A revolta dos sem futuro

Por Roger Cohen – New York Times
NO VI O MUNDO

Agosto já foi um tempo para sonhar, para andar pelas ruas vazias da cidade, ler reportagens da temporada de não-notícias dos jornais, depois de um almoço regado a vinho Sancerre, de observar as praças onde as fontes espalham água e onde as grávidas e os da melhor idade batem papo nos bancos ao por-do-sol. Então, algo aconteceu.

O mundo acelerou. Os níveis de stress dispararam. Os momentos de folga evaporaram. Os egos se expandiram. Os aparelhos se tornaram portáteis. O dinheiro ultrapassou a política. Como escreveu Leonard Cohen: “O pobres continuam pobres. Os ricos enriquecem. É essa a toada. Todo mundo sabe”.

Exceto que todo mundo está perdido. Quando David Cameron volta das férias na Toscana (a k a Chiantishire) para a tumultuada Londres, e Nicolas Sarkozy volta da Riviera para a crise da dívida de Paris e as férias de verão somem na Europa (onde faz tempo os alemães criaram uma palavra para expressar “a angústia do tempo livre”), tudo pode acontecer.

Agosto [mês de férias no Hemisfério Norte] abortou este ano. O mês se transformou numa temporada de seriedade. As casas de praia perderam para as barricadas. Uma época de revolta se abriu diante de nós.

A fúria nas cidades britânicas veio depois de grandes protestos sociais este ano na Grécia, onde também houve violência, e na Espanha, onde dezenas de milhares acamparam em Madrid e Barcelona. Outras nações, inclusive Portugal, viram uma revolta difusa baseada numa convicção comum: as coisas não podem ficar como está. A malaise europeia não é estranha aos Estados Unidos do grande desemprego, da confusão econômica, da radicalização ideológica e das picuinhas políticas.

Os números contam parte da história. O desemprego dos jovens na União Europeia de 27 nações está pouco acima dos 20%, chegando a atingir 45,7% na Espanha. No Reino Unido, o desemprego juvenil subiu de 14% no primeiro trimestre de 2008 para 20%. Um de cada cinco jovens europeus e norte-americanos está se perguntando como conseguir qualquer tipo de carreira no mercado de trabalho. Os ingleses NEETS (fora da educação, do emprego ou do treinamento para o emprego) se encontra com os meninos-boomerang dos Estados Unidos na ansiedade da espera.

A ansiedade cresce no momento em que os governos cortam benefícios e aumentam a idade mínima para a aposentadoria, numa tentativa de lidar com crescentes déficits. A gerontocracia empregada pouco ajuda os mais jovens. Britânicos de Tottenham a Teesside assistem ao mais elitista ministério desde Macmillan cortar de tudo, das bibliotecas para os jovens a serviços de aconselhamento. Existe um “Sem Futuro” na revolta.

Uma sensação crescente nas sociedades ocidentais é de que forças incontroláveis estão trabalhando para reduzir as possibilidades. A História nunca viu uma transferência de poder tão radical quanto a atual que tenha conseguido se manter pacífica.

A Europa unida de hoje é construída sobre as cinzas de sucessivos impérios — do romano ao britânico — que terminaram com algum tipo de convulsão. Agora o quase-império americano e, mais geralmente, o domínio do Ocidente, não está terminando rapidamente, mas continuamente.

Crescimento, empregos, expansão, entusiasmo — e, sim, possibilidade — estão no grande arco não -cidental da China, passando pela Índia até a África do Sul e o Brasil. Vá para o Sul! Vá para o Leste! Esta é a palavra de ordem desta época, nem sempre praticável em Peckham ou Peoria. O mundo está de ponta-cabeças. O que estamos testemunhando é quanto as sociedades ocidentais estão chacoalhando com a guinada.

No momento em que novos poderes emergem, a globalização alterou a relação entre o capital e o trabalho em favor do primeiro. Muitos trabalhadores baratos se tornaram disponíveis fora do Ocidente no momento em que a tecnologia eliminou distâncias. Os retornos do capital se tornaram maiores em relação aos salários. Esta é a história do pós-Guerra Fria. A diferença entre os ricos e os pobres se tornou um golfo.

As únicas pessoas que sairam sem cicatrizes do grande buraco financeiro que precedeu a confusão atual foram seus principais arquitetos e beneficiários: banqueiros, financistas e os chefões dos fundos de investimento.

Isso também está alimentando um período de revoltas que deixou os políticos ocidentais caçando sombras.

Talvez a sociedade que melhor está lidando com estes dilemas é a Alemanha. Investiu em uma força de trabalho altamente educada. Criou empregos para trabalhadores qualificados. Continuou a fazer máquinas de alta precisão que outros não podem fazer. Promoveu a cooperação entre os sindicatos e os empregadores e entre os industriais e o governo em defesa dos empregos alemães. O desemprego dos jovens está abaixo de 10%.

A Alemanha não embarcou numa corrida sem fim para competir com a China, ou imaginou que as finanças ou outros serviços poderiam sustentar a sociedade, ou abandonou o treinamento, ou tentou desmantelar os sindicatos ou acreditou que os mercados tinham todas as respostas. Os cataclismas passados contribuiram para a capacidade da Alemanha de buscar o bem comum necessário para a estabilidade.

Aliás, a Alemanha também está envolvida num momento de reflexão. Está cansada dos problemas dos outros. Cansada de salvar os gregos. Pesquisas sugerem que 50% dos alemães tem pouca crença na União Europeia, o caminho adotado pelo país depois da guerra para buscar a reabilitação. A liderança alemã se tornou um oxímoro bem na hora que é necessária.

Os Estados Unidos e a Europa ocidental salvaram a Alemanha. Talvez tenha chegado a hora de pagar de volta um pouco do favor — não apenas com dinheiro, mas com ideias.

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