A última dama do cabaré

Boate Arpege, na Ribeira. Prédio tombado pelo IPHAN está fechado e em escombros

Foto: Rodrigo Sena

Foi num cabaré na Lapa / Que eu conheci você / Fumando cigarro, /
Entornando champanhe no seu soirée. / Dançamos um samba, / Trocamos um
tango por uma palestra / Só saímos de lá meia hora / Depois de descer a
orquestra… Dama do Cabaré /Noel Rosa

O epicentro do amor em Natal é movente. Durante muito tempo esse epicentro
esteve na Ribeira onde hoje ainda resta o arpége em ruínas.  Houve um
tempo que um desses templos ficava ali na quinze. Lugar de muitos bares,
sinucas e casas de mulheres da vida fácil. Em tempos não muito afastados
tinha o feijão verde para curar a ressaca. Confluência de várias ruas e
bairros a quinze era o point da época. Ainda rapaz saia da Escola Técnica
para os bares da região. Nesse lugar hoje habitam sebos, barbearias,
brechós, ateliês de arte e alguns bares que lembram os velhos tempos.
Gosto desses lugares e faço deles minha Lapa ou Montparnasse. É assim que
me sentia também na velha Tavares de Lira. Um boêmio no meio de buchudas,
gatos, pedintes, loucos boêmios e artistas. Prefiro esses lugares aos
shoppings. Na quinze ainda tem um bar que frequento. Não sei jogar sinuca,
mas aprecio e jogo, dependendo da ocasião. Como foi nessa tarde jogando
com a nova musa do bar. Errei de tocar duas bolas e perdi a partida.
Nesse bar também você pode cantar karaokê. Muitos jovens aparecem para
mostrar seus talentos. Eu gosto mesmo é de ficar observando. Ultimamente a
frequência do bar aumentou por causa de uma Lolita que pareceu por lá.
Linda. Tenta o vestibular. Trabalha lá para se manter. Como mora longe
muitas vezes dorme no próprio bar.

Não sei e vocês também não precisam saber não vou dizer a graça de
ninguém. O dono, um senhor, muitas vezes aparece sem camisas. O ambiente é
quente e precisa ser ventilado por fazedores de vento. Mas não é da Lolita
que pretendo falar. E não se anime. A menina é funcionária tentando levar
a vida. Peço para colocar o disco do Cae com Gadú. Estava tocando Roberto
Carlos. Meu amigo pergunta se tem cigarro. Só Derby em retalhos. Um pintor
passa pedindo cinco reais para fritar um peixe. Na galeria ao lado tem um
quadro com todo mundo de Natal.

Um rapaz jovem e bonito tá bêbedo. Canta alto e fica difícil conversar. Eu
convidei uns amigos e eles me querem me levar ao PROCOM. A lolita ainda
não apareceu. Quem aparece no meu caminho é uma mulher que bebe muito.
Beija-me a mão quando passa. Fala alto. Diz palavrões. Quando vou ao
banheiro ela está esparramada no chão NUMA CENA não tão boa para muitos
mocinhos. Boêmio, conheço bem onde pouso.

O rapaz moço que cantava alto acorda e sai com o seu amigo travesti. A
mulher diz outro palavrão e toma mais uma. A nossa mesa, ela diz que é
federal. O ônibus passa e os Paulos e Martas da vida pequena comentam:
que decadência! Todos saem, é tarde do dia e a noite ainda vai começar
prometendo mais emoções. A mulher fala um palavrão maior para todos os
hipócritas. Ela que amou tanto hoje está sozinha e bebe. A luz dos
cabarés para muitos ainda não fechou. Toca ai Dolores Sierra, peço para a
nova mascote do bar. A minha amiga toma mais uma e tenta se equilibrar no
tamborete. Ela é a ultima dona da noite de uma Natal que ainda não se
vendeu. Ela é a minha inspiração nessa tarde de uma Natal que ainda vive
em mim. Não importa que ao sair o pneu estava furado . Não importa o que
você diga. Não importa os malas. O que importa é que bebi na quinze junto
com a minha querida amiga boemia de tantas e tantas trepadas dos outros.
Ao me despedir peço para tocar aquela música cantada pelo Reginaldo
Rossi.

Garçom! Aqui!
Nessa mesa de bar
Você já cansou de escutar
Centenas de casos de amor…
Garçom!
No bar todo mundo é igual
Meu caso é mais um, é banal
Mas preste atenção por favor…
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração…
E pra matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!…
Garçom! Eu sei!
Eu estou enchendo o saco
Mas todo bebum fica chato
Valente, e tem toda a razão…
Garçom! Mas eu!
Eu só quero chorar
Eu vou minha conta pagar
Por isso eu lhe peço atenção…
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração…
E prá matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!…
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta prá me avisar
Deixou em pedaços meu coração…
E pra matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 5 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 14 de Janeiro de 2012 17:33

    Amigos
    Onde tem Procom leia-se Procon
    e cogarro é cigarro.
    desculpe o erro de digitação

  2. Danclads Andrade
    Danclads Andrade 16 de Janeiro de 2012 0:15

    A boemia da Lapa, do Montparnasse, do Moulin Rouge, da Arpege e tantos outros, guardam as histórias privadas e íntimas de seus personagens. Histórias de alcova, dramas pessoais, affaires escondidos dos olhares da sociedade (muitas vezes homens ditos impolutos são freqüentadores destes lugares suspeitíssimos). Ah! Se os lençóis falassem… Quem escaparia.

    E me recordo de Augusto dos Anjos que no poema “O lupanar”, assim disse:

    “Este lugar, moços do mundo, vede:
    É o grande bebedouro coletivo,
    Onde os bandalhos, como um gado vivo,
    Todas as noites, vêm matar a sede!”

    Valeu Da Mata!!!

  3. Cláudia Magalhães 16 de Janeiro de 2012 3:02

    O poeta Jorge de Lima disse em seu “Invenção de Orfeu”: “Se vós não tendes sal-gema/ Não entreis nesse poema”. Faço uso, agora, desse trecho que meu querido Nei Leandro escreveu no prefácio que fez para meu segundo livro “Esquina do Mundo”, pois ele também “cai como uma luva” nessa tua crônica, onde a vida ferve, provoca, instiga… Nessas tantas esquinas onde tudo e todo sentimento se mistura. Onde as Damas da Noite de Caio Fernando de Abreu e de tantos outros interrogam cada um de nós! Amo!!! Adorei, Damata! Beijos.

  4. João da Mata
    João da Mata 16 de Janeiro de 2012 10:13

    Eita Claudinha e Dan, bons meninos:
    substantivos.
    Engana-se quem pensa que pode fazer poesia e ciências sociais sem frequentar esses lugares.
    Meus laboratórios e fonte de inspiração. “Sindicato de sócios da mesma dor”. Claudinha, amo o Caio e parabenizo pelo seu novo trabalho. Caio foi muito importante numa época do Brasil. Continua atual e motivo da minha admiração. Leio com prazer suas cartas, crônicas, poemas, etc. Para além disse você na companhia de Invenção de Orfeu é demais. Esse é um dos maiores livros da literatura e poesia brasileira. Tenho várias edições, inclusive a princeps. Boa semana para todos

  5. Cláudia Magalhães 19 de Janeiro de 2012 14:24

    Grata, meu querido Damata, pelas boas vibrações. Estou muito feliz com esse novo trabalho e espero compartilhar em breve essa minha “Dama da Noite” com vc e com os bons e queridos amigos! Beijão, querido!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP