A tênue fronteira entre o chão e as entranhas

O último de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

***********

Devagar, um homem abriu os olhos. Flutuava num torvelinho de formas e cores. Aos poucos, se delinearam contornos. Sentiu que tinha acordado. Estava nu, no coração de uma mata. As copas de altas árvores fechavam o céu, criando um ambiente úmido e escuro. Uma miríade de árvores menores, plantas, flores de diversas cores e tamanhos, cipós se entrelaçavam numa teia a primeira vista impenetrável. Tênues raios se infiltravam entre as frestas deixadas pela vegetação, reverberando nas infinitas formas da mata circunstante, confundindo a visão. Não soprava um hálito de vento, tudo parecia imóvel, mas o homem pressentia que tudo estava em movimento, da mais alta árvore ao mais fino fio de relva.

Aconteceu de improviso, num dia gélido de começo de outono na extremidade austral do planeta, aquele rincão que alguns gostam de chamar os últimos confins da Terra. Meses antes tinha deixado para trás – pelo menos, assim pensava – minhas amarguras e neuroses e, agarrada uma mochila, tinha começado a perambular sem rumo pelas veredas da América do Sul.

Estava atravessando a pé o Parque Nacional Tierra del Fuego respirando a plenos pulmões o ar límpido daquela manhã, fascinado por uma imponente floresta de lengas e guindos, árvores fueguinas mergulhadas num sub-bosque de arbustos espinhosos. Devido ao meu passo lento e pausado, os demais caminhantes com quem tinha começado a trilha já estavam longe. O dia tinha amanhecido sereno, mas no meio da manhã o céu escureceu de repente e logo após começou a nevar. Em poucos minutos, o caminho na minha frente e o bosque inteiro se tornaram um óleo sobre tela de inúmeras nuances de branco e de cinza.

Os colegas da escola me apelidavam Condor. Sinto atração por essa ave desde pequeno. Para os povos dos Andes Centrais, o condor é símbolo de liberdade. Talvez seja porque mora em picos inacessíveis, porque seus voos o aproximam do sol, porque pode penetrar nas nuvens, se impregnar de vento, olhar a terra e os seres que a habitam desde uma altura de onde toda e qualquer fronteira revela sua natureza ilusória. A primeira vez que tinha visto um condor ao vivo, porém, não tinha sido no céu, mas na terra, na estepe patagônica aos pés dos Andes da província de Santa Cruz, dias antes daquela manhã de outono. O condor devorava a carcaça de um cordeiro. Foi desse jeito brutal que descobri que essa majestosa ave de altos voos é também um abutre que se alimenta de carniça.

Avançava com dificuldade, afundando os pés numa camada de neve cada vez mais espessa e na lama em que a terra debaixo dela tinha se transformado. O vento jogava rajadas de neve na minha cara cortando-a de frio, molhando e embaçando meus óculos e me impedindo de enxergar com nitidez o caminho. Meus músculos se enrijeceram, sentia meu estômago se despedaçar, acreditava que iria vomitar o coração e me senti só, uma solidão infinita como a daquele bosque indiferente, fria como aquela manhã que em poucos minutos tinha me jogado nas garras de meus demônios.

Respirei fundo, pensei que só precisava continuar pelo caminho que estava percorrendo. Apesar da neve impedir enxergar muito longe, havia apenas que seguir pela pista já aberta no meio do bosque e em algum momento, mais cedo ou mais tarde, iria desembocar na estrada que me levaria até a saída do parque. Segui em frente, lutando contra o fantasma que tentava me possuir e, expulso em vão da cabeça, se infiltrava pelas frestas do intestino. Um fantasma que não tinha como afastar e me jogava na cara, a cada instante, o pesadelo de não ter forças suficientes para chegar até o fim, de me perder no meio da nevasca que poderia apagar a senda, de morrer de frio e fome antes de reencontrar o caminho. Só escutava o estridor do vento; se algum pássaro cantasse, se o sub-bosque produzisse sons que sugerissem a presença de algum animal nos arredores, se um galho se quebrasse não o perceberia.

Melodias envolventes se entremeavam a alaridos estridentes, cantos politonais, acordes arrítmicos, agudos desafinados ou harmonias compassadas que compunham uma sinfonia que embalava e sacudia, abraçava e chocalhava. Seres estranhos pululavam por todo lado, em silêncio ou gemendo, produzindo cantigas, sussurros, sibilos, grunhidos e sons indecifráveis, se buscando, se pegando, se batendo ou se ignorando.

