A tragicomédia de Apipucos

Ecos do lusotropicalismo, do Texas a Portugal e Angola

Resumo

O ensaísta americano Benjamin Moser aponta que a necessidade emocional de justificar a singularidade do autoritarismo racista no Brasil e em Portugal está na origem da obra de Gilberto Freyre, que deu a seu “lusotropicalismo” feições de uma tragicomédia marcada por suas experiências no Texas e no Portugal de Salazar.

BENJAMIN MOSER
tradução BERNARDO CARVALHO
FSP

“CASA-GRANDE & SENZALA”, de Gilberto Freyre [1900-87], descreve o Brasil colonial.
A desnutrição era a norma numa “terra de alimentação incerta e vida difícil”. A miséria era absoluta: “Palanquins forrados de seda, mas telha-vã nas casas-grandes e bichos caindo na cama dos moradores”. A indolência era a única arte dos proprietários de terras -“Alguns senhores se acompanhavam de um [escravo] para levar-lhes o chapéu, outro o capote, um terceiro a escova para limpar o fato, um quarto o pente para pentear o cabelo”- e algumas mulheres estavam tão acostumadas a ser carregadas que mal podiam andar.
A crueldade dos homens com as mulheres era tal que o estupro ganhou um valor positivo (“É da essência mesmo do regime”). Mulheres torturavam outras mulheres: “Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco”.
Era uma terra de crianças cruéis -“Imagine-se um país com os meninos armados de faca de ponta!”-e cruel com as crianças: “Houve verdadeira volúpia em humilhar a criança; em dar bolo em menino”. Os meninos logo desenvolviam uma sexualidade perversa: esperavam “sifilizarem-se o mais cedo possível, adquirindo as cicatrizes gloriosas dos combates com Vênus que Spix e Martius viram com espanto ostentadas pelos brasileiros”.
A tortura de animais era incentivada e mesmo os membros mais progressistas da sociedade estimulavam o suplício dos nativos. “Espada e vara de ferro, que é a melhor pregação”, escreveu o jesuíta José de Anchieta, reconhecido por sua humanidade e sofisticação. A liberdade intelectual e religiosa inexistia: “Dizia-se outrora em Portugal, como advertência aos indiscretos no falar e no escrever, que detrás de cada tinteiro estava um frade”. O analfabetismo era geral: “Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes”.
Muitos brasileiros consideraram o livro ufanista. Muitos ainda o consideram.

INTOXICAÇÃO SEXUAL Em 1980, Gilberto Freyre confiou à “Playboy” que perdera a virgindade com uma bananeira. A conclusão de que esse era um homem que se deleitava em escandalizar uma sociedade católica e puritana está correta. “O ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual”, declarou ele no seu principal livro, explicando a gênese do Brasil literalmente por meio da sexualidade: a falta de mulheres brancas e a queda do homem português por suas escravas nativas e africanas resultaram, quase que imediatamente, numa sociedade miscigenada.
O caráter miscigenado da população preocupava os brasileiros, que muitas vezes viram nele um grave defeito a ser corrigido pela importação de imigrantes europeus, que esmagariam o supostamente inferior “sangue negro” com uma saraivada de DNAs eugenicamente vigorosos.
Em 1933, ano de publicação de “Casa-Grande & Senzala” [51ª edição, Global, 2006, 728 págs., R$ 98], essa teoria gozava de respeitabilidade professoral. A Abolição fornecera um poderoso estímulo à imigração: países escravocratas tinham dificuldade para atrair imigrantes, e, em pouco tempo, o sul do Brasil “embranqueceu” significativamente. Se pudesse manter-se nesse rumo, fantasiavam os especialistas, logo o país estaria livre da marca de Caim.
A fantasia, porém, não estava ao alcance dos habitantes do Nordeste, em cuja tradicional capital, Recife, nasceu Freyre apenas pouco mais de uma década depois da Abolição. A economia estava baseada nas famílias “patriarcais” das quais Freyre descendia, mas a ordem rural decaíra sem a contrapartida da emergência da indústria urbana. Os antigos escravos estavam à deriva; os imigrantes se dirigiam para outras partes.
Se, como tantos especialistas insistiam, o arianismo da população era o principal critério para determinar o seu desenvolvimento, o Nordeste estava condenado. Embora apenas adeptos menos respeitáveis -como os que tomaram o partido da Alemanha no ano em que “Casa-Grande & Senzala” foi publicado- costumem ser lembrados, muita gente de respeito, e até cientistas proeminentes, endossaram a supremacia branca.
“De todos os problemas que o Brasil enfrenta, nenhum me inquietou mais do que o da miscigenação”, Gilberto Freyre lembraria mais tarde. Talvez tenha sido essa inquietação que o levou ainda jovem a escrever: “Era como se tudo dependesse de mim e dos da minha geração”.

