A travessia da memória de Juan Gelman

BLOG PROSA – O GLOBO

Os últimos dias têm sido de espera e ansiedade para Juan Gelman. Desde março, o poeta aguarda o resultado dos exames que revelarão se os restos mortais encontrados em um batalhão uruguaio são de sua nora, María Claudia García, um dos 30 mil “desaparecidos” durante a ditadura argentina. Ela estava grávida quando foi sequestrada por militares em 1976, junto com o filho de Gelman, Marcelo. O corpo de Marcelo só foi descoberto em 1990, e a filha que María Claudia esperava foi localizada — viva — em 2000. Às vésperas de completar 82 anos, Gelman espera encerrar sua busca de mais de três décadas:

— Passam os anos, mas a esperança continua de pé. Quando encontrei os restos do meu filho, foi um pouco como se tivesse recuperado sua memória. E o reencontro com minha neta foi uma enorme alegria. O círculo vai se fechar quando encontrarem minha nora — diz ao GLOBO, por telefone, o autor, que participa neste sábado da I Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.

Esse “círculo” a que Gelman se refere, uma dura travessia compartilhada por milhares de parentes de vítimas das ditaduras latino-americanas, moldou inevitavelmente a obra deste que é hoje um dos maiores poetas da língua espanhola. Ele publicou seu primeiro livro, “Violino e outras questões”, em 1956. Nos anos seguintes, lançou títulos elogiados pela crítica, como “Gotán” (1962) e “Os poemas de Sidney West” (1969), e manteve militância política intensa em organizações de esquerda na turbulenta Argentina da época. A ditadura instaurada com o golpe militar de 1976, além de roubar-lhe o filho e a nora, levou-o ao exílio.

Enquanto trocava sucessivamente de país (Itália, França, Espanha, Nicarágua, México), Gelman publicou uma série de livros que, em versos pungentes e repletos de invenções verbais, condensavam a experiência ao mesmo tempo individual e coletiva do exílio. Em “Sob a chuva alheia (notas ao pé de uma derrota)”, de 1980, ele definia os exilados como “inquilinos da solidão” e se perguntava como traduzir em palavras a dor da perda: “Em que língua poderia falar a solidão? O que perdeu seus filhos, sua maisvida, que pedras cuspiria pela boca?” No mesmo ano, lançou o longo poema “Carta aberta”, dedicado ao filho.

“Há uma continuação civil do pensamento militar”

Nesse período, Gelman publicou também um conjunto de obras em que dialogava com poetas medievais, mesclando textos deles com seus próprios versos. Em “Com/posições”, de 1985 (um de seus poucos livros traduzidos no Brasil, além de “Isso” e “Amor que serena, termina?”), ele atribui a Judá al-Harizi, poeta hebreu do século XIII, palavras que bem poderiam se referir aos exilados latino-americanos da época: “me escorraçaram do palácio/ não me importei/ me desterraram de minha terra/ caminhei pela terra/ me deportaram da minha língua/ ela me acompanhou”.

— O exílio me fez redescobrir os místicos espanhóis e os poetas árabes e judeus que viveram na Península Ibérica na Idade Média. Eu sentia uma grande proximidade com esses autores, porque eles também falavam da ausência de um ser amado. No caso deles, Deus. No meu caso, meu país, minha família, meus amigos, tanta gente querida que foi morta pela ditadura, e também um projeto utópico que fracassou — diz Gelman.

Com o fim da ditadura argentina, em 1986, Gelman tentou retomar a vida no país, mas não conseguiu se adaptar ao que o uruguaio Mario Benedetti, outro escritor obrigado a deixar sua terra pelos militares, chamou de “desexílio”. Gelman acabou se mudando para a Cidade do México, onde vive há 23 anos.

— Quando voltei para a Argentina, numa época em que a anistia aos militares era completa, me aconteciam algumas coisas… Às vezes eu entrava no bar e, na mesa ao lado, havia um senhor de cabeça raspada, e eu ficava me perguntando se era ele o policial ou o militar que tinha matado meu filho, ou minha nora, ou que tinha sequestrado minha neta. Então me instalei na Cidade do México, não mais como um exilado, mas por razões íntimas, pessoais — recorda.

No mês passado, Gelman esteve em Montevidéu para participar de uma cerimônia em que o presidente José Mujica, ex-guerrilheiro preso durante a ditadura em seu país, reconheceu a responsabilidade do Estado no desaparecimento da nora do escritor. Depois de ser detida por militares argentinos, Maria Cláudia foi levada para o Uruguai, como parte da Operação Condor, a aliança política entre os regimes ditatoriais da América Latina. Ela chegou ao país ainda grávida e teve sua filha, Macarena, em novembro de 1976. A menina foi entregue a uma família uruguaia e só descobriu sua verdadeira identidade aos 23 anos, depois de uma longa campanha pública empreendida por Gelman.

— As autoridades civis e militares vêm tentando há muito tempo conservar a impunidade dos ditadores que tanto dano causaram a seus países. É como se houvesse, em muitos países da América Latina, uma continuação civil do pensamento militar. Nas minhas buscas, tropecei na resistência de muitos políticos, como se houvesse um pacto de silêncio com os militares. Os familiares das vítimas só ficam sabendo de parte da verdade. Navegamos numa escuridão angustiante — diz.

“O fracasso dá passagem a uma utopia melhor”

 Essa angústia é um componente central da obra de Gelman, mas isso não significa que ela seja sombria. Seu gosto pelos jogos de palavras e neologismos denota uma grande fé no poder de invenção da poesia (“Os sóis solam e os mares maram/ os farmacêuticos especificam/ a mim cabe gelmanear”, diz um de seus textos mais característicos). Acredita que a literatura pode ser “um espaço utópico de encontro entre culturas, algo muito difícil no mundo atual”. E costuma citar uma frase de Oscar Wilde (“Não vale a pena consultar um mapa-múndi que não inclua um país chamado Utopia”) para falar dos sonhos políticos de sua geração e das futuras.

— Acredito que, nos tempos atuais, a função da utopia reside em seu fracasso, para dar passagem a uma utopia melhor. Me parece muito importante um movimento como o dos Indignados, que põe em relevo as injustiças do sistema, sem pedir necessariamente uma mudança de sistema, e sim que haja mais justiça e uma melhor distribuição das riquezas. É importante se erguer contra a vontade dos vários poderes de nos converter em terra fértil para qualquer autoritarismo.

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