A via Sacra de Leopoldo Nelson

Leopoldo Nelson é um artista singular nas artes plásticas do Rio Grande do Norte. Homem de ciência formou-se em medicina em 1968. Sua pintura dilacerante é um grito de horror da trágica condição humana. Ele, um Fausto que amou sua Margarida. Amor dessa e outras vidas.

A via sacra é sua obra prima. O Cristo está nu. Esse conjunto de telas únicas na nossa pintura está em estado de degradação quase terminal e pede uma ação enérgica e rápida para tentar a sua salvação das inclemências do tempo e da estupidez humana. Esteve um tempo esquecida no subsolo da Nova Catedral e encontra-se atualmente na pinacoteca do estado do RN. É preciso uma ação governamental urgente para tentar salvar essa obra prima das nossas artes plásticas.

As mulheres de Leopoldo também são únicas. São mulheres grávidas, tristes, famintas e em romarias. Olhos expressivos denunciam desespero. As mãos são levadas à boca. A boca está gritando. “quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens dos anjos? Perguntam esses seres desesperados de Rilke na epígrafe de Leopoldo Nelson.

Leopoldo Nelson foi um homem insaciável na sua busca de conhecimento. Pintor, poeta e médico. Fez seu mestrado em Fisiologia em Curitiba, e Doutorado em Neurologia em Barcelona – Espanha. Na Catalunha apaixonou-se por sua cultura e Quixotes. Sua arte depois disso ficará impregnada dessas figuras goyescas e trágicas. Sofrida como o cristo. Pedindo socorro de sua via crucis. O jovem Leopoldo encontra a sua arte nos seus pares Rembrandt, Zurbaram, El Greco, Dali, Brueghel e outros artistas. Os Quixotes com quem ele se depara na Espanha estão em toda parte. …. “porque, ainda existe em cada Espanhol, um Dom Quixote vivo. Talvez, estes D. Quixote não sejam mais do que os sonhos impossíveis, sonhados por todos os Sanchos Pança, nas suas buscas particulares de estrelas mais distantes”, diz Leopoldo em fragmentos biográficos de 1981. Continua Leopoldo … “o povo Espanhol que, simbolicamente, transfere para o touro o desconhecido da sua alma. “ . Leopoldo transferiu para as suas telas todo o seu sofrimento. O sofrimento de todos nós. Um Brinde para você meu amigo e poeta das madrugadas de luas escorridas e mortas.

Da boca também pode sair flores. As mulheres são do mundo. Podem ter um pescoço a la Modigliani. Ou pode ser uma nordestina faminta. O grito está sempre no ar. Jovens e Velhas. Mulheres de Munch. Rostos algumas vezes redondos, angulosos e ovalóides. Do negrume de seu pincel a carne dilacerada de sua arte. Nos rastros de traço um destino próximo anuncia. É preciso um pacto. E preciso se embriagar das sombras das madrugadas. Uma constelação de rostos humanos iluminam a sua arte. O vermelho-sangue esparrama em algumas de suas telas. Sofreu muitas influencias, mas sua pintura traz a marca do expressionismo, abstracionismo e desconstrucionismo.

O poeta autor do “Canto para o Terceiro Mundo” é apaixonado por Garcia Lorca, Rilke e Dali que ele encontra moribundo e o pinta com seu bigode eloqüente. Salve meu amigo e irmão dos livros. Poeta do traço e homem da ciência. “A história decide o fim da nossa regressão”, mas a posteridade tem a obrigação de salvar o testemunho desse poeta atormentado. Uma das obras de arte mais importante da nossa cultura não pode morrer como o cristo na cruz. Salve a sua via crucis. Salve a nossa via sacra e histórica. O cristo está nu. Estamos todos nus. E gritamos qual Munch: SALVE A NOSSA ARTE E CULTURA

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