RAÇA As visões predominantes, tal como Freyre as descreve, mantinham que “é da raça a inércia ou a indolência. Ou então é do clima, que só serve para o negro. E sentencia-se de morte o brasileiro porque é mestiço e o Brasil porque está em grande parte em zona de clima quente”.
Com “Casa-Grande & Senzala”, Freyre suspendeu essa pena de morte. Entendeu que de nada adiantava negar que o Brasil era, e sempre seria, um país miscigenado. E logrou descobrir algo positivo na maioria não-branca da população -a mesma que, por gerações, ouvira seus governantes alardear a esperança de que, para o bem da nação, ela logo estaria extinta.
Afirmando que hereditariedade e circunstâncias sociais -raça e cultura- eram duas coisas diferentes, popularizou a ideia de que descendentes de africanos tinham dado uma contribuição positiva à formação nacional. Essa ideia, assim como a maneira explícita de o livro abordar o sexo, provocou um terremoto. “O jovem leitor de hoje”, lembrou Antonio Candido décadas depois, “não poderá talvez compreender, sobretudo em face dos rumos tomados posteriormente pelo seu autor, a força revolucionária, o impacto libertador que teve este grande livro”.
Seu retrato da escravidão brasileira é soturno a ponto de remeter ao sensacionalismo gótico. A profusão tropical de olhos arrancados, servidos no prato do patrão, sugere que o autor pouco se interessava por meios-tons; mas sua biógrafa, Maria Lúcia Pallares-Burke, salientou que, com esses mesmos horrores, Freyre lançava as bases de uma “tragicomédia”.
Isso significava que certos desastres podiam concorrer para algum bem histórico. O estupro de escravas, por exemplo, foi uma decorrência natural da escravidão, mas a própria depravação, Freyre argumentava, podia ser o que vinha a redimir o Brasil do que parecia, em 1933, o maior mal moderno: a questão aparentemente insolúvel da raça.

TEXAS Depois de se formar em uma escola batista americana do Recife, Freyre recebeu uma bolsa para estudar na universidade batista de Baylor, localizada em Waco, Texas, onde “o problema do século 20”, a raça, era mais absoluto do que em Pernambuco. As guerras raciais estavam no auge.
Apenas dois anos antes de Freyre chegar, um menino negro chamado Jesse Washington foi condenado por estupro em um julgamento que durou quatro minutos. Num ambiente festivo, na presença do prefeito e de milhares de outros cidadãos, o menino foi torturado por horas, antes de ser queimado vivo em praça pública. Cartões-postais do cadáver calcinado esgotaram-se rapidamente.
Freyre recebeu uma baforada da ordem social sulista ao passar por Waxahachie, perto de Dallas, sentir “um cheiro intenso de carne queimada e ser informado com relativa simplicidade: ‘É um negro que os boys acabam de queimar!’. Seria exato? Seria mesmo odor de negro queimado?”.
O Brasil tinha seus problemas. Mas disso, pelo menos, fora poupado. Como afirma Pallares-Burke, porém, Freyre levou anos até abrir mão da ideologia racista. Numa das frases mais citadas e mais radicais de “Casa-Grande & Senzala”, ele escreveria que “todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo […] a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.
A tragédia -a relação espoliadora entre o senhor português e a escrava africana- resultou em comédia ao produzir a descendência mulata: ainda que acidentalmente e a um custo assombroso, o Brasil se furtou às cenas de linchamento características da “galhardia sulista” americana. E solucionou o mais espinhoso dos problemas modernos: “Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça”.
Enquanto racistas fanáticos se preparavam para destruir a Europa, aí estava algo de que os brasileiros podiam se orgulhar. A ideia tornou-se uma espécie de ideologia oficial da nação. Na sua bem-sucedida argumentação para sediar a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro, o presidente Lula evocou o Brasil em termos freyrianos.
“Olhando para os cinco aros do símbolo olímpico, vejo neles meu país. Um Brasil de homens e mulheres de todos os continentes: americanos, europeus, africanos, asiáticos, todos orgulhosos de suas origens e mais orgulhosos de se sentirem brasileiros. Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado. É o que faz a nossa identidade.” Essa identidade é o legado de Gilberto Freyre. Mas não o único.
COMICHÃO Raramente um escritor tornou mais fácil ao crítico desfavorável rejeitá-lo sob luz adversa. Algumas de suas frases são tão racistas que chegam a dar comichão. Os judeus são comparados à “presença irritante de uma poderosa máquina de sucção”. As mulheres indígenas eram “um pouco besta de carga” que, por “qualquer bugiganga ou caco de espelho, estavam se entregando, de pernas abertas”, aos portugueses; e os afro-brasileiros cumpriam, “com uma passividade animal”, a função de carregar na cabeça enormes baldes de merda, que frequentemente rebentavam, cobrindo os carregadores de excremento. “Mas”, Freyre insiste apenas algumas páginas mais adiante, “não foi toda de alegria a vida dos negros”.
A maior cortesia que se pode dizer sobre isso é que Freyre era um aficionado da metáfora apelativa, e que ele ultrajava todos os grupos, com o mesmo gosto. O problema que sobressai em “Casa-Grande & Senzala” não é o racismo do autor. Seu livro fez mais do que qualquer outro antes dele para chamar a atenção sobre as contribuições de grupos marginalizados. Mas ele aceita a categoria de raça, e sobre ela ergue toda a sua filosofia.
Suas primeiras obras ressoam proclamações que hoje parecem ridículas, mas eram, na época, a base da investigação científica respeitável: “A teoria da superioridade dos dólico-louros tem recebido golpes profundos”, ele nos informa, embora, com frequência, desmascare uma falsa teoria apenas para abraçar outra: “Podem-se incluir os Banto […] entre os mais caracteristicamente negros; pelo que não significamos a cor […] e sim traços de caracterização étnica mais profunda: o cabelo em primeiro lugar”.

