuntariamente) a fala do bem contra o mal.

Após oito anos de conflitos armados em terras distantes, o ódio e o rancor cresceram assustadoramente nos Estados Unidos. Mídia e políticos conservadores alimentam uma permanente sensação de alerta. A impressão é que um Estado Policial vai sorrateiramente se estabelecendo naquelas paragens gringas. Não à toa, muitos cidadãos ali enxergam inimigos em toda parte: árabes, muçulmanos, imigrantes, governo, impostos, o sistema e assim por diante. Enfim, há sempre um “outro” ameaçando o american way of life.

Mas por que falar da sanha reducionista e da retórica do ódio nos Estados Unidos? Porque, infelizmente, testemunhamos exemplos deste artifício perverso de arregimentação de corações e mentes nas eleições presidenciais brasileiras de 2010.

Logo após a vitória de Dilma Rousseff, manifestações de ódio regional tomaram as redes sociais na internet. No Twitter, sudestinos pediram a morte de nordestinos “ignorantes” que votaram “com o estômago” pelo continuísmo. Esses novos supremacistas adotaram o raciocínio tosco que o Bolsa Família (ou como eles gostam de chamar, “bolsa esmola”) não passa de assistencialismo e que serve apenas “para criar uma horda de vagabundos”.

Quando a psicanalista Maria Rita Kehl desnudou esse preconceito em sua coluna no Estadão, analisando aspectos complexos do impacto socioeconômico do Bolsa Família, foi demitida. O jornal paulista, alinhado com a candidatura Serra, achou por bem afastá-la. Aos neoconservadores só interessava bater na mesma tecla simplória: Bolsa Família, não; Estado mínimo, sim. Da acusação do tipo “vagabundos que recebem benefício” ao ódio regional, foi um pulo.

Outra expressão nefasta da simplificação exagerada ocorreu durante as eleições e foi até mais perigosa, a meu ver, por envolver também doutrinas e sentimentos religiosos. Quando a esposa de José Serra, em campanha na periferia do Rio de Janeiro, espalhou levianamente que Dilma Roussef “matava criancinhas”, a demonização da candidata começava a tomar corpo como tática de campanha. Mônica Serra depois explicou ter dito “criancinhas” para ser facilmente entendida por pessoas “humildes”, que não sabem o que é “feto”. Junte-se a esse episódio os milhares de panfletos difamatórios distribuídos à população, com acusações como “Dilma assassina”, e temos um belo exemplo de como usaram e abusaram de injunções simplistas e demonizações por aqui.

Será que a vocação brasileira para o sincretismo étnico, o religioso e o cultural pode, de alguma maneira, impedir que a retórica do ódio emplaque no Brasil? Acredito que nossa vocação tropical para a diversidade pode ser uma arma poderosa contra dicotomias estanques, dogmas babacas e moralismos hipócritas. Viva a banda-da da Carmen Miranda da-da-da-da!

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