A revolução digital da cultura

Por Bruno GALO
NA ISTO É DINHEIRO

Você não vai mais precisar guardar sua coleção de filmes, livros e músicas em casa ou no PC. Em breve, tudo isso poderá ser alcançado diretamente na nuvem.

Imagine acessar qualquer filme ou programa de tevê, livro ou músicas na hora – e no aparelho – que você quiser. Imaginou? Pois saiba que esse admirável mundo conectado da cultura não está assim tão distante. Ao longo dos últimos anos, algumas das maiores empresas de tecnologia, mídia e entretenimento do planeta, como Apple, HBO e os estúdios de Hollywood, têm trabalhado para facilitar a vida dos aficionados pelas maravilhas culturais. Hoje, já há milhões de pessoas espalhadas por todo o globo que se conectam à rede para acessar músicas pelo YouTube ou pelo Sonora, do Terra, ou às locadoras virtuais Netflix e Netmovies para assistir a filmes. Se o objetivo for uma boa leitura, entre as opções estão o Google Books ou o Kindle Cloud Reader, da Amazon. E tudo isso pode ser feito por meio de um PC, smart-phone, tablet e, em algumas situações, por outros dispositivos conectados, como tevês e videogames.

Assim, a história da digitalização da cultura entrou em 2011 numa nova etapa: ela foi abraçada de vez pela computação em nuvem, o que amplia os horizontes para os usuários, artistas e responsáveis pela produção de conteúdo, num processo que vai se aprofundar em 2012. Trata-se de uma mudança significativa e de muitas implicações nos negócios. Isso porque o mundo da computação pessoal pré-internet foi construído sob a lógica de que tudo devia estar instalado ou armazenado na máquina do usuário. O sistema de nuvem, porém, rompe com esse paradigma. Cada vez mais, tudo o que precisamos pode ser guardado ou obtido na internet, sem a necessidade de se fazer um download. De um software editor de textos a uma imensa coleção de músicas, qualquer tipo de material pode ser acessado direto da rede, seja por meio de um navegador ou um aplicativo.

Assim, a era do download – legal ou ilegal – simbolizada pelo Napster, site americano pioneiro no compartilhamento de música online, e pela iTunes Store, maior loja de conteúdo digital do mundo, lançada pela Apple em 2003, aos poucos dá lugar à era da nuvem. O curioso é que nenhuma empresa lucrou tanto com os downloads – uma adaptação da lógica da compra e venda de mídias físicas – quanto a Apple. A iTunes Store, que acaba de chegar ao Brasil, é a maior vendedora de canções do mundo desde 2008. Esse sucesso ajudou, mas não resolveu o problema das gravadoras, que viram sua receita desabar em função da pirataria. Nos EUA, o maior mercado fonográfico do planeta, o faturamento dessas companhias caiu de US$ 14,6 bilhões para US$ 6,3 bilhões em dez anos. Sozinha, a loja online da Apple corresponde a mais de 25% desse total.

“O iPod só faz sentido se você não precisar pagar milhares de dólares pela sua biblioteca musical”, escreveu Chris Anderson, editor da revista Wired, no livro Free. “E as pessoas, é claro, não desembolsam tanto dinheiro para isso.” Uma rápida conta reforça a tese. Caso se divida o número de músicas vendidas via iTunes (16 bilhões) pelo de iPods (320 milhões) comercializados, a média será de somente 50 músicas por aparelho. Ou seja: se por um lado o iTunes é uma alternativa atraente para a indústria contra a pirataria, por outro a Apple é uma das que mais lucram com os downloads ilegais, uma vez que o lucro da companhia de Cupertino sempre esteve atrelado à venda de hardware, como o iPod, e não ao conteúdo digital.

Não poderia haver, portanto, marco mais significante dessa transição do que a entrada da própria Apple na era da nuvem com o anúncio do iCloud, em junho deste ano. O novo serviço, disponível no Brasil, permite ao consumidor transferir sua coleção de músicas, inclusive faixas baixadas ilegalmente, para os servidores remotos da companhia. Se estiverem conectados à web, os usuários podem ouvir as canções armazenadas na nuvem de qualquer PC, iPhone, iPad ou iPod. Além da Apple, outros gigantes da tecnologia correram para a nuvem. É o caso do Google, da Amazon e do Facebook. Enquanto os dois primeiros investem em serviços próprios, a empresa de Mark Zuckerberg aposta em parcerias com sites de conteúdo online, como a Netflix, de filmes, e a Spotify, de músicas. “Em breve veremos o download de canções como algo tão anacrônico quanto as fitas cassetes”, diz o analista Ross Crupnick, da consultoria NPD Group.

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