PORTUGAL Essa bazófia spengleriana encontra sua expressão mais característica na descrição que Freyre faz dos portugueses. “Os que dividem Portugal em dois, um louro, que seria o aristocrático, outro moreno ou negroide, que seria o plebeu, ignoram o verdadeiro sentido da formação portuguesa.” O verdadeiro sentido, ele insistia, é que sua posição entre a Europa e a África, entre o cristianismo, o judaísmo e o islã, deu aos portugueses uma mentalidade flexível e cosmopolita única.
Com seu gosto pela aventura tropical, sua cegueira em relação às raças, sua aptidão para a miscigenação e seu cristianismo fraternal, os portugueses eram assim os colonizadores ideais, suas intervenções em terras tropicais eram marcadas pela tolerância e pela reciprocidade cultural. Freyre desenvolveu essa noção em uma teoria acabada a que chamou lusotropicalismo, que expôs em uma série de livros.
Deixando para trás as ilhas que formam o centro do Recife, chegamos, ali onde a cidade começa a desaparecer, a um bairro que ainda preserva a impressão de uma pequena vila colonial, completada com um nome indígena e a casa-grande do engenho de outros tempos. Hoje, a casa-grande de Apipucos, onde viveu Gilberto Freyre, abriga uma fundação em memória de sua vida e de sua obra.
O terreno está plantado de paus-brasis; há orquídeas nos galhos das árvores e mangas espalhadas pelo gramado. A decoração interior é típica da aristocracia brasileira. Móveis de jacarandá, santos barrocos, artesanato e, na sala de jantar, um magnífico conjunto de azulejos portugueses.
Um dos estagiários da fundação nos diz que os azulejos vieram de uma igreja lisboeta, demolida para expandir o aeroporto da capital portuguesa. Acabaram num antiquário, embora, como patrimônio histórico, não pudessem ser exportados. “Mas quando o governo descobriu que o dr. Gilberto estava tentando comprá-los”, diz o guia, um tanto deslumbrado, “fizeram uma exceção.”
Não fica bem perguntar quanto o dr. Gilberto pagou pelos azulejos. Os governantes portugueses, em todo caso, estavam em dívida com ele. Suas ideias sobre a maleabilidade única do espírito português receberam muito mais atenção em Portugal do que no Brasil, mas desde pelo menos 1940, Freyre vinha se manifestando a favor de uma cultura ameaçada “por agentes culturais de imperialismos etnocêntricos, interessados em nos desprestigiar como raça -que qualificam de ‘mestiça’, ‘inepta’, ‘corrupta'”.
Sua defesa da miscigenação não teve inicialmente acolhida calorosa em Lisboa, mas o governo português entendeu que corria o risco de perder a opinião pública internacional. Déspota católico e implacável, António de Oliveira Salazar não tinha a menor intenção de arrumar as malas e partir de suas “províncias ultramarinas”, mas percebeu que era tempo de fazer concessões cosméticas.
Salazar encontrou a resposta perfeita na velha casa-grande de Apipucos: um cientista social estrangeiro de grande reputação disposto a dar roupagem moderna ao empenho colonial português, e que havia desmerecido ataques a Portugal como investidas contra a democracia social e o multirracialismo. Na cabeça do ditador, só vinha a calhar que esse mesmo cientista social fosse comovedoramente suscetível à adulação.

