A terapia pelo livro, segundo Ronaldo Brito

Foto: Hans-von-Manteuffel

Quando visitou a redação do jornal cultural “O Galo”, na Fundação José Augusto, em outubro de 2001, o cearense/pernambucano Ronaldo Correia de Brito era um festejado teatrólogo inspirado na cultura popular nordestina, “a nossa maior mina, o nosso subsolo de petróleo”, como ele a definiu em entrevista que deu a nós, àquela época, e que foi publicada em novembro daquele ano nas páginas de “O Galo”. O contista, porém, já dissera a que viera, pois seu livro “As Noites e os Dias” começava a trilhar um caminho de reconhecimento crítico e de êxito popular.

O passar dos anos apenas confirmou aquilo que Ronaldo Correia de Brito anunciara nas páginas do periódico cultural que a Fundação José Augusto, sob a presidência do jornalista Woden Madruga, mantinha zelosamente. De fato, Ronaldo publicou na primeira década do século atual outros volumes de contos – “Faca” (2003), “O Livro dos Homens” (2005) e “Retratos Imorais” (2010) – e um romance, “Galileia” (2008), sem que, em qualquer momento, se afastasse do princípio que anunciara no contato que manteve conosco. Sua confiança no “nosso subsolo de petróleo”, ou melhor, na riqueza inesgotável da cultura que é feita e que faz o homem nordestino, só tem se fortalecido.

O sucesso da obra de Ronaldo dá provas de que é possível ser escritor nordestino sem portar um rótulo ou pertencer a uma confraria nobiliárquica ou de outra ordem. E hoje, mais maduro e consciente do seu papel como escritor, ele faz profissão de fé de uma das ideias mais ousadas que um escritor já formulou: “os livros podem preencher todas as faltas na nossa vida”, conforme disse em entrevista ao jornal cultural “Rascunho” (novembro de 2011).

Detalhando melhor sua ideia, Ronaldo explica que chegou a essa conclusão sobre o papel terapêutico dos livros ao se debruçar sobre sua própria história de vida. “A nossa história pessoal é muito incompleta, é muito fragmentária, é muito cheia de hiatos e buracos […] A literatura pode – na vida de qualquer indivíduo, não apenas na minha – ocupar esse espaço, preencher esses buracos, essas faltas”.

A essa altura já é possível perceber que Ronaldo não distingue autor de leitor. O poder curativo que ele atribui ao livro pode se dar tanto num, como no outro caso. Ou seja, ler é tão importante quanto escrever, em sua opinião, confirmando um pensamento que alguns escritores preferem não arriscar. Ao longo da entrevista ao “Rascunho” ele tem oportunidade de enfatizar algumas vezes essa ideia. Como, por exemplo, quando divaga sobre a infância e se demora no episódio da descoberta do livro da família – “A História Sagrada” – de leitura obrigatória na casa de seus pais. Aos sete anos de idade, conta Ronaldo, ele fez a primeira leitura desse livro. Nesse momento, seu pai o declarou leitor. “A partir daí, minha vida começa”, diz ele.

Mas para que essa emancipação se dê, é preciso preencher uma condição: ler como Jorge Luis Borges leu, ou seja, amando os livros. E isso é uma característica que parece acompanhar Ronaldo ao longo de sua vida. O entusiasmo com que ele se reporta a livros que recebe de autores pouco ou nada conhecidos é uma prova disso. Ou, em suas palavras: “Havia coisas que eram incompreensíveis, que só o livro poderia me dizer, que só o livro poderia me explicar, que só o livro me colocava naquele lugar”.

Ante tamanho entusiasmo, Ronaldo passa a impressão de que gosta de falar mais dos livros que lê do que dos que escreve. Mas que ninguém se engane, trata-se com certeza de uma idiossincrasia que só um autor maduro e consciente do seu papel na vida literária brasileiro pode ostentar. Sem qualquer ostentação. Longe disso.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jóis Alberto 12 de dezembro de 2011 20:36

    Valeu, Nelson Patriota! O seu texto é sempre um ótimo exemplo de que é possível fazer jornalismo cultural da melhor qualidade, com profissionalismo, talento, competência e ética.

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