A TV do século XXI

Por Francisco Bosco
O GLOBO

O dissenso é uma virtude democrática, e as redes sociais têm contribuído para isso

Os leitores que me acompanham aqui desde o início devem se lembrar: resisti a entrar para o Facebook e, mesmo quando já fazia parte de sua rede, minha opinião sobre ela não era das melhores: fragmentação da percepção, logo da capacidade cognitiva; intensificação do narcisismo exibicionista da cultura contemporânea; império do senso comum; indistinção entre o público e o privado — eram essas as características sobressalentes, para mim, no território do Facebook. Não sei se fui eu quem mudou, se foram os acontecimentos do mundo ou se foi a própria rede, mas, hoje, sem que os traços acima tenham deixado de existir, nenhum deles, nem mesmo todos eles em conjunto me parecem decisivos, ao menos na minha experiência com a rede: compreendo-a e a utilizo agora como a televisão do século XXI, com diferenças e vantagens sobre a TV tradicional.

Essa definição me foi dada pelo filósofo Claudio Oliveira, já citado aqui na coluna passada. Eu assisto à TV tradicional, há nela muitos bons programas, mas enquanto sua programação é elaborada levando em conta diretrizes ideológicas, anunciantes e pesquisas de público, a programação do Facebook é feita pelo próprio usuário, por meio dos demais usuários (ou “amigos”) escolhidos por ele. Essa programação descentralizada possui uma interface com a televisão tradicional, pois compartilha muito do seu conteúdo. Mas aqui aparece uma surpresa: ao contrário do que se costuma dizer, e não sem razão, os usuários do Facebook realizam um processo de filtro crítico da programação televisiva.

A internet, as tecnologias wiki de interação e as redes sociais têm sim uma dimensão, para usar a expressão de Andrew Keen, de “culto do amador”, mas ela convive com o seu oposto, que é essa crítica da mídia tradicional pela nova mídia, cujos agentes muitas vezes nada têm de amadores. Assim, a metatelevisão do Facebook opera tanto selecionando conteúdo da TV tradicional como submetendo-o à crítica.

E faz circular ainda informações que a TV, por motivos diversos, suprime. Alguns acontecimentos recentes, no Brasil e no mundo, tiveram coberturas superiores nas redes sociais do que nos canais tradicionais. O dissenso é uma virtude democrática, e as redes sociais têm contribuído para isso (e para derrubar ditaduras onde não há democracia).

É claro que nem só de conteúdo crítico, político ou estético vivem as redes. Em meio a compartilhamentos de vídeos, músicas e artigos da mídia impressa mundial, outras lógicas, diversas entre si, compõem o seu espaço. A publicização da intimidade, sem nenhuma transfiguração que lhe confira o estatuto de interesse público, continua presente. É preciso lembrar, entretanto, que redes sociais não são exatamente um espaço público, mas um espaço privado ampliado ou uma espécie nova e híbrida de espaço públicoprivado. Seja como for, aqui também é o usuário que decide sobre o registro em que prevalecerá sua experiência. E não se deve exagerar no tom crítico a essa dimensão; o registro imaginário, narcisista, de promoção do eu é humano, demasiadamente humano, e até certo ponto necessário. Deve-se apenas relativizá-lo; ora, essa relativização, como mostrado acima, vigora igualmente nas redes sociais. De minha parte, sinto-me totalmente à vontade: perdi os pudores de operar no registro íntimo (às vezes publico fotos particulares, por exemplo) e também de operar no registro público (sem me sentir aquele convidado que vai a uma festa só para falar mal dela). Ambos cabem.

Há ainda a curiosa lógica do meme, que, como escreveu Zuenir Ventura, está se sobrepondo à lógica da cultura, sendo que Michel Teló foi o acontecimento revelador dessa confusão (diferente do que escreveu o jornalista Pedro Alexandre Sanches, tentando mostrar certa necessidade no seu sucesso, para mim “Ai, se eu te pego” está mais próxima da lógica, em boa parte arbitrária, do meme “Luiza no Canadá” do que da eficácia popular de suas características formais).

Quanto à fragmentação da percepção, isso me parece irrefutável, como defende o escritor Nicholas Carr, no caderno Prosa & Verso, aqui de O GLOBO, no último sábado. Já estive preocupado com isso, mas parei de estar, não sei se porque estou há dois meses sem emprego e estudando todos os dias, ou se, ao contrário, porque estou cada vez mais aceitando minha desistência ao Pensamento, com p maiúsculo, uma atividade que exige duração, continuidade, erudição e ampla escala. É possível criar modos de pensamento inventivos sob outros parâmetros. Seja como for, não vejo nenhum sinal de precariedade de invenção artística ou teórica no mundo. Há, claro, propostas fracas, muitas, mas há muitas propostas fortes também. Entretanto, confesso achar prova de imbecilidade a declaração do professor Clay Shirky, que, na mesma edição do Prosa & Verso, repisa a já batida frase “Ninguém lê ‘Guerra e paz’”. E, depois de Tolstói, ataca Proust, pela mesma razão: “Longo demais e não é tão interessante.” Perdoai-o, leitores, ele não sabe o que diz: só quem não os leu pode dizer que ninguém os lê. Admito que a fragmentação da percepção pode impedir as pessoas de ler, por falta de concentração perceptiva, alguns dos tesouros espirituais da Humanidade. Mas talvez não seja assim; o cinema e a TV relativizaram, mas não acabaram com a cultura letrada. Se isso acontecer, para mim seria triste, mas a vida do espírito pode conhecer outras aventuras.

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