A revolução realmente não será tuitada?

Por Raphael Garcia
BLOG DO TSAVKKO

Este artigo tem o objetivo de discutir (e rebater) outro artigo, de Malcol Gladwell, publicado pela Folha em 12 de dezembro, sob o título “A revolução não será tuitada”. Recomendo que seja antes feita a leitura do artigo (aqui).

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Na minha humilde opinião, o autor incorre em diversos e significativos equívocos.

Em primeiro lugar, analisa épocas substancialmente diferentes, em que a tecnologia era, obviamente, distinta.

Como analisar os processos revolucionários ou mesmo de revolta popular nos anos 60 e comparar com o dos anos 2000 e querer mostrar que a internet não é relevante se nos anos 60 não havia internet? As coisas poderiam ter sido diferentes antes, se houvesse já a rede? Nunca saberemos.

A análise do autor parece dedicar especial atenção a inexistência da rede sem, porém, entender o que isto significa. Não tínhamos telefone há 200 anos e, sem dúvida, muita coisa mudou com ele. O mesmo com o telégrafo, ou mesmo com os sinais de fumaça. A cada novidade tecnológica o modo de se comunicar, de fazer guerra, de se relacionar, mudou.

É possível que muitas manifestações tenham sido, antes da internet, convocadas por telefone. Da mesma forma que o SMS tem papel fundamental hoje em diversos movimentos – no próprio Irã, citado no texto.

Vale lembrar também, que cada tipo de luta tem suas especificidades. Uma coisa é questionar a internet e seu papel (ou o Twitter), na “revolução” de Moldova, mas outra é querer comparar com os protestos de negros por direitos civis nos EUA dos anos 60. São realidades distintas, épocas distintas e, sem dúvida, o relacionamento entre quem participava era totalmente diferente.

Como se organizam os movimentos em Moldova, ou mesmo no Irã, e como se organizavam os negros nos EUA? Sem saber isso, não podemos afirmar nada.

Mesmo que aceitemos toda a argumentação de Gladwell, sobre o Irã e sobre Moldova, de que a internet não tem tanta penetração, de que o Twitter era mais usado para comunicação externa, para conseguir apoio e repassar o que acontecia, temos um cenário que ainda sustenta o Twitter como extremamente relevante.

Ora, a propaganda e a comunicação deixaram de ter relevância em processos revolucionários e em guerras?

Se concordarmos que o Twitter não foi o gatilho ou a ferramenta agregadora – mas os tais “laços fortes de Gladwell” – continuaremos a ter nesta ferramenta papel preponderante no suporte a todo o processo através da comunicação externa e na propaganda. De outra maneira pouco saberíamos sobre estes eventos, ou mesmo sobre a crise em Xinjiang ou o golpe em Honduras (ainda que a Telesur tenha feito um trabalho de primeiro nível).

Mas, tentando desconstruir um pouco os argumentos, eu poderia pensar que, além das comunicações em farsi, muito se falou em inglês porque boa parte da população letrada e com acesso à internet tem preferência por usar o inglês em suas comunicações – seja por modismo, por status ou mesmo para passar pelos censores menos letrados (o que costuma ser característica em lugares com grande pressão religiosa) -, e porque sabiam que era mais simples, assim, conjugar organização e visibilidade.

No caso de Moldova, é fato que poucos tem ou usam Twitter, mas tanto Gladwell quanto Mozorov estudaram aqueles que tem efetivamente Twitter e viram qual foi o papel deles nos protestos? Será que os 100 que tem, por exemplo, não foram os líderes, ou ao menos peças-chave na convocação que, claro, também usou outros meios?

Podemos concordar que a internet, sozinha, pouco faz, mas é MAIS UM instrumento. Telefone, SMS, Celulares, Internet, são todos instrumentos que, usados em conjunto, são receita para revolução. Agora, o peso de cada um deles é difícil de analisar ou afirmar. Sabemos, com certeza, que a internet tem um papel importante. Fundamental? Precisamos estudar mais.

A tentativa do autor de dizer que a internet, Twitter e etc não tem relevância através de simples comparações, ao dizer que “Ah, tal grupo nunca precisou/usou, então aquele outro também não precisa/usa” é fraquíssima.

Posso concordar com a tentativa do autor de dizer que a “cibermilitância” acabe por ser mais “confortável”, não se vai tanto às ruas, mas também temos de analisar o que isto significa exatamente. Com o alcance da internet hoje, talvez não seja tão necessário assim, pra tudo, sair às ruas. Vejua no Brasil o caso do Mega Não, contra o AI5Digital do Azeredo. O abaixo-assinado e a mobilização online foram quase que sozinhos os responsáveis por dar força ao movimento. A parte “presencial” era mais um complemento.

Existem lutas em que não faz [tanto] sentido ir na rua, como nos anos 60.

Que existe uma acomodação é fato, mas será que devemos culpar a internet ou a sociedade em si?

Sociedade de consumo, capitalista, individualista, egoísta, que nos ensina a ser cordiais, cordatos, “pacíficos” e que nos faz consumir ao invés de pensar em distribuir, nos faz acumular e não pensar no próximo. Será que a sociedade em si, o pensamento dominante, por si só, não inibe naturalmente a mobilização que víamos nos anos 60?

É muito fácil descontar na internet aquilo que é reflexo da sociedade, independente da rede.

Ambos os excessos, o de dizer que a revolução (sic) em qualquer parte do mundo foi “causada” pela internet e o de dizer que na verdade esta não teve qualquer função, estão errados.

Quanto aos “compromissos”, novamente partimos de campos de análise totalmente diferentes.

