A salmoura dos guardados do tempo

NA TRIBUNA DO NORTE

Estou com este livro Novenário de Espinhos, de Clauder Arcanjo, Sarau das Letras, 144 páginas, sem preço definido, há já alguns dias e só agora tive tempo de comentar. Trata-se de uma edição de luxo, em papel couché, fotografias de Fred Veras e ilustrações de Augusto Paiva, Lourenço, João Helder Alves Arcanjo. Meu primeiro espanto foi dizer; como alguém tem coragem de editar um livro de poesia com tamanho luxo? A luxúria visual não atrapalharia a fruição dos poemas? Não sei dizer.

Clauder Arcanjo é um poeta cuidadoso com as palavras, do tipo que denota a cada passo uma erudição blasé, sem ostentação exagerada. Seus poemas são profundos e corretos e ele circula entre o sagrado e o profano com uma tranquilidade espantosa. Claro que carrega nas costas uma tradição poética que vem do Modernismo até os dias atuais. Não há como fugir dessa camisa de força. Eu mesmo já segui um caminho idêntico a esse que ele trilha agora. O que me causa espécie é ver que, mesmo sem recompensas visíveis, as pessoas continuam escrevendo poesia no Rio Grande do Norte. Eu já desisti.

Eu li em algum lugar, acho que no site Substantivo Plural, em que um crítico literário explicava que a poesia deixou de ser relevante como foi durante uma determinada época em que reinaram Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral e Melo Neto, Cecília Meireles e tantos outros. É verdade, ninguém dá mais à poesia o status que ele gozou e merece gozar. Tudo foi ficando muito diluído com as novas mídias. Outro dia eu estava em casa lendo A Letra e a Voz, de Paul Zumthor e não foi surpresa ver que ele defende uma volta à poesia oral. Ora, isso já é praticado até a exaustão na poesia popular. Em Mossoró temos o soberbo exemplo de Francisco José.

Mas a poesia escrita é uma outra instância. Ela requer solidão e concentração. Ela é filha da Galáxia de Gutenberg e exige muito mais signos que a poesia oral. Não vou começar aqui um discurso acadêmico sobre a poesia, pois não quero que meu leitor adormeça no meio da leitura logo nas primeiras horas da manhã.

Quero falar dessa atitude de resistência de Clauder Arcanjo. Por que escrever poesia se não vende livros nem consagra o autor? Aí eu já o vejo piscando o olho e escancarando um sorriso, como quem diz, pelo prazer, ora essa! Sim, meus amigos, creio que esta é a resposta. Ninguém quer viver essa realidade dura de consumismo, violência, estupidez sem um pouco de transcendência. E se existe uma coisa que pode nos dar transcendência tanto quanto a religião, essa coisa é a poesia. Não dá dinheiro, não serve para nada, mas como é necessária!

O livro de Clauder Arcanjo oferece ao leitor uma espécie de contemplação que leva ao êxtase. A beleza plástica das ilustrações se mistura à beleza de sua poética. E eu não estou sozinho com esta opinião, não, querido leitor. O poeta Ivan Junqueira disse: “Meu estimado Clauder: Estrear é sempre difícil, um verdadeiro e doloroso parto, mas você se sai muito bem, como o atestam entre outros, poemas como Cânticos de Danação, Sagração do Esquecimento ou O Baú da Noite. Já dá para perceber que o nascituro prima pela robustez”. Quer mais o quê?

Estou lendo um livro de Tzvetan Todorov, A Beleza Salvará o Mundo, em que ele analisa a vida e a obra de três grandes poetas: Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva. Todos três sacrificaram suas vidas em nome de uma busca pelo absoluto na criação literária. Wilde queria que a vida fosse uma obra de arte; Rilke só admitia vida na literatura; Tsvetaeva queria as duas coisas. Então, pessoas felizes não podem ser bons poetas? Acho que tudo é bem mais complexo. Seres humanos são complexos e a arte surge de onde menos se espera.

Senão vejamos:

“Nos lençóis da alvorada,

Os dentes da manhã;

A carne ainda quente,

Na volúpia do novo sol.

Na mente turva,

Por sobre a pele escura,

As marcas da longa noite.

Nos ouvidos, ecos de Eros,

Em ganidos e urros loucos

– Cânticos de danação.”

O professor Aécio Cândido disse: “O livro de Clauder Arcanjo começa com um título bonito – Novenário de Espinhos. Há nele, de fato, alguns espinhos. Mas seria surpreendente se os não houvesse. Que poeta não é, querendo ou não, arauto de dores e, ao mesmo tempo, apascentador delas? Porque cabe à poesia, exatamente a ela, com seu jeito de vislumbrar o invisível e de tornar novas palavras velhas, extrair das dores a beleza que elas podem ter pra vida. Vejam nestes versos de Clauder se não é disto que se trata: ‘A noite chegou impiedosa/Com sua mortalha de silêncios’. Ou nestes: ‘Pobre setembro!/Céu ralo, nem Lua,/E uma saudade/De cegar estrelas’. E a lista seria interminável, se pretendêssemos fazer esse tipo de inventários de dor que dói menos por se aliviar em palavras de poeta”.

O Rio Grande do Norte sofre com um abastardamento da poesia. Todo mundo escreve poemas nessa beira de praia de meu Deus. Isso acaba confundindo o leitor. Como separar o joio do trigo? Como distinguir um bom poeta no meio de tantos poetastros? Acho que a melhor maneira é comparar. Colocar o texto de um poeta novato ao lado de outro já consagrado. Aí você terá um guia de leitura eficiente para saber o que presta ou o que é só picaretagem ou pura vaidade. Infelizmente a literatura tem um lado social, um lado de salão, de igrejinhas que atrapalha muito a análise de quem não é calejado no assunto. Com a chegada das mídias modernas chegou também o marketing literário, essa praga que isola os bons autores dos apenas espertos. Nesse mundo os tímidos não têm vez, só os desinibidos e falantes. Mas eu sei separar muito bem os grãos da colheita. Espero que vocês saibam também.

Não conheço de perto o poeta Clauder Arcanjo, mas quero crer que, como a maioria dos humanos, ele é essa mistura de momentos felizes e tristes que fazem de nossas vidas essa doce aventura. O que ele faz é transformar tudo isso em arte. Muitos como ele estão produzindo literatura de boa qualidade, sem fazer parte de nenhuma academia, clube, panelinha, igrejinha.

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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