AS COLÔNIAS Em 1951, portanto, Freyre foi convidado para uma turnê de seis meses por Portugal e suas colônias, onde foi festejado numa sucessão de banquetes e incensado numa espantosa série de perfis obsequiosos, publicados por uma imprensa que, como ele bem devia saber, era tão estritamente controlada quanto o jornal soviético “Pravda”. (Freyre contou à “Playboy” que, dada a duração da viagem, sua mulher lhe permitira desfrutar de seu gosto pela carne escura: supomos que seus anfitriões também lhe garantissem essas provisões.) Sem a menor ironia, Freyre republicou todos os artigos untuosos que lhe foram dedicados, páginas e mais páginas de brindes e homenagens.
Angola, a maior dessas colônias, era a negação mais dramática de suas teorias. Para começar, não havia quase nenhum mulato no país: proporcionalmente, a África do Sul tinha dez vezes mais habitantes mestiços. E isso não era por ter faltado tempo aos portugueses adaptáveis e “plásticos”: Diogo Cão reinvidicara a área para Portugal quase duas décadas antes de Cabral aportar no Brasil.
Angola fornecera os ancestrais de boa parte da população brasileira, que por séculos foram arrancados de sua terra por um regime colonial particularmente cruel e devastador: desde a chegada dos portugueses, em 1482, Angola conheceu apenas cinco anos de paz. A despeito disso, aí está Gilberto Freyre dizendo ao governador-geral que, “se fosse homem de Estado e não, principalmente, de estudo, o Estado que um dia governasse, procuraria governá-lo como V. Excia. governa Angola”.
E escreveu um perfil efusivo do “Professor Salazar”, o ditador que o recebera “com uma simplicidade de professor que acolhesse outro”. O professor estava “interessado nos meus livros, alguns dos quais vejo a seu lado” -Salazar conhecia o homem- e Freyre conversou por duas horas com o interlocutor “mais ágil de olhar, mais agudamente vigilante, mais didaticamente atento ao que ouve, que tenho conhecido”.
Por pelo menos mais uma década, Freyre empilhou elogios sobre o colonialismo português. O lusotropicalismo -tolerância e cosmopolitismo- tornou-se a ideologia oficial de um regime xenofóbico e racista. As contribuições da propaganda de Freyre foram tais que a maioria dos portugueses já chegava em Angola convencida de que não era racista, “como se treinada”, escreveu um estudioso, “por uma combinação de Pavlov e Gilberto Freyre”.
Os livros de Freyre foram publicados pelo governo português e amplamente distribuídos em escolas e embaixadas. Quando a Índia independente tomou posse de Goa, em 1961, e quando guerras terríveis explodiram primeiro em Angola e depois em Moçambique, ele continuou a defender uma etnicidade não-etnocêntrica por ser ela, segundo a sua própria definição, não etnocêntrica. Era uma espantosa obra de raciocínio circular que ele nunca repudiou.
A conexão entre Brasil e Angola -“Sem Angola não há Pernambuco”, disse o padre Antônio Vieira- era fundamentalmente semelhante à de todas as culturas do Novo Mundo, cuja economia estava baseada na escravidão africana. Freyre deixou uma vívida ilustração de como eram parecidas as sociedades resultantes ao comparar o sul dos Estados Unidos com o Brasil: “Quase os mesmos fidalgos rústicos -cavalheiros a seu jeito; orgulhosos do número de escravos e da extensão das terras; multiplicando-se em filhos, crias e moleques; regalando-se com amores de mulatas; jogando cartas, divertindo-se em brigas de galo; casando-se com meninas de 15, 16 anos; empenhando-se em lutas por questões de terra; morrendo em duelos por causa de mulher; embriagando-se com rum em grandes jantares de família -vastos perus com arroz assados por ‘old mammies'”.

