A Revista da Clínica

Por Sebastião Carneiro da Silva

Esse negócio de rir é engraçado. Desculpem a impropriedade vocabular, ou o trocadilho da sentença. Saiu sem eu querer, meu nobre. Por que não a deletei, se precisei me desculpar? Porque sinto enorme dificuldade em abrir um texto. Então, quando algo me vem à cabeça, procuro logo trancafiá-lo na prisão do word. Algo é escorregadio demais, gente. De mais a mais é titubeante. “Algo me diz” não dá garantia alguma de que o que o bexiguento está a nos dizer seja a expressão da verdade, não é certo? Mas, como estava dizendo, esse negócio de rir é engraçado.

Você começa a rir, e quem está por perto se dana a rir também. Pois então, ontem fui protagonista de uma sessão de riso pra lá de engraçada. Droga, que chatice mais sem graça esse engraçado depois de riso. Se bem, e pensando bem, existe o riso sem graça. Taí o riso amarelo que não me deixa mentir. Bom, a sessão de riso ocorreu numa clínica. Cheguei à clínica, apanhei uma revista e comecei a folheá-la. Passei a vista num artigo interessante, mas, por isso mesmo, por ser interessante, só passei a vista, pois teria que ler com calma para entendê-lo. O interessante é pertinente, haja vista o autor discorrer sobre as entrelinhas de um texto. A título de exemplo, ele mostrou um escrito em que certo escritor elogiara um colega – ou fingira elogiar, mas alguns amigos do elogiado viram ferina discriminação naquele louvor – ou supunham estar vendo. A fim de ilustrar o artigo, o articulista bolou uma tabela de duas colunas. Numa, pôs o nome dos partidários do autêntico elogio. Noutra, relacionou os adeptos do suspeito confete. Pulei o gráfico e passei para a página seguinte. Vou passando as páginas, desinteressado todo, mas uma galhofeira prosa ativou-me a coceira da curiosidade. A comichão transformou-se em riso, sorriso, gargalhada. Maluquice completa, minhas nobres. “Tá lendo o que, meu amigo, pra rir desse jeito”, indagou-me um sujeito de paletó nas costas, ajeitando a gravata, espantoso crachá dependurado no pescoço, de óculos escuros (ele, não o crachá, é lógico), sentado defronte de mim. “Desculpe, amigo. Descontrolei-me com uma crônica que tem aqui. Desculpe se o perturbei.” “Deve ser um texto de muito bom humor, não?” “É.” Juro que me deu vontade de dizer “Não. O texto é sangrento, moço. Reporta-se à ruma de gente que neste instante está gemendo nos corredores do Walfredo Gurgel.” Respondi o é e voltei pra leitura: “É sobre o quê?” Porra! É claro que em respeito ao ambiente não soltei a obscenidade. Mas bem que o cara merecia. “É sobre um jumento imbecil. Aliás, o dono do jumento é que é imbecil.” “Ah, jumento. Andei muito de jumento. Sabe, amigo”, animou-se o engomadinho, mudando de lugar, sentando-se ao meu lado, batendo em meu ombro. “Sabe, amigo, andei muito de jumento. Sempre gostei de história de jumento…” Olhei pra recepcionista e perguntei se a minha vez ainda ia demorar. O infeliz não se mancou e tome conversa de jumento. Fiquei me coçando todo, doido pra meter umas porradas verbais no idiota conversador. Mas ponderei e sugeri. “Quer ler a prosa, amigo? Tome a revista.” “Não posso. Tô com os olhos que não aguento. Parece que é conjuntivite. O senhor bem que podia ler pra mim. Ficar-lhe-ia muitíssimo grato.” Puta que pariu. Pensei no palavrão – no meu e no dele – fiquei olhando pro sujeito, comecei a rir, os vizinhos também, a recepcionista foi no embalo. Uma zorra total. Só o cara ficou sério, acreditam, meus nobres! Aí, sabem o que fiz? Abri a revista e comecei a ler:

Meu jumento, o Sabido, passou quinze dias comendo a rama daquele jerimum. Sabido pastava pela manhã e à tardinha. Ele comia, comia e a rama não acabava. Sabes, né, Simas, que existe jerimum cuja ramagem mede 10, 15 metros. Pois então. Mião descreve a cena assim: Até que lá pelo dezesseis, dezessete dias, o Sabido acabou a rama. Comeu a rama todinha. Aí o cabeça de vento não teve o que fazer e socou-se dentro do jerimum. Sabido ficou de bucho tão cheio que terminou pegando no sono dentro do jerimum. Foi preciso cinco homens pra arrancar o Sabido de dentro. Chegamos à vila e fomos direto tomar uma bicada na venda do Chicão. Quando contamos a história, o delegado Silva quis botar a gente no xilindró. Cambada de mentiroso, disse ele. Vão ver o sol nascer quadrado que é pra aprenderem a mentir. Nossa sorte foi o compadre do delegado, o Tico de Seu Zé do Varão, está com a gente. Tico de Seu Zé do Varão foi em casa… Tico da Varinha, fazendo um parêntesis, sempre foi um sujeito prevenido. Ele procura arrumar uma prova em tudo que faz. Então a gente tinha botado quatro sementes do jerimum na carroça de Sião de Seu Kião e deixado na casa do Tico da Varinha. Esse costume começou quando o Tico tava no cabaré e as primas começaram uma discussão com o intuito de saber se o apelido Tico da Varinha tinha nascido do fato de… Bom, o Tico da Varinha falou assim pro delegado Silva: “Com todo respeito meu cumpadre Sirva, mas a gente num somo de mentira não. Espere um tempinho que vou em casa que é pra trazer a prova.” O delegado balançou a cabeça, e nosso amigo Tico da Varinha saiu acompanhado do Pedro do Zé Buchudo e do Gonçalo do Luiz Gordo. Daí a pouquinho eles chegaram com quatro sementes do jerimum e jogaram na calçado do biongo, nos pés do delegado. O delegado deu um pulo, mas não teve jeito: acabou machucando o pé direito com uma das sementes. A gente deve esse grande favor ao Tico da Varinha. Foi isso.

Terminei de ler a vara e a remo. As partes de baixo eram uma comichão só. Por sorte, a atendente me chamou: “Sua vez, Sr. Tião.” Constrangido, visto todos olharem pra mim, levantei-me e me encaminhei para o consultório. Ou melhor, tentei caminhar, pois tive que me voltar e responder ao aloprado, que me perguntava alto e bom som: “É chato, é seu Tião?” Aí, puto da vida com a coceira e com a impertinência do sujeito, olhei bem pro crachá do infeliz, decorei o nome, pensando em pô-lo em certa listinha que faço todo fim de ano, dei uma coçada daquelas e silabicamente respondi:

É por-ra! Não tá ven-do não, por-ra?

Tião Carneiro

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