A última brigadista

Foto: Sofia Moro
Por Jesús Rodríguez, do El País
NO ESTADÃO

Ao juntar-se à frente internacional que combateu Francisco Franco, a francesa Lise London, hoje com 95 anos, estava grávida de 3 meses

Quando o compacto grupo de idosos franceses com sotaque espanhol e idosos espanhóis com sotaque francês passou a cantar efusivamente o hino de batalha da nossa Guerra Civil, as pessoas procuraram conter as lágrimas. São as testemunhas de uma história que termina. Uma façanha de ideais e luta pela liberdade que, quando seus últimos protagonistas desaparecerem, ficará enterrada nos livros de história.

Hoje estão aqui. Talvez pela última vez. Têm os cabelos brancos e as mãos rugosas como uma videira. Sobre suas cabeças balançam bandeiras tricolores. Uma centena de veteranos da guerra se reuniu em novembro num local sem turistas de Paris para homenagear os milhares de camaradas que chegaram a esse lugar há 75 anos, vindos de 54 países, para se alistar nas Brigadas Internacionais e lutar durante mais de dois anos contra Francisco Franco nas frentes de Madri, Jarama, Guadalajara, Brunete, Teruel e Ebro. Foram mais de 35 mil. Quase um terço repousa na Espanha em tumbas sem nome. Muitos morreram em campos de concentração franceses e alemães. Os que sobreviveram formaram uma estreita comunidade de sangue que ninguém conseguiu romper.

No inverno passado morreu o último brigadista italiano. Há um sobrevivente no México, dois na Argentina, três na Grã-Bretanha, cinco nos EUA, um na Rússia, dois na Áustria, um estoniano, um israelense e cinco franceses. Estes últimos – César Covo, Théo Francos, os irmãos Vincent e Joseph Almudever e Lise London – poderiam estar em Paris no ato de homenagem. Principalmente Lise, a lendária companheira de Artur London, a última brigadista.

Tem 95 anos. Seu nome era Elisa Ricol, filha de pais espanhóis nascida num vilarejo na França. A família Ricol era o protótipo do proletariado do início do século 20: pessoas pobres, analfabetas, que migraram do campo para a cidade. O velho Ricol era um mineiro que tinha silicose e militava nos sindicatos comunistas. Lise nasceu em 1916. Menina, vendia sorvete nas ruas. Aos 15 anos ingressou na Juventude Comunista. Tinha belos olhos negros, rosto de camafeu, uma elegância socialista em branco e preto que lembrava a de Dolores Ibárruri. Adepta do debate, ela se converteria desde jovem numa profissional da revolução. “Sou aragonesa”, ela ainda reafirma com orgulho. O partido, a luta, estavam em primeiro lugar.

Em 1934, com apenas 18 anos, foi a Moscou convidada pela Internacional para se converter em dirigente comunista. É o que relata Roberto Lample, de 62 anos, francês, de pai anarquista espanhol, a alma do Acer (Associação dos Antigos Combatentes da Espanha Republicana) e companheiro de luta de Lise. “Moscou foi sua escola política. Ela queria escapar de seu destino de mulher proletária. E percebeu que se estudasse, viajasse, sua vida poderia mudar. Lise estava convencida de que não se deve esperar que os outros solucionem seus problemas, é preciso atuar. E isso está em plena vigência no movimento dos indignados.”

Conheceu Stalin, Tito, La Passionaria e Ho Chi Minh. Em Moscou se apaixonou por Artur London, jovem comunista de 19 anos, alto, belo e tuberculoso: um intelectual checo de origem judia que contrabalançava o ímpeto despojado de Lise com seu caráter reflexivo. Lise abandonou o primeiro marido (o comunista Auguste Delaune, que seria executado nos anos 40 pelos nazistas) e uniu seu destino ao de London. Tiveram três filhos e compartilharam 50 anos de luta, desde a União Soviética à Guerra Civil. Uma vida intensa que Costa-Gavras levou para o cinema nos anos 70, com Yves Montand e Simone Signoret, cujo roteiro foi assinado por Jorge Semprún, companheiro de Artur London em Mauthausen.

