A sofisticação musical de Morelembaum e do CelloSam3aTrio

O CD “Saudade do Futuro/Futuro da Saudade”, título que remete a interessantes possibilidades de síntese histórica da MPB, lançado pela gravadora Biscoito Fino neste já adiantado 2014, nasceu da feliz reunião de um trio – o CelloSam3aTrio (o nome é escrito assim mesmo, criativamente) – capitaneado pelo maestro e violoncelista Jaques Morelembaum, constituindo-se numa demonstração cabal de que a música brasileira ainda possui, sim, um bom espaço para a delicadeza e para a sofisticação e o bom gosto.

De início cabe dizer que Morelembaum reuniu um pequeno-grande time de virtuoses nesse trio sambista-jazzístico, bastando dizer que, além do próprio Morelembaum e seu violoncelo mágico, consta o violão de Lula Galvão e a bateria e percussão de Rafael Barata (Rafael tem sido muito elogiado por Jaques), ambos respeitadíssimos, resultando num feliz entrosamento nas gravações para o CD.

O repertório é de impressionar. São composições de nomes insuspeitos, como Haroldo Barbosa/Geraldo Jaques (“Tim-tim por tim-tim”), Gilberto Gil (“Eu vim da Bahia”), Caetano Veloso (“Coração Vagabundo”), Tom Jobim e Chico Buarque de Hollanda (“Retrato em Branco e Preto” e “Outra vez”, essa somente de Tom), Jacob do Bandolim (“Receita de Samba”), João Donato e João Lourenço (“Sambou…sambou”), Carlos Lyra/Vinicius de Moraes (“Você e Eu”) e Luizão Pavão (“Fla x Flu”). Perceberam o nível elevado das escolhas de Jaques?

Ouvir esse deliciosíssimo CD numa tarde ensolarada de domingo, ou de outro dia qualquer, é o equivalente a um pequeno nirvana, um êxtase romântico. As notas decolam e passeiam levemente em meio às nuvens branquinhas coladas sobre o céu azul, seja de Natal ou do Rio de Janeiro. Há algo de onírico, muito de poético. Há uma brisa envolta na suavidade dos acordes melodiosos e miraculosos do Cello de Morelembaum, pontuados pela delicadeza percussiva, sem sobressaltos, de Rafael Barata e o violão harmonioso, com ginga, balanço e equilíbrio, do experimentado Lula Galvão.

Advirto, sem querer ser arrogante, que somente ouvidos merecedores deverão ligar o aparelho de som, quando guiados por tal escolha estética. O primeiro trabalho solo de Jaques Morelembaum (trabalho solo-trabalho cello) é, portanto, uma sugestão entusiasmada deste articulista, resumindo a proposta de audição da seguinte forma: façam por merecer o CelloSam3aTrio, um conjunto musical que Caetano Veloso, já bem conhecedor da obra de Jaquinho, intitulou certeira e sinteticamente de “nova voz no mundo”.

Conforme disse o próprio líder do trio, não escondendo influências fantásticas vindas de nomes do nível de Egberto Gismonti, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, dentre outras centenas de grandes expoentes da música brasileira/universal: “Todo mundo que é bom na música brasileira compõe ou utiliza o violoncelo”. Então, que utilizemos lindamente essa grande novidade musical que se nos apresenta, de forma generosa e muitíssimo feliz.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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