De um lado o autor tenta comparar grupos que atuam em áreas relativamente pequenas ou com um começo de atividades muito ligados a nichos (e também temos de notar que ações de guerrilha, por exemplo, encontram muito menos apoio “do nada” do que uma revolta contra um governo golpista) com movimentos globalizados ou de amplo alcance e de caráter totalmente diverso.

Falar dos Mujahidins no Afeganistão de forma simplista, sem considerar os laços de sangue, tribais e todo o costume local é querer não discutir efetivamente a questão. Fração Exército Vermelho e outros grupos atuavam em nichos, com objetivos que impediam uma base extremamente ampla e, ademais, são fenômenos completamente diferentes dos quais ele se propõe a analisar.

Uma coisa é você ter o objetivo de protestar contra o governo ou mesmo se levantar contra injustiça propondo marchas, outra é você formar um grupo guerrilheiro – e em uma época em que não existia internet.

Vejam que todos os exemplos dados pelo autor são de grupos em épocas onde a rede não existia ou em lugares onde a internet mal existe.

O autor, aliás, ao dividir os tipos de manifestação entre os de laço fraco e fortes, e dizer que os de laço fortes são os “perigosos” esquece que a militância virtual também traz riscos. E mesmo físicos. Prisão, ameaças e afins não são impossíveis ou algo raro.

O ator também subestima a criação de laços na rede. Não acredita que seja possível a formação de amizades, laços fortes, através de contatos na rede. E está redondamente enganado. A argumentação simplesmente não se sustenta.

Encontrar cara a cara, hoje, não é mais crucial. A maneira pela qual nos relacionamos hoje não é mais [apenas ] a dos anos 60. O ambiente virtual é outra esfera de sociabilidade, de relacionamento interpessoal e de conexão. E, em muitos casos, aliás, aquele relacionamento virtual extrapola. Quantos que lêem a este post não acabaram encontrando depois, pessoalmente, pessoas que conheceram online? eu posso contar mais de 100 facilmente.

Ao generalizar (definir o Twitter como ferramenta onde só se segue e é seguido ou o Facebook como um administrador de pseudo-amigos) o autor generaliza e erra tremendamente. Pega a parte pelo todo e baseia sua idéia numa análise superficial. Sem falar que, esperava que ele conceituasse “amizade”. O que é? Ter amigos pra quem você conta segredos? Amigos de cerveja? Amigos de papos esporádicos? Oras, no que diferenciamo as relações online das offlines? No grau de amizade? Mas o que é isso?

Eu já fui na casa de amigos que conheci online e tenho grandes amigos “offline” que nunca me convidaram pra suas casas e vice-versa. E isto não torna uma ou outra amizade mais real, mais significativa ou profunda que a outra.

O exemplo dado pelo autor da Medula Óssea parece irreal. Galhofa. Ele não considera relevante que milhares de pessoas tenham ido se inscrever e ter material coletado sabendo que um deles poderia passar por uma cirurgia? É difícil argumentar….

Não requer confronto com normas e práticas sociais arraigadas. Na verdade, é o tipo do engajamento que só traz elogios e reconhecimento social.

Uma divisão deveras arbitrária. Dentro de um determinado grupo social, a rebeldia contra o sistema angaria tanto reconhecimento quanto este ato supostamente altruísta. Novamente, a análise parece partir de análises superficiais, sem ter em mente qualquer especificidade local ou social. A parte pelo todo. Exemplos generalistas demais.

E, novamente, será que há alguma relação deste caso com a internet ou estamos diante de um reflexo da sociedade de consumo?

Será que o autor pensa que sem a internet nós nos “motivaríamos” mais? Iríamos ao Haiti ou a Darfur ajudar, doaríamos mais? Provavelmente nem saberíamos do que acontece no mundo sem a internet! Especialmente com a maravilhosa e nem um pouco tendenciosa imprensa!

A Internet veio para somar e ela ajuda a transformar. O autor a considera irrelevante. Talvez o telégrafo tenha sido mais importante. Aliás, já ouvir professor dizer uma barbaridade dessas. O Telégrafo foi importante, a internet não.

Despreza-se o potencial de aproximação, de compressão espaço-tempo, de conectividade. As múltiplas oportunidades que surgem com a internet. A real formação de laços e, sim, amizades verdadeiras. Isto para ficar apenas no campo pessoal.

Aliás, quanto ao Facebook e doações, não nos esqueçamos que há em torno da internet a cultura do grátis, logo, doar, pagar, não é algo tão comum. Isto não significa menor ou maior engajamento, simplesmente aderência a uma cultura.

Posso concordar com o autor na questão da Hierarquia – ainda que eu conheça e já tenha participadode estruturas hierárquicas dentro da rede [procurem por Micronacionalismo] que, claro, tinham outro foco, mas isto não significa laços fracos e sim a necessidade de maior comprometimento das partes. Ao invés de um líder e de vários comandados, temos uma estrutura mais participativa que, logo, exige mais. E os reflexos disso são óbvios.

O autor subestima também o carisma e a possibilidade de uma liderança surgir mesmo em estruturas descentralizadas, ou mesmo lideranças que, sem poder efetivo, tem a capacidade de terem preponderância.

Isto é o ser humano. A rede apenas potencializa.

O artigo, aliás, deve ter sido escrito antes de estourar a crise WikiLeaks, que dá uma pequena mostra do que é a rede. Os ataques hacker depois, descentralizados, são outro exemplo. A rede, sim, pode ser usada como inimiga do status quo.

O autor peca, enfim, em querer encaixar a rede no binômio “revolucionário” e “inútil”, enquanto não a compreende como um instrumento potencializador de nossas capacidades, uma ferramenta, além de um ambiente de conexões e interconexões que nos fornecem possibilidades infinitas, mas que são subordinadas, claro à cultura, aos limites do homem, à sociedade e sua forma de ser e agir.

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