A vida de uma viúva

Por Micheal Kepp

FSP

No desespero, fazemos suposições sobre o empobrecimento da nossa vida sem o nosso parceiro

COMO MINHA mulher e eu já passamos dos 60, tenho pensado que eu preferiria morrer antes dela, para evitar a dor de perdê-la.

Mas, quanto mais analiso esse pensamento mórbido, mais egocêntrico ele parece.

Afinal, minha preocupação é com poupar a mim mesmo da dor. Fosse eu menos egocêntrico ou mais masoquista, preferiria que minha mulher morresse antes.

Assim eu sofreria com a perda dela, poupando-a da dor de me perder. Mas nenhuma das hipóteses me consola.

Como nos preparamos para uma perda incalculável? Como saber o tamanho do vazio que ficará em nós ou em nossos amados? Como medir a tristeza?

Nos casais idosos, a morte de um deles pode esvaziar o mundo do outro de tal maneira que o outro morre pouco depois.

A passagem do tempo pode, porém, nos presentear com pessoas ou projetos que preencham esse vazio.

Mas, no desespero, fazemos suposições falsas sobre o empobrecimento de nossa vida sem o(a) nosso(a) parceiro(a).

Veja o caso da escritora Joyce Carol Oates. Num ensaio de 2010, ela descreveu um acidente de carro em 2008 do qual ela e seu marido, Ray, casados havia 45 anos, saíram levemente machucados, mas que poderia ter sido fatal.

“Me dei conta de que se Ray tivesse morrido eu teria ficado totalmente só -que seria muito melhor para mim morrer com ele que sobreviver sozinha”, ela escreveu.

Um ano depois, Ray contraiu pneumonia e morreu de uma infecção secundária.

Em sua autobiografia, “A Widow’s Story”, lançada neste ano, Oates escreveu: “Ray foi o primeiro homem em minha vida, o último homem, o único homem” -e contemplou o suicídio.

Porém, 13 meses após a morte de Ray, ela, então com 70 anos, se apaixonou e se casou de novo.

Talvez essa escritora menos que honesta tenha omitido em seu livro esse detalhe crucial porque seu segundo e romântico casamento desmentiu todas as suposições que fizera sobre a sua a vida depois de Ray.

Oates fez essas suposições porque a vida de um(a) viúvo(a) recente é indefinida, uma incógnita sem regras sobre como continuar. Assim, ela fez da morte de seu marido “o” momento definidor de sua vida, em vez de “um”.

O que mais nos define não são as nossas perdas, mas como reagimos a elas, como transformamos finais em começos. A vida é uma caixa de Pandora, mas é também uma dádiva.

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MICHAEL KEPP, jornalista americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro “Tropeços nos Trópicos – crônicas de um gringo brasileiro (Record)

Comments

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 20 de Setembro de 2011 11:20

    “minha especialidade era viver – era a legenda
    de um homem ( que não tinha renda
    porque não estava á venda )”
    e.e, cummings

    Elas são assim – mesmo
    querem companhia e dinheiro; um lar
    so não querem o que a gente quer.
    vivem mais com pena do defunto que não viveu o que podre
    damata

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