Seres alados de todos os tamanhos povoavam os galhos, tingindo-os com plumagens vibrantes ou confundindo-se com a vegetação, com bicos enormes e coloridos ou fininhos e discretos. Seres alongados, rastejantes, de peles de aparência viscosa apareciam por vezes entre as pedras ou pendurados nas árvores. Seres peludos, de manto dourado ou cinza escuro com listras brancas, ou avermelhado com jubas escuras, com pernas, braços e mãos semelhantes aos humanos apareciam aqui e acolá entre os galhos e nos cipós, brincando, colhendo frutas ou apenas observando, curiosos, o homem. Miríades de pequenos seres de aparência preta ou avermelhada, de diferentes tamanhos, formando longas filas compactas ou em pequenos grupos atravessavam os chão, galgavam as pedras, subiam ou desciam pelos troncos das árvores, cuspidos de buracos na terra ou sendo engolidos por eles. Pequenos seres alados, das mais variadas cores e tamanhos, zuniam às vezes em seus ouvidos, grudavam em sua pele, o picavam causando-lhe ardência e coceira, rondavam a seu redor ou o ignoravam, ocupados em outros afazeres. Diminutos seres alados de asas coloridas, listradas ou pontilhadas com tonalidades ora vibrantes ora suaves, deslumbrantes ou apaziguantes pousavam de vez em quando em seu ombro ou esvoaçavam livres ao seu redor.

No princípio era o verbo, mas nada daquilo tinha nome. Percebeu que ele tampouco tinha um.

Como a neve espessa cobria muitas vezes os sinais do caminho, várias vezes me perdi, desemboquei em becos sem saída que davam para o bosque fechado e tive que voltar nos meus passos até reencontrar o lugar a partir de onde tinha tomado a direção errada. De repente, lembrei do condor com o bico ensanguentado dilacerando as carnes de um cordeiro. Naquele instante, me senti amarrado ao chão com um cordão umbilical. Não importa quão longe tivesse querido e tentado fugir: o chão estava comigo, o carregava em minhas células. Mas a terra parecia tão distante, tão indiferente: estava lá, mas uma muralha intransponível a separava das minhas entranhas.

Continuando a caminhada, de algumas brechas entre as árvores vislumbrei o mar e umas ilhotas à distância. Percebi que estava costeando uma praia e, pouco depois, desemboquei nela. Na minha frente se desenhava uma enseada rochosa cravada de arbustos, toda coberta de neve, acariciada por um mar límpido, sereno apesar da tormenta que o céu estava desabando sobre a terra, de onde podiam avistar-se algumas ilhas do Canal de Beagle também pintadas de branco. De repente, parou de nevar.

Estava encharcado, coberto de lama, cansado e ainda com alguns quilômetros de caminho pela frente, mas naquele momento, diante daquela visão inaudita para um filho dos trópicos, daquele abraço de neve e mar, nada disso me importava. Sentei numa rocha, respirei o ar limpo daquela enseada, me deixei chicotear pelo vento que já não me incomodava e, não sei por quanto tempo, apenas olhei e escutei. Estava só junto ao mar, às rochas, aos arbustos, ao vento, à neve e ao canto distante de alguns cormorões.

Nada daquilo tinha nome, nem ele mesmo. Mas ele nomeou. Nasceram animais, plantas, pássaros, insetos, répteis, rios e cachoeiras, folhas e rochas e, com elas, nasceu aquele homem.

Não sei quanto tempo passei lá, se adormeci ou fiquei acordado. Minha única lembrança é a visão de um homem nu no coração de uma mata úmida, longe daquela terra gélida onde me encontrava. Só sei que durante alguns instantes, depois de retomar a caminhada, a fronteira entre o chão e minhas entranhas tinha me parecido mais tênue.

***********

Clique nos links abaixo para ler os outros dois contos do conjunto que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo.

O rascante sussurro da noite

1ª Parte: http://substantivoplural.com.br/o-rascante-susurro-da-noite-1a-parte/

2ª Parte: http://substantivoplural.com.br/o-rascante-sussurro-da-noite-2a-parte/

3ª Parte: http://substantivoplural.com.br/o-rascante-sussurro-da-noite-3a-parte/

4ª Parte: http://substantivoplural.com.br/o-rascante-sussurro-da-noite-4a-e-ultima-parte/

Certa história de amor (um sonho, quiçá): http://substantivoplural.com.br/certa-historia-de-amor-um-sonho-quica/

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Pingback: Retrospectiva literária pessoal | Substantivo Plural

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezoito − 4 =

ao topo