A viagem para dentro

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

É como se, diante do conto de Oe, eu lançasse uma corda e descesse por um poço escuro

Como entrar em um livro? Por quais gargantas descer até lhe tocar o fundo? Tenho perseguido, cada vez mais, uma leitura íntima. Uma leitura que, em vez de deslizar pelo brilho das páginas, realize uma descida vertical, rumo ao centro obscuro das ficções. Uma viagem vertical ao coração da literatura — e aqui tomo de empréstimo a expressão de Enrique Villa-Matas, em seu fabuloso romance “A viagem vertical”, de 1999. Viagem que seu protagonista, Frederico Mayol, define como uma descida “em direção à incerteza”.

É o que tento, outra vez, na leitura dos 14 contos do japonês Kenzaburo Oe (Companhia das Letras, seleção e tradução de Leiko Gotoda, introdução de Arthur Dapieve). Perfilo-me diante do livro como se me detivesse à entrada de um grande palácio, decorado com catorze portas. Avanço na leitura e essas entradas, como veias, se multiplicam. Preciso escolher uma porta: rumo, então, em direção a “Os pássaros”, o relato que se guarda na página 96.

Por que o escolho? Entre os belos contos de Kenzaburo Oe, nenhum fala mais diretamente da própria literatura que “Os pássaros”. É a história de um rapaz de 20 anos que conversa com aves inexistentes. Vive trancado em seu quarto, um cômodo cheio de pássaros, que batem as asas freneticamente sobre seu corpo, “fazendo-as farfalhar como folhas numa floresta”. Vive, ele também, sua viagem vertical em direção ao centro da existência. Perfura sua vida — assim como tento perfurar o relato de Oe — na esperança de que a desestabilização e o desassossego lhe sirvam de caminho.

O rapaz sabe que está sozinho. “Esses sujeitos, do lado de fora, não têm olhos para vê-los, nem ouvidos capazes de detectar o ruflar de suas asas e jamais conseguirão apanhá-los”. A cegueira das figuras que circulam pelo mundo exterior não só protege os pássaros de ataques cruéis, mas o próprio rapaz, que se conserva seu vôo interior. Um voo que se assemelha a uma queda. Em que? Em si.

É como se, diante do conto de Oe, eu lançasse uma corda e descesse por um poço escuro. Preciso sustentar minha descida. O rapaz se recusa a sair de seu quarto. Ele controla os pássaros (ficção), mas não a realidade externa (pacto, convenções, arbítrio). Não se importa: a realidade não possui nem a gentileza, nem a delicadeza das aves. Elas, sim, como uma manta invisível, o agasalham.

Um dia, chega um visitante. A mãe o apresenta: “Essa pessoa quer falar com você a respeito dos pássaros”. Ele se anuncia (áspera ficção) como um especialista em pássaros. Na verdade, é um psicólogo.

Com uma conversa amorosa, usando palavras doces e traiçoeiras, convence o rapaz de seu real interesse pelas aves que o cercam.

Os pássaros lhe surgiram depois que abandonou a faculdade. “Porque me dei conta de que, excetuando os pássaros, todos eram estranhos para mim”. Às vezes, levita em meios às aves, enquanto elas batem suas asas com fúria. “Amparado nessa profusão de asas, meu corpo chega a flutuar”, diz. Escapa, então, da realidade conhecida. Do pacto surrado a que chamamos de realidade. Nesse momento de elevação, desgruda-se do chão para colarse a si. A ficção é sua cola. Acaricia de leve, então, a face neutra do real, que é inacessível e impenetrável.

O rapaz chega a admitir que “há algo sexual” em sua relação com as aves. O psicólogo, então, convence-o a acompanhá-lo. Comovido por encontrar um amigo, o rapaz cede. Os pássaros ainda se manifestam dentro do carro, o que convence o rapaz, em definitivo, de sua existência. “Eles são realmente parte de mim”, pensa. Pensa mais: que estranhas são as pessoas que não possuem pássaros (ficções)!

O instituto é, na verdade, um asilo psiquiátrico. O homem se transfigura: submete-o a um tratamento à base de brutalidade e violência. Despe-o — e ele se agarra, como um pássaro despenado, à rala penugem que tem entre as pernas. A ideia do psicólogo é “tirar” (matar) os pássaros que cercam (enlouquecem?) o rapaz. Tirar a única coisa bela que ele tem. Há uma metamorfose: o homem se torna arrogante e prepotente — a ficção, para ele, é inadmissível. Quando dá por si, o rapaz já é um interno. Perdeu-se de si.

“Me dá raiva ver loucos não convictos como você”, o psicólogo reclama. Dois pássaros, muito tênues, ainda surgem em torno do rapaz mas ele, irritado e decepcionado, logo os espanta. Conclui que conversar com pássaros é “apenas um truquezinho para enganar crianças”. Perdeu-se de si e de seu sonho. Sem os pássaros, nada tem. Pior: sem sua fantasia, nada é. Torna-se um trapo — sombra, inerte, do que foi. Diante de um derradeiro esboço de reação, leva um chute feroz do psicólogo (último ataque contra o sonho) e bate a cabeça (casa da fantasia) contra o vidro de uma janela. A parede dura da realidade bloqueia seu caminho. Nela se gruda, como uma mosca que dorme no teto.

A narrativa dá um salto — uma elipse substitui o tempo em que esteve desacordado. Já está de volta ao seu quarto, com dores lancinantes, a cabeça envolta em bandagens. A mãe e os irmãos, arrependidos, o levaram para casa. Com carinho, a mulher lhe serve uma sopa quente, que sorve com dificuldades. A mãe afirma, de repente, que já pode ver os pássaros que antes negava. “Creio nisso agora”, exclama. O rapaz, porém, já não pode vê-los. Cegou-se. É a mãe, enfim, quem se apega à fantasia (ficção) para suportar a realidade brutal. Que tenta se sustentar no mundo com o apoio da ficção. O rapaz ainda pensa: “Na certa terei de levar uma vida insuportável de agora em diante. Além de tudo, com uma mulher louca seguindo- me por toda a parte”.

A viagem do rapaz rumo ao vazio se parece com um livro rasgado. Tudo o que tinha, tão pouco, lhe foi roubado. Pior: aprendeu a odiar o que tinha de melhor. Horror da ficção: para os que a negam, ela se torna insuportável. Mas encará-la, como faz o rapaz dos pássaros, é avançar em um túnel profundo, onde só passa uma pessoa de cada vez. Ninguém sonha acompanhado: o sonho é o último reduto do Um. Ao abandoná-lo, o rapaz se desfigura. Seu corpo, derramado no chão duro do quarto, evoca um punhado de sementes mortas, que pássaro algum sorverá.

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