A sedução do imaginário em Fernando Pessoa – 1ª Parte

O século XX representou uma época de profundas mudanças na arte e na literatura, causando uma revolução dos saberes. As vanguardas expressam, nesse momento, uma resposta a uma imperativa mudança no tecido complexo das relações socioculturais. À fissura emergente entre o homem e o mundo, a literatura responde com uma linguagem de rupturas internas e externas, no sentido de que se o contexto em que se origina a poesia, o universo cultural e social a quem ela se destina, é desestabilizado, o signo linguístico, como o suporte natural da expressão poética, consequentemente o será também. Em verdade nesse momento, a arte poética não só assume a função de pensar a realidade, como vertiginosamente entrega-se ao exercício de (re)apresentá-la, refletindo sua imagem caótica e paradoxal no espelho na palavra.

É preciso acrescentar que, se em um primeiro influxo essa arte parece mover-se sob o signo da destruição, em função de sua profunda negatividade, contraditoriamente assume também a missão de reconstruir o mundo, dando-lhe sentido e forma, mesmo que para isso transite a beira do abismo e do silêncio. Cabem aqui as palavras de Lucia Helena, ao falar do movimento antropofágico:

Neste choque entre a cultura ‘estabelecida’ e a atitude vanguardista, a avant-gard revela-se como uma cultura da negação, uma ‘art d’execption’ e o artista tende a manifestar-se num libelo destruidor voltado contra a intelligentsia da classe dominante. Assim, o caráter destruidor do movimento deve-se muito mais a um impulso histórico (…) numa determinada conjuntura mundial, do que a disposição individual e destruidora de um grupo de jovens intelectuais ansiosos por reformar o mundo.” (“Uma literatura antropofágica”, Lúcia Helena).

Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935)

Nesse sentido é que o poeta Valéry, contrapondo a linguagem comunicativa à linguagem poética, atenta para uma peculiaridade da poesia: o recriar-se infinito. “O poema, ao contrário (da linguagem utilitária), não morre por  ter vivido: ele é feito expressamente para renascer de suas cinzas  e vir a ser indefinidamente  o que acabou de ser.  A poesia (…) tende a se fazer reproduzir em sua forma, ela nos excita a reconstituí-la identicamente” (“Variedades”, Paul Valéry).

Assim, uma das características mais importantes da arte poética moderna é que ela leva ao extremo a polarização que compõe os limites ilimitáveis da existência: o sujeito, a linguagem e o mundo. O homem tornou-se sujeito numa busca contínua de seu objeto – o mundo. A busca da identidade perdida. No intervalo entre o sujeito e o mundo reside uma dupla realidade em tudo semelhantes e diferentes: a realidade das imagens interiores e das imagens exteriores – as realidades subjetiva e objetiva. Chamo de imagens não só o que é percebido pela visão, mas o repertório complexo de “perceptos”, segundo a concepção de Deleuze e Guatarri, os quais agem sobre o homem e o impulsiona à reação. A linguagem é o terceiro vértice entreposto a ambas as realidades, visando “amenizar” o grande hiato que as divide.

Com a função de interseccionar essas imagens a linguagem produz uma terceira – a do discurso – que as persegue incessantemente. No entanto, essa busca se torna difícil (se não impossível) dado os caracteres plasmáticos divergentes entre a imagem discursiva e a imagem “real” (subjetiva e objetiva). Esta por natureza é fugaz, simultânea e inapreensível, enquanto aquela é encadeada, temporal e abstrata. A imagem “real” é imediata e pré-discursiva, portanto é sempre passado e futuro; a imagem discursiva é mediata e significante, portanto é um presente caracterizado pela contínua busca e perda da imagem. Daí nasce a angústia do vazio e a perda conseqüente da imagem real (in)significante. É a Realidade que jamais é a Verdade.

Com base nessas reflexões, tencionamos neste artigo tecer algumas observações em torno da poesia de Fernando Pessoa, discutindo os signos da modernidade de um poeta que se propõe a cruzar as fronteiras entre poesia e a filosofia, propiciando uma lógica da sedução em contrapartida às lógicas dedutivas e indutivas de que se alimentam ciência e filosofia.


À angústia do vazio é que aponta a linguagem poética moderna e em especial a poesia pessoana. Pessoa transita pelos três pólos, enfatizando angustiadamente a crise tanto do sujeito quanto do mundo: “Nada sou, nada posso, nada sigo. /Trago, por ilusão, meu ser comigo”. “Dorme, que a vida é nada! /Dorme que tudo é vão”. Desta forma, a linguagem, cuja função seria interseccionar essas imagens, esvazia-se também ante o vazio daquelas e assume um caráter de negatividade.

A negação é uma prerrogativa redundante na poesia pessoana. O discurso negativo culmina com a nulidade do sujeito e do seu objeto que é o mundo. Essa nulidade é que cria o “nada que é tudo”, ou seja, o esvaziar das imagens reais proporciona uma maior valorização potencial do discurso poético. Protótipo dessa valoração potencial é o texto heteronímico, uma vez que a anulação do sujeito em sua unidade imanente propicia a segmentação do ser em outros. O sujeito, ao anular-se, pluraliza-se, perfazendo a transição do discurso puramente monológico ao discurso dialógico. É nesses termos que a poesia de Pessoa torna-se híbrida, originando no interior do gênero lírico o gênero dramático. A esse respeito é relevante a explanação do próprio poeta quanto à gradação dessa transição:

O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que a multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o estilo. Um passo a mais na escala poética e temos o poeta que é criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela inteligência que pela emoção. (…) Outro passo a mais na escala de despersonalização, ou seja, de imaginação, e temos o poeta que em cada um dos seus estados mentais vários se interliga de tal modo nele, que de todo se despersonaliza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado de alma, faz dele como que a expressão de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica (…) e assim terá levado a poesia lírica… até a poesia dramática, sem, todavia, se lhe dar a forma, nem explícita nem implicitamente” (“Páginas íntimas e de auto-interpretação”, Fernando Pessoa).