Barracões, fornos, pijamas listrados. Lise hoje está numa clínica construída depois da 2ª Guerra para acolher os sobreviventes dos campos de concentração, em Fleury-Merogis, a uma hora de Paris. Michel London, seu caçula, um matemático de 62 anos, se oferece para nos levar até ela, advertindo que a mãe está muito debilitada. Ao volante do seu Fiat 500 ele recorda passagens da vida da família, desde os avós maternos espanhóis, os Ricols, que se encarregaram dos filhos do casal London durante sua deportação para os campos nazistas e acolheram em sua casa exilados republicanos, até a família do seu pai, que perdeu 28 membros num campo de concentração.

Michel fala sem ódio: “Minha mãe mal mencionava os campos nazistas. Em 2005 fomos a Mauthausen, onde ficaram detidos meu pai, meu tio e meu cunhado, e também 8 mil republicanos espanhóis e centenas de brigadistas. Estávamos seus três filhos e seus netos. Ela se emocionou, mas com serenidade. Mostrou os barracões, os fornos, os pijamas listrados. Sempre foi muito forte”.

Depois de se alistar nas Brigadas Internacionais nos improvisados escritórios da Rua Mathurin-Moreau, os voluntários iam para a estação de Austerlitz, onde pegavam um trem com destino a Perpignan e dali para a Espanha. Lise London, no dia 28 de outubro, tomou o último trem que atravessou a fronteira. O chefe das brigadas, o herói da revolução bolchevique André Marty, convidou-a para ser sua tradutora. Ela não vacilou. “Havia algo mais emocionante?” Viajavam nesse trem 2.500 homens e algumas mulheres. Depois deles, a fronteira seria fechada pelos franceses para evitar a chegada à Espanha de mais voluntários estrangeiros. Os que quisessem chegar ao front deveriam cruzar ilegalmente os Pirineus com a ajuda de guerrilheiros, como faria Artur.

Depois de alguns dias de viagem, Lise chegou por Barcelona a Albacete, cidade que a república instituiu como quartel-general das brigadas. Estava grávida de três meses. Artur trabalhava para a Internacional e tentou sair da União Soviética para se reunir com ela na Espanha e combater Franco.

Em outubro de 1936, Albacete era um povoado da região da Mancha parado no tempo. Para se tornar o centro de operações das brigadas é porque se tratava de um enclave politicamente seguro, distante do front e no meio do caminho entre Madri e Valência. Os brigadistas foram divididos por línguas e enviados ao acampamento de instrução de Pozo Rubio, a meia hora da capital, num bosque expropriado de um proprietário onde se construíram toscos barracões de madeira.

Duas semanas depois de chegar, a primeira brigada de voluntários internacionais, a XI, foi enviada com urgência a Madri. Era formada por 2 mil eslavos, balcânicos, escandinavos, poloneses, húngaros, checoslovacos, alemães e austríacos. Não tinham quase formação militar, armas nem uniformes. Seu único emblema eram as boinas. Em seguida seguiria a Brigada XII, integrada por alemães, italianos e belgas de língua francesa. As tropas marroquinas de Franco já tinham chegado à Cidade Universitária. Estavam a um tiro de canhão da Puerta del Sol.

Na noite de 6 de novembro, o governo da república tinha fugido para Valência e criado uma Junta de Defesa fantasma formada por militantes das esquerdas jovens e desconhecidos, sob as ordens do general Miaja e do coronel Rojo. Santiago Carrillo, um comunista de 21 anos, era responsável pela ordem pública. “Madri era o centro de gravidade da luta. Se resistíssemos poderíamos ganhar a guerra; se perdêssemos, a resistência afundaria. Quando tudo parecia perdido, em 8 de novembro, chegaram os brigadistas. Eram cerca de mil, mas para o povo de Madri pareciam milhões. Desfilavam pela cidade cantando a Internacional em todos os idiomas, com o punho para o alto; e com esse gesto elevaram o moral dos madrilenhos.

Não estávamos sós. Nesse dia foi adotado o lema No pasarán! Os brigadistas tiveram um papel mais romântico e político do que militar, porque a guerra fomos nós, espanhóis, que a fizemos. De qualquer maneira, em 1936 Franco não entrou em Madri”, lembra Carrillo.