SULISTA AMERICANO O tom afetuoso é, em si mesmo, um alerta de que há algo do sulista americano em Gilberto Freyre: a dona de casa, entrando em êxtase com “…E o Vento Levou”, ou o aficionado de história, folheando biografias de generais confederados. Não almejam explodir fortes federais nem restabelecer a escravidão: nutrem, como Freyre, certa nostalgia por um estilo de vida desaparecido e estão dispostas a fazer vista grossa a alguns de seus defeitos.
A julgar pelo testemunho vívido de seus próprios livros, podíamos presumir que Freyre era um opositor convicto da escravidão, mas não é bem assim. “O meio e as circunstâncias exigiriam o escravo”, ele escreveu em “Casa-Grande & Senzala”. A afirmação começa com a conclusão e nunca o leva a perguntar: para que e para quem a escravidão era necessária? Ou: valeu o preço que o Brasil pagou?
Isso dá o seu retrato dos horrores da sociedade escravocrata, anedotas sem nenhuma conclusão, um aspecto mais pornográfico do que científico, com as descrições pitorescas chamando mais a atenção sobre si mesmas do que sobre o fenômeno que descreviam.
De fato, é espantoso o ímpeto com que ele resistiu chegar às conclusões mais óbvias que se inferem de seus próprios livros. Talvez porque qualquer sociólogo que percebesse que o problema fundamental do Brasil não é a raça, mas a escravidão, veria que o país, no que diz respeito a essa questão essencial, nada tem de único: que a sociedade do Recife não era tão diferente da de Caracas, ou da de Charleston, ou da de Porto Príncipe. Mas isso era algo que Gilberto Freyre jamais poderia admitir.

JUSTIFICATIVA Toda a sua obra reflete uma profunda necessidade emocional de acreditar que o Brasil (e Portugal, por extensão) era especial. Ele nunca perdeu o poderoso desejo de banir o sentimento de inferioridade nacional que o atormentara na juventude. Sua defesa da sociedade miscigenada, sob essa luz, não era uma reivindicação progressista. Não se tratava do que o Brasil devia ou podia ser, mas de uma justificativa do que ele era. Como Salazar percebeu, esse espírito acrítico era ideal para a produção de propaganda. Sua representação da singularidade brasileira -que o Brasil teria apagado num passe de mágica seu passado amargo- tinha a simplicidade descontraída do mito. Apesar da impostura histórica na qual se apoiava, o ideal se tornou o primeiro mito a poder ser adaptado às aspirações progressistas do Brasil moderno: um país orgulhoso do que por muito tempo o envergonhara, sua herança variada.
Os mitos políticos podem ser positivos, mesmo -e especialmente- quando não refletem a realidade. A retórica de Jefferson sobre a liberdade e a igualdade foi uma piada de mau gosto para os negros nos EUA, mas o apelo daquilo em que os americanos queriam acreditar legou uma arma poderosa aos reformistas sociais que, desde então, tentam mover o país na direção de seus supostos ideais.
Suas origens não tornam a teoria da singularidade brasileira nem menos original nem mais inaceitável: um país que acredita ter uma inclinação única para a harmonia social tem mais chances de se empenhar por essa harmonia do que aquele onde não há esse mito. Existem ideais políticos piores. Que um velho reacionário numa casa-grande escravocrata tenha fornecido aos brasileiros uma maneira tão nova e radical de ver o país é, por si só, uma tragicomédia.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 12 de julho de 2010 5:20

    Amigos e amigas:

    O texto de Moser é especialmente interessante ao articular conquistas de “Casa grande & senzala” a argumentação ideológica tardo-colonialista e pró-salazarismo: ao invés de paradoxo, desdobramento. Mas CG&S é mais que ideologia.
    Estranho a licença poética final: “Que um velho reacionario numa casa-grande escravocrata tenha fornecido aos brasileiros uma maneira tão nova e radical de ver o país é, por si só, uma tragicomédia”. Por que velho (Freyre começou a escrever jovem)? Por que apenas reacionário (adeus aos argumentos de Antonio Cândido, citados por Moser?)? Por que tragicomédia (esse gênero narrativo, por si mesmo, é sinal de coisa ruim?)?
    Considero Freyre um escritor importante. Escritores importantes também falam e fazem grandes besteiras, junto com questões de peso (sem essas, não são importantes). Freyre não se limitou a CG&S e ao elogio do lusotropicalismo. “Sobrados & mocambos” é um estudo pioneiro sobre aspectos do cotidiano histórico. E “Ordem & progresso” mescla elementos de memória e análise histórica de maneira muito peculiar.
    Abraços:

  2. Tácito Costa 11 de julho de 2010 14:30

    Li Casa Grande. Depois li muito o que escreveram sobre esse livro e sobre o conjunto da obra de Freyre. Este ensaio de Moser foi um dos melhores textos que li até hoje sobre Freyre e obra. Mesmo quem não tenha lido Casa Grande, que pode muito bem resumir todo o pensamento freyriano, tem nesse artigo uma excelente noção do universo do autor pernambucano.

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