No curso dessa explanação, percebe-se que a linguagem é a dominante da heteronímia pessoana, uma vez que em seu discurso é enfatizada a despersonalização em função da imaginação, anunciando aquilo que é a marca maior da poética da modernidade: um sujeito problemático diante de um mundo problemático. O problema de ambos é a impossibilidade de presentificar-se e concretizar-se no discurso, cuja função utópica seria expressá-lo em sua imagem definitiva. Assim, toda a sua poesia é acima de tudo um corpo imaginário, tanto pelo fato dessa busca insana da imagem real, quanto pelo fato de compor em si mesma uma imagem peculiar: “Dizem que finjo ou minto /Tudo o que escrevo. Não /Eu simplesmente sinto /com a imaginação” (“Obra Poética”, Fernando Pessoa).

Todavia, em Pessoa, o discurso poético também se constitui em um dilema, exatamente pelo fato de ter consciência de sua impotência funcional: a representação. Assim, o “nada sou, nada posso, nada sigo” empregado originalmente como a angústia do sujeito, constitui também a angústia da linguagem poética. Nesses termos, a poesia de Pessoa procede a ruptura com a imagem real, voltando para si própria enquanto imagem do significante. O foco é a fissura parcial ou definitiva do par significante/significado. O signo se autocontempla num gesto especular, apontando para suas peculiaridades digito-imagéticas. No texto pessoano, essa fissura se processa em princípio (observando-se em sua superfície) por meio do uso excessivo do significante “não”.

Essa atitude representa o sequestro da lógica aristotélica, baseada na articulação positiva da linguagem como realidade. O “não” é o principal instrumento de censura utilizado pela lógica, cuja função é evitar a intromissão do “ruído”, do caos, em meio à ordenação do real. O uso obsessivo da partícula negativa por Pessoa promove a volta da mesma contra a própria lógica, propiciando o paradoxo originador da terceira hipótese de existência – a existência dupla, caracterizada pela coexistência dos contrários. Por isso, é frequente em sua poesia o uso do oxímoro, sempre apontando para uma terceira vertente além da dualidade consensual: “entre o luar e a folhagem, /Entre o sossego e o arvoredo. /entre o ser noite e haver aragem /passa um segredo”; “Ah, ser os outros! Se eu o pudesse /Sem os outros ser!”; “Confunde-se o que existe /Com o que durmo e sou. /Não sinto, não sou triste /Triste é o que estou”; “Quer somente consistir /No nada que o cerca ao ser, /Um começo de existir /Que acabou antes de o ter”; “A vida é vaga e informe, /O que não há é rei”.

Aristóteles afirma que “se o nome contém uma significação contraditória, é mister procurar quantos significados ele pode assumir na questão” (“A Poética Clássica”, Aristóteles), visando dessa forma resolver a contradição pelo senso comum. É a este bom senso lógico que Pessoa opõe o paradoxo, propiciando o não senso cuja razão é a existência simultânea dos opostos; atitude que, ao contrário de solucionar a contradição, enfatiza-a, criando a vertente conflituosa do existir. Essa atitude é expressa verbalmente pelo próprio poeta:

“Não há critérios da verdade senão não concordar com consigo própria. O universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda verdade tem uma forma paradoxal” (“Páginas íntimas e de auto-interpretação”, Fernando Pessoa).

Portanto, o discurso negativo pessoano visa principalmente ao rompimento com a lógica, pelo fato de ser por meio dessa que o poder pratica a censura. Ora, o alvo principal da censura é o erotismo, não apenas no sentido sexual, mas na amplitude do sentido de algo que gera beleza e prazer. Isto, acreditamos, pelo fato de que o prazer, caracterizado pela satisfação do impulso, da libido, promove a liberdade do sujeito, permitindo-lhe a imaginação e a criatividade. O imaginário é, no texto ideológico do poder, o próprio acaso, porque superaria os limites da ordenação. Assim, oposto ao discurso lógico que é peculiarmente indutivo, posto que elabora normas cerceadoras da imaginação, o discurso negativo de Pessoa seria um discurso da sedução, compreendido como algo que, ao contrário de impor verdades, requer a cumplicidade do leitor com o texto, para descobrir-lhe as significações:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só as que eles não têm.

 

E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

A perspectiva central do poema é a representação. O poeta, embora finja, não representa a dor sentida, de forma que o ato criativo é artificial, pois a dor expressa no poema é elaborada imaginariamente. Da mesma forma que o leitor (na segunda estrofe), ao contato com a mensagem, desperta para a dor terceira, não pertencente ao poeta, nem se identificando com a sua dor: a “dor” específica da própria mensagem estética. Portanto, a linguagem da poesia é um corpo, precisamente falando, porque significa a si própria, procedendo um jogo ambíguo de idas e voltas que exibe-mascara o significado, convidando o leitor a um contato corporal com o texto para tecer todas as possibilidades significantes. A elaboração desse jogo se opera sobre os dois eixos da linguagem apontados por Roman Jakobson: o eixo da seleção que se opera por similaridade; e o eixo da combinação, operado pela contiguidade. Assim Pessoa elabora a contiguidade interior do poema a partir da seleção minuciosa de elementos da linguagem em todos os seus níveis: fonético, lexical, sintático e semântico, promovendo um jogo de aproximação e afastamento que culmina com um texto múltiplo, plurissignificante, concretizado numa imagem acústico-digital de cuja relação com o leitor (que deve ser participativa) emerge uma terceira imagem constituída como uma correalidade, desvinculada das imagens reais.

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