A Tia facínora

Por Geraldo Barboza de Oliveira Jr

Enquanto grávida, a mãe pensava:  – Prefiro uma filha na vida, do que vivendo na miséria como eu. Não suportava a idéia de pobreza para seus rebentos. Assim, nasceu Dona com a sina de ter que ser esperta. Viu a mãe se consumir em lavagens de roupas para famílias ricas e o pai trabalhar de mecânico de automóveis. Pensava como resultado da indução psicológica materna no período da gestação: faço qualquer coisa, mas vou ter um carro próprio antes dos 30 anos.

Qualquer coisa, que contrariasse sua sina de ter nascido e viver e em uma casa em uma vila. Desde cedo começou sua vida de esperteza roubando o leite do irmão. Mamou até onde não podia mais. Por osmose, a relação com a mãe ficou anos-luz, além do espólio de Édipo. Aos quatorze anos se fez. Enquanto a mãe engomava a roupa na casa de um ex-prefeito, Dona destruía o lar do ex-gestor com o primeiro felatio de sua vida. Disse-lhe o respeitável senhor. Faz de conta que é um picolé! Aprendeu rápido e deixou um ex-prefeito feliz. E para Dona, moedas, bolo, refrigerante e a promessa de uma camisa nova; e de diferente (nenhum desconforto) somente aquele gosto de água sanitária na boca. Assim, descobriu cedo, a difícil vida fácil. Perfeito. Simpática, com uma humildade franciscana, e com uma capacidade de induzir até o Satanás a procurar outros ares, começou, assim, a ganhar o seu primeiro tostão. Sempre um riso pronto nos lábios, uma palavra amável e aquela frase (que norteia sua vida até então) que chocou seu melhor amigo. “_enquanto você paquera com o garçom, eu to de olho no dono do restaurante”. Sempre foi assim, tal qual Geni (aquela do Zepelin). Cada polegada de seu corpo vale cada tostão ganho com os diversos am igos/clientes. Aliás, sempre soube valorizar o mirado e entroncado corpinho: banhas, pêlos, lábios grossos (que agem como uma bainha na ação do felatio/habitué que lhe deu projeção) e nenhuma moralidade. Seja na rua, no quartel ou no banheiro do Hiper, ela é propositiva. Aliás, foi nesse último recanto que fez sua vida com um ricaço: Casa, carro, moto, cartão de crédito, viagens e uma “caução-abduzida” de cem mil Reais, para o caso de abandono. Ante a negação de um espólio dado, ficou ainda com cinqüenta mil em espécie. Reformou a casa, viajou com os pais e o amante, trocou de carro, deu entrada em apartamento novo. Tudo o que sempre quis. Tudo pago por Segundo. Terceiro enfeitou o bolo. Mas, como disse a avó: _Costume de casa vai à praça. Dona vive até hoje, entre restaurantes, aeroportos e banheiros. O dinheiro, a casa, o carro,… Nada trouxe de volta o que nunca existiu: o sentido de dar sentido à vida. Vive, como uma libélula: se equilibrando em asas frágeis e –mundanas- soltas ao vento. Nem vinhos, nem livros, nem ouro, deu louros à sua inexpressiva vida. Começa a se perceber Tia. A Tia Facínora, como lhe chamam as amigas de metier. Hoje, aos quarenta, com a vergonha e, paradoxalmente, a conivência da Mãe, a Tia Facínora está Sozinha. Viciada e Vazia de seu próprio eu. Caminhando para uma morte lenta e sem projeção. E no seu epitáfio escreveram (aliás, riscaram na pedra); _Viveu e não conseguiu passar pela vida.

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