A Revolta dos Bobos e A Contra-mola

Por Jota Mombaça

Quando me perguntaram, um dia desses, em conversa informal, sobre a arte em Natal, eu respondi com um discurso imenso o que hoje – eu sei – eu bem poderia ter sintetizado em uma só palavra: subdesenvolvimento.

Do Auto de Natal 2009, onde atuei, com cara de parede, compondo o que chamam de Elenco C (dispensada, em geral, aos marginais do grupo), restou-me uma camiseta com a logomarca do matronal Natal em Natal arrancada e onde se pode ler, na parte de trás, a palavra artista (que já estava lá quando nos entregaram) e o complemento subdesenvolvido (que eu mesmo escrevi na ocasião).

A experiência com o Auto de Natal do ano passado, esse que gerou vã polêmica, serviu para que eu melhor compreendesse minha condição de artista nesta cidade. Na ocasião, ao subirmos no palco, com um protesto articulado minutos antes, estávamos todos à flor-da-pele e foi à flor-da-pele que recebemos, no meio da apresentação, a “ordem” de cancelar o protesto: dois de nossos artistas teriam sido procurados por um dos figurões da Capitania que os teria sugerido, de maneira bastante incisiva eu imagino, boicotar o tal protesto.

Obviamente isso gerou um desconforto animal em todo mundo ali nas coxias e foi este desconforto que descambou no protesto que efetivamente aconteceu, aquele silencioso e espontâneo ato de tapar a boca e apontar para o camarim da prefeita.

Para que fique claro aqui e agora, a razão do protesto não era tão-somente o dinheiro, estávamos putos com o tratamento que vínhamos recebendo do Amaury Júnior (que representava, ali, a Capitania), eu tinha recorrentemente a impressão de que o produtor pensava nos estar fazendo um favor e que talvez por isso se portasse de forma tão autosuficiente e pedante, como um coitado que experimenta pela primeira vez uma situação de relativo poder e se deixa embriagar por isso.

Ao descermos do palco, veio a reação imediata ao protesto: a prefeita viria, pessoalmente, conversar conosco em um dos camarins. Veio. Desceu do trono para apaziguar a revolta dos bobos. Num discurso que não vale a pena mencionar, cheio de demagogias e floreios, acalmou mesmo a legião de artistas que acabou aquela mesma noite enchendo a cara numa confraternização do elenco.

Quando penso no episódio, depois de ler a entrevista de Rodrigues Neto, reflito sobre a pueril revolta dos artistas. Sinto-me triste por nossa fraqueza, pela forma como apanhamos e, com o rabo entre as pernas, retornamos à casa do algoz como uns pobres-diabos mortos de fome, desesperados por um foco de luz, uma vaguinha na montagem imbecil do nascimento de Jesus e um cachê que é pago como que por favor.

E aí me vem, de um outro lado, contra a corrente, braçada a braçada, a esperança de Ramilla Souza, a força de um encenador como o Dé – trabalhando feito doido para financiar seu projeto de encenação -, a insistência de Júlio Lima e Esso Alencar, o amor à causa de Nalva Melo, este substantivoplural, em alguns momentos a Revista Catorze…

“Quem tem consciência para ter coragem/ quem tem a força de saber que existe/ e no centro da própria engrenagem/ inventa a contra-mola que resiste // Quem não vacila mesmo derrotado/ quem já perdido nunca desespera/ e env olto em tempestade decepado/ entre os dentes segura a primavera.” (APOLINÁRIO, João. Secos e Molhados. 1973)

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