Os brigadistas se converteram em forças de choque admiradas pelos republicanos. Combateriam em todas as frentes até sua retirada em fins de 1938. Depois de sua permanência no front de Madri, Lise, grávida de cinco meses, perderia o filho. Em 1937 ela se reencontraria em Valência com Artur, que, afetado pela tuberculose, iria se encarregar de missões de inteligência e propaganda nas Brigadas. Naquele terrível inverno no fim de 37, sob os bombardeios alemães, com quase nada para comer, o casal teria, em Albacete, sua filha Françoise.

A guerra estava perdida. Em outubro de 1938, os brigadistas cruzavam a fronteira e eram confinados em campos de concentração franceses. No final do verão de 38, Lise, já no fim da segunda gravidez, tinha sido retirada. E logo foi seguida por Artur, em março de 1939, com as tropas de Franco no seu encalço. Depois da derrota teve início um novo episódio da tragédia dos brigadistas: não podiam regressar à Alemanha, Áustria, Checoslováquia nem Itália, governadas por Hitler e Mussolini. Tampouco ir para a Romênia, Bulgária, Iugoslávia, Hungria ou as repúblicas bálticas. Seriam alvo de represálias no Brasil, Argentina, Suíça, Canadá e Bélgica, por terem combatido num exército estrangeiro.

Ficaram sob suspeita na França, na Irlanda e na Grã-Bretanha. E se converteram num mito incômodo, heróis de uma revolução perdida, membros de um clube de malditos sem fronteiras. Passaram para a clandestinidade e serviram na resistência contra os nazistas em toda a Europa. Depois da 2ª Guerra ainda foram expurgados na União Soviética e seus satélites, acusados de espionagem e cosmopolitismo (como ocorreu com Artur London, preso e torturado entre 1951 e 1956) e vítimas da caça às bruxas nos Estados Unidos por “atividades antiamericanas”.

A clandestinidade e a luta armada foram o destino do casal London e de muitos outros republicanos e veteranos das brigadas depois da ocupação da França por Hitler em junho de 1940. Em 1º de agosto de 1942, Lise recebeu ordens de provocar uma revolta popular contra os nazistas em uma das lojas da Rua Daguerre, em Paris. Na noite anterior, Artur e ela não dormiram. Fizeram amor até o amanhecer. “Pressentíamos que não iríamos nos ver por muito tempo, talvez nunca mais.”

A ação subversiva de Lise foi um sucesso: convocou o povo de Paris à luta armada. Houve um tiroteio e vários policiais foram mortos. Onze dias depois, Lise e Artur foram detidos. Lise era bem conhecida da Gestapo, contudo a polícia não conseguiu saber quem era Artur. Seu nome não constava dos arquivos, não sabiam se era um agente comunista ou um ex-brigadista. Era um clandestino perfeito e foi condenado a dez anos de trabalhos forçados. Acusada de assassinato, associação de malfeitores e atividades comunistas, o destino de Lise era a guilhotina.

Mas algo escapara dos nazistas: ela estava de novo grávida. Do dia em que foi concebido, na noite anterior ao seu ato terrorista na Rua Daguerre, seu filho estava destinado a salvar a vida dela. Foi condenada à prisão perpétua. Lise resumiu o fato assim: “Por acaso não é um milagre? Em troca de lhe dar a vida, meu filho salvou a minha”. Artur e Lise seriam deportados para Mauthausen e Buchewald e lá ficariam até o final da 2a. Guerra, em maio de 1945. Haviam participado da Operação Noite e Névoa, iniciada pelos nazistas para fazer desaparecer os tipos indesejáveis. Nem mesmo a máquina nazista os venceu.

No começo deste mês Lise voltou a seu lar. Um apartamento de classe média com aspecto soviético, repleto de livros, onde, na entrada, uma placa com a Legião de Honra lembra que ali viveu Artur London, “que esteve em todos os combates pela liberdade e os direitos humanos”. Ele morreu em 1986. Quando pergunto se toda aquela luta valeu a pena, ela se ergue, coloca a mão no coração, olha nos meus olhos e afloram suas raízes aragonesas: “Mas é claro! Combatemos pela liberdade! Valeu a pena!”

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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