A saga em Canudos narrada por um escritor húngaro

O Livro “Veredicto em Canudos” escrito pelo húngaro Sándor Márai é um daqueles livros que não desejamos acabar de ler, de tão belo.

Sándor leu três vezes “Os Sertões” de Euclides da Cunha para escrever um livro de uma Canudos que não acabou com a morte do Conselheiro, mas que se perpetuou nas lutas dos estudantes de 68 em Paris, Estados Unidos, Itália e outros lugares eternamente.

Em pleno regime comunista, o escritor deixa seu país em 1948 para se exilar mesmo com medo da liberdade. Sempre escreveu na “Solidão do Idioma”.

Imagem de capa: Antônio Conselheiro, de Mário Cravo. Madeira pintada

Leu “Os Sertões” na famosa tradução inglesa de Samuel Putnam. O Livro do Sandor foi traduzido para o português direto do húngaro por Paulo Schiller.

“Soyez raisonable, demandez l´mpossible” era o lema dos estudantes como podia ser o do Conselheiro.

O original do livro em Húngaro é salpicado de palavras e frases curtas em português, diz o tradutor. Cabra, jagunço, caititu, conselheiro, caatinga, etc. Outras trazem a grafia errada: conseilheiro, facendeiro, sertaneio, etc Algumas outras não encontram equivalência em Húngaro, mas a tradução do Paulo é muito boa.

Enredo

É com muita ironia que o autor Sándor escreve seu livro. O narrador é um ex-cabo do exercito, bibliotecário, que fala Inglês. Três prisioneiros são resgatados, entre eles uma mulher estrangeira, cujo marido médico trabalhava em Canudos, deixando-a sozinha.


Sándor Márai (1900-1989) já era um escritor renomado, quando sua terra foi invadida pela União Soviética. Por fugir, foi execrado por intelectuais favoráveis ao regime soviético, como Georg Lúkacs; Como estrangeiro, viveu em vários países, até se fixar em San Diego (EUA), onde permaneceu até se suicidar aos 88 anos.

Quando ela chega a Canudos o marido já é morto. A mulher pede para tomar um banho e se transforma numa interlocutora que deixa o Marechal Bittencourt desorientado ao saber que o Conselheiro pode está vivo. A cabeça degolada do conselheiro é mostrada para os prisioneiros.

Um longo diálogo se trava entre a mulher e o Marechal. De que lado está barbárie? O Conselheiro e seu séquito de homens barbudos eram loucos? Milhares de meninos e mulheres mortos.

Os corpos são queimados aos montes. Homens famintos a seguir um líder que não tinha medo. Estatísticas são mostradas para a grande imprensa. Foi a luta da civilização contra a barbárie. Uma luta desigual de homens com mosquetões e facões enfrentando canhões e um forte exercito por três vezes derrotado. A cabeça do Conselheiro sorri. Seu fantasma ainda assusta.

Em Canudos não havia suicidas. Em Canudos viviam pessoas que eram felizes numa comunidade com os preceitos da igualdade. Canudos é o Brasil.

O major pede ao final que os três prisioneiros saiam e digam em voz alta: longa vida à liberdade. Todos mudos.

E repete, digam: – longa vida á liberdade, igualdade e fraternidade.!… Grite, disse novamente pra o negro, o mestiço e a mulher.

O negro falou, mas antes olhou as trevas.

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Comments

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 5 de Maio de 2019 20:00

    Muito interessante o artigo, grande a obra de Euclides da Cunha atravessou o mar até a Europa, e inspirou e Sándor Márai a escrever “Veredicto em Canudos” . Infelizmente o “Os Sertões” essa grande obra e tão pouco lida no nosso pais.

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