A serenidade dos insensatos

Por Roberto da Matta
O Estado de S.Paulo

Nosso professor de Ciências era sereno: não sabia a medida da satisfação libidinal. Ao ser questionado quantas vezes se deveria fazer sexo, ele embatucava e mudava de assunto e dizia sorrindo: talvez uma lei federal… É sensato resolver codificar o desejo e o costume que o disciplina? Por exemplo: todos devem, sob pena de prisão, chegar na hora. Os mais importantes serão colocados em solitárias, pois chegam sempre por último. Será que tal lei “pegaria” e seria capaz de substituir o costume que faz com que o mais importante chegue sempre por último, justamente porque sem ele a cerimônia não começa?

O bom senso, que nas democracias liberais (com o perdão pela má palavra, como diz um velho amigo petista) consiste em ter a capacidade para resistir ao poder (e não de a ele aderir), não seria pôr em diálogo o costume (inscrito, como dizia Rousseau, nos corações) e as leis – escritas em bronze e pergaminho? A sensatez não é precisamente essa conversa entre o implícito e o explícito? O que se entende como necessário (o desejo); e aquilo que se pode realizar com eficácia?

A tradição sócio-filosófica alemã recusou a linearidade das coisas humanas. Acentuando a dificuldade de traduzir certas experiências, ela tocou nesse assunto melhor do que a tradição francesa e inglesa. Quem perde um filho e encontra um amigo que passa por essa desgraçada experiência pode dizer que é doutor nesse assunto porque passou por ela? É possível consolar a si mesmo e os outros dizendo que tem “tempo de casa” nessa matéria? Ou cada caso, como ocorre em tudo que é sério nesta vida, é um caso? Os românticos alemães aceitavam que certas experiências não são mutuamente traduzíveis. Seria o amor sempre igual, ou muda de acordo com a pessoa amada que o colore e concretiza de modo radicalmente diverso? Amália era um sanduíche de presunto; Amélia, a mortadela mais barata! E, no entanto, o amor foi profundo nos dois casos. Se houvesse mesmo uma acumulação da experiência, você acha que haveria guerra, terrorismo, traição e desfaçatez em nome do povo ou da soberania nacional? – esse patriotismo que pode ser o refúgio dos covardes ou a “glória-brás” dos heróis?

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Eu estou convencido de que, no Brasil, o Estado tem sido visto como a solução para tudo. Há pobreza e corrupção? Há compadrio e aparelhagem da máquina pública? Há ignorância e atraso? Resistimos a obedecer a todas as normas e consideramos babacas quem as honra? Votamos em canalhas, mensaleiros e criminosos conhecidos? A culpa (e, portanto, a solução) é do ESTADO. Um Estado com letras maiúsculas. Eis um quadro curioso. A sociedade que sustenta o Estado não o vê como coisa sua. Pelo contrário, ela o imagina como um estrangeiro dotado da capacidade de resolver os seus problemas. Por isso, existe tanto a demanda do Estado como uma panaceia salvacionista, que pode nos transformar em funcionários públicos com salários altos, mas sem trabalho; quanto as acusações de negligência, porque a sociedade recusa considerar suas condutas. É mais fácil transferir as mudanças para o Estado. Assim, a sociedade concilia sua vergonhosa vertente reacionária e aristocrática com o desejo moderno de mudança. A ilusão é mais ou menos assim: nós queremos mudar, mas o Estado não muda. Logo, não mudamos coisa nenhuma. Nossos representantes são todos uns canalhas e por isso a “política” é uma desgraça. Mas quem são, cara-pálida, os nossos “políticos”? Serão marcianos? Ou são os nossos parentes e amigos, eleitos pelos nossos votos? Foi o que ocorreu com a Lei Seca e é o que está ocorrendo com o processo eleitoral e essa extraordinária e autenticamente popular lei dos fichas-sujas.

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Convenhamos que ter um projeto, ou seja, um desejo consciente de eliminar bandidos do Parlamento e dos cargos eletivos porque, no Brasil, a figura da “imunidade parlamentar” foi aristocraticamente ampliada e aplicada a todo tipo de delito, só pode ocorrer, a esta altura do campeonato democrático entre nós. É um enorme avanço que finalmente denuncia como o sistema foi feito para enriquecer e proteger canalhas que não querem atuar para a coletividade, mas dela tirar partido. A idealização do sistema político chegou a tal ponto que pensamos poder mudar radicalmente certas práticas sociais somente com a adoção do sistema eleitoral, sem pensar nas suas demandas e consequências. Quem, pergunto ao leitor, deixaria que sua escola, departamento ou instituição contrate um bandido e, pior que isso, o proteja por meio de imunidades legais, como fez e tenta fazer o nosso Congresso Nacional? Que tipo de representatividade pode ser essa que mensaleiros que compram deputados com dinheiro vivo são tidos como vanguardistas sociais e revolucionários, defensores do povo de Deus? Como falar em liberdade e igualdade querendo controlar a imprensa? Ela não é ideal, mas pergunto eu: e o governo é? O que é preferível neste vale de lágrimas? Um governo que controla as notícias ou um sistema no qual as notícias são incontroláveis, exatamente porque a mídia sempre deixa a desejar? Aliás, há alguma coisa numa democracia que satisfaça a todos os desejos? O liberalismo (com o perdão da má palavra) não é, precisamente, uma estado social de insatisfação permanente? Tem gente que pensa que o liberalismo nasce pronto, como naquelas palestras que os espertos fazem para empresários.

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