A saga de Antônio Conselheiro: Visões de Luis da Câmara Cascudo

A proclamação da república brasileira foi um dos momentos mais significativos da história do Brasil. O palco da Guerra de Canudos estava no centro dessa transição e deixou cicatrizes profundas no tecido de uma história social e política que está longe de ser compreendida na vastidão dos seus significados e desdobramentos. 

Fotografia de capa: Augusto Flávio de Barros

A relevância do massacre de Canudos é tratada de forma desigual por diferentes historiadores ou observadores da cultura brasileira. Certamente que foi um acontecimento que merece destaque no campo da sociologia, etnografia, história, artes e cultura brasileira em geral.

Ao escrever “Os Sertões”, o escritor e jornalista Euclides da Cunha colocava Canudos na história do Brasil e a figura do beato Antonio Conselheiro no coração e mente de todos aqueles que amam o seu país e história.

Nos anais dessa história e no centro de uma polemica com diferentes matizes de simpatizantes ou não com os métodos de uma guerra sangrenta que dizimou milhares de brasileiros e quis apagar do mapa um importante contraforte e vasto território no semiárido nordestino, interior do estado da Bahia.

O objetivo do presente artigo é pensar, através da obra de Câmara Cascudo, como um grande estudioso da cultura brasileira se insere nos estudos e na compreensão de um importante episodio de uma história que completou um século em tempo recente.

Cascudo foi prosaico

“Cascudo, um historiador sério, devia saber mais detalhes sobre a vida do Conselheiro e poderia ter enriquecido seu verbete que será referência para muitos estudiosos”.

No último número da revista “Bando” (ano X, Vol 5, 1959), destinada às comemorações no RN do 50º aniversário da morte de Euclides da Cunha, Cascudo escreve de forma breve sobre a passagem de poucas horas do autor de “ Os Sertões” em solo potiguar. De sua visita ao centro da cidade alta e sua intenção de comprar um papagaio no cais de embarque para o Alagoas, do Lloyd Brasileiro.

Em o Dicionário do Folclore Brasileiro, uma de suas obras mais importantes , consultadas e referenciadas, o autor de “ Civilização e Cultura”, escreve um verbete sucinto sobre Conselheiro, A. “Antonio Vicente Mendes Maciel”, nascido em Quixeramobim, Ceará, em 1828, e falecido de disenteria no arraial de Canudos em setembro de 1897 (Euclides informa 22 de Agosto)….”.

O Ano de nascimento do Antonio é 1830, e é prosaica a forma como Cascudo trata a morte de uma personagem central da história brasileira que resistiu por três vezes às forças armadas e sucumbiu diante de um exercito de mais de dez mil homens fortemente armados e transportando pesada artilharia de canhões.

Continua Cascudo… “por motivos ignorados, tidos como desgostos domésticos, abandonara o Ceará, entregando-se a uma vida nômade, pregando moral rígida e severa…”

Cascudo, um historiador sério, devia saber mais detalhes sobre a vida do Conselheiro e poderia ter enriquecido seu verbete que será referência para muitos estudiosos.

Na época de Cascudo já havia os trabalhos de referência sobre o Conselheiro, escritos pelo jornalista, escritor e historiador do Ceará; João Brígido: Homens e Factos, RJ, Besnard 1919.

João Brígido dos Santos (1829- 1921) era de Quixeramobim e atuou como jornalista no Ceará, publicando vários artigos sobre a história do Ceará, depois coligidos em livro. História sobre os clãs “Maciéis” e “Araújos”.

O clã dos Maciéis

Conselheiro fazia parte do temível clã dos Maciéis e seu pai foi um comerciante, casou duas vezes e teve três filhas afora Antonio Conselheiro (em Walnice Nogueira Galvão. Império do Belo Monte, vida e morte de Canudos).

Após a morte do pai, Antonio toma conta dos negócios da família e contrai matrimônio. Na família muitas mortes e vinditas entre famílias rivais. Helena, sua parente próxima, mandante de vários crimes, era considerada por Brígido como a “Nemesis da Família”.  

Com a derrocada dos negócios, Antonio vai embora da cidade, é preso, separa da mulher (ela foge com o soldado João da Mata), e depois toma o rumo de uma vida nômade e se torna líder de uma grande comunidade em Belo Monte (BA). A história depois será narrada de forma brilhante por Euclydes da Cunha.

Canudos, Bahia, 1897: Mulheres e crianças seguidoras de Antônio Conselheiro são presas durante os últimos dias da guerra.

A saga de Antônio Conselheiro: Centro de vivo interesse

Canudos é considerado por Cascudo, “um centro de vivo interesse sociológico e folclórico”. A história mostrou que ele tinha razão. É cada vez maior o interesse sociológico e artístico sobre o arraial de Canudos e sobre um dos acontecimentos mais significativos na instituição da república no Brasil.

Em sua obra, Câmara Cascudo mostra certo fascínio pela monarquia e podia ter tratado com mais vagar e interesse a saga do bravo e destemido conselheiro, que não pretendia combater a república.

Se ele morreu de disenteria, não tem importância diante de seu corpo morto estendido no chão após um taque de milhares de soldados e coronéis armados numa luta desigual.

Canudos não foi só um sonho de um visionário e líder de uma comunidade altamente avançada. Líder de um povo para quem ele deu alguma esperança.

Canudos foi uma questão religiosa, depois passou a ser econômico-capitalista, depois política, escreveu José Calasans, nascido em 1915, e um dos seus maiores estudiosos.

O que Cascudo escreveu sobre o Conselheiro e sua saga é pouco diante da tremenda importância cultural, social e política do tema. Cascudo é referencia e porta-voz de uma história sobre a qual ele tem muita responsabilidade ao narrar para a posteridade.

Sei que o foco é uma questão pessoal, mas não se pode esconder o que salta e grita aos nossos olhos marejados e orgulhosos de pessoas que lutam por um ideal. Antonio Conselheiro é o meu Quixote Brasileiro.

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Comments

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 29 de Abril de 2019 21:32

    Um belo artigo, e bem.verdade que a história de Antônio Conselheiro e Canudos ,deve ser mais estudada há muitos detalhes a serem avaliados(tanto histórico como antropologico), mas sem duvida nenhuma é um marco de grande relevancia na nossa historia.Quanto a Cascudo tiro meu chapéu pelos seus estudos sobre o líder de Canudos como todos os outros extraordinárias trabalhos realiazados por ele.Mas acredito Canudos muita a nos revelar ainda.

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