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Vidas negras deveriam importar. A vida das mulheres negras deveria importar

É estranho pensar no corpo como uma propriedade, como algo que se possui, do qual temos direito, domínio, posse. Somos realmente proprietários de nossos corpos? Mas, de qual corpo falamos?

De uma maneira mais ampla, o corpo negro, por herança nefasta da escravização dos povos africanos e seu espalhamento pelo mundo na diáspora, por mais de quatro séculos, ditou o lugar desse corpo nas sociedades nas quais foi inserido como mão de obra escrava.

A representação construída sobre a pele preta, de modo leviano e irreal, durante todo o período da escravidão, girou em torno da inferioridade, da incompetência e da marginalidade. O que nos faz assistir a imagens na televisão e fora dela de corpos sendo maltratados, machucados, ignorados enquanto cidadãos, mortos pela ação ou omissão do estado e da sociedade.

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E, por falar em corpos, talvez devêssemos perguntar às mulheres, em especial às mulheres negras, acerca das diversas opressões sofridas sobre seus corpos, acumulando estatísticas fortes e deixando bem pautado que há corpos que importam, outros, não, a depender da cor de sua pele.

A mulher negra sofre com o peso do machismo e do racismo sobre o seu corpo. São elas as maiores vítimas de violências, como a obstétrica, uma vez que há uma crença infundada de que as negras suportam mais a dor, abusos sexuais, feminicídios, exploração da força de trabalho, menores salários…

Preciso falar mais? Com certeza, nós ainda temos muito a refletir sobre a condição do corpo feminino, principalmente do corpo feminino negro, cujas veias abertas pelo machismo sangram aos milhares na mão de homens que se sentem donos dos corpos delas.

Sim, precisamos falar dos oceanos de lágrimas derramadas pelas mães negras de corpos negros vítimas de balas achadas. Sim, precisamos falar das milhares de mulheres negras chefes de família, assalariadas ou subempregadas. Sim, precisamos falar em feminismo, mulherismo, empoderamento, interseccionalidades, em tantas outras pautas necessárias a uma condição digna de existência das mulheres.

Essas são algumas das condições impostas às mulheres negras brasileiras. Seus corpos carregados de cicatrizes do passado que reverberam no presente e que podem ser comprovadas nas estatísticas oficiais, nas organizações de defesa ou apenas no clicar de um controle remoto ao ligar a televisão, folhear o jornal ou acessar a internet.

Vidas negras deveriam importar. A vida das mulheres negras deveria importar. Será mesmo que todas as vidas importam? Afinal, sabemos quais são os corpos que tombam. Pense nisso!


FOTO: Crédito Marcello Casal Jr

Pedagoga e professora do IFRN, campus Apodi. Mestra em ensino pela UERN e doutoranda em educação pela UFPB. Autora do livro "Entre Saberes e Fazeres Docentes: o ensino das relações étnico-raciais no cotidiano escolar". Tem contos e poesias publicados em antologias. [ Ver todos os artigos ]

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