A viagem de um piano de família pelo sertão

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Orgulho-me da crônica de minha família. Os antigos mandaram buscar um piano na Europa e o transportaram num carro de bois do porto do Recife até o sertão dos Inhamuns, no Ceará. Alguns ainda lembram que a viagem durou um ano, devido à marcha lenta dos animais e os cuidados para o instrumento de luxo não desafinar. Na travessia de um riacho o carro atolou na lama e as marcas das rodas ficaram até hoje. Mentira? Talvez, não importa. Interessa que o riozinho foi batizado por Riacho do Carro e nunca mais houve cheia tão grande no sertão cearense.

A história me impressionou tanto, que a menciono em quase tudo que escrevo. Lembra a aventura de Fitzcarrald, contada no filme do alemão Werner Herzog. Fitzcarrald é um louco sonhador, que atravessa a Floresta Amazônica arrastando um barco ajudado por centenas de índios, levando-o até um rio, onde mais tarde subirá e descerá ouvindo o cantor lírico italiano Enrico Caruso, tocado num gramofone. A história dos meus ancestrais seria mais insólita se junto com o instrumento viajasse uma pianista, executando noturnos de Chopin.

Menos extravagante era o costume italiano de desfilarem os quadros dos pintores famosos pelas ruas das cidades, das casas dos artistas até as igrejas ou palácios dos poderosos que haviam encomendado a obra. Não acredito que existam pintores brasileiros tão famosos que atraiam as pessoas às ruas. Mas seguro mesmo, para garantir público, é botar um jogador de futebol encima de um carro de bombeiro ou Ivete Sangalo trepada num trio elétrico.

Por falar em alturas, lembro dos meus apertos, agora que moro no décimo primeiro andar de um edifício. O primeiro deles foi a chegada de um sofá, que me garantiram ser desmontável e não era. Teve de subir içado. Nada parecido com os carregadores de piano do Recife de antigamente, que até entoavam cantos de trabalho, registrados por Mário de Andrade, na sua viagem famosa.

Na minha triste experiência, chegou um caminhão de mudança com o inflexível sofá e quinze brutamontes para içá-lo por meio de cordas. Não curti, não relaxei, não achei graça. Temi que a carga despencasse ou que as sacadas de vidro do apartamento se partissem. Definitivamente, não nasci com a coragem aventureira dos meus avós, pois um transtornozinho me tira do sério. Por mim, todos eles continuariam tocando viola e rabeca até hoje. Piano trabalhoso, jamais.

Mais dramática foi a chegada de um tríptico do pintor recifense José Barbosa. Tiveram a péssima ideia de unir as três partes do quadro numa única moldura. O quadro não subia de elevador, nem pelas escadas. Seria necessário contratar novamente os brutamontes e içá-lo? Ninguém estava nem aí para a beleza da obra, como os populares da Idade Média e Renascimento. Ninguém interessado em deleitar-se, contemplando-a. Todos enxergavam apenas as dificuldades de subir do térreo para o décimo primeiro andar.

Quase enfarto. Depois de três horas, vários arranhões na tela e na moldura e os mais complexos contorcionismos, chegamos à parede, onde o quadro ficará até que a morte nos separe. Agora, quem desejar vê-lo, terá de subir de elevador e tomar um café comigo. Já que resolvi não morar mais em casas e alçar-me ao alto, daqui só para o céu. Mas, que não seja agora. Ainda preciso enxugar o suor da testa por tanto esforço.

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