A vida e as desventuras do extraordinário Edgar Allan Poe

Por Marcel Lúcio

Há escritores que se destacam perante o público e a crítica pelas mensagens positivas transmitidas por meio de suas obras. Ao lê-las, recupera-se aquela felicidade, que parece perdida no dia-a-dia. Escrevem como se estivessem a sorrir. São os criadores alegres, de bem com a vida. Outros escritores chamam a atenção pela tristeza que são capazes de provocar ao leitor. Ao se ler um livro deles, tem-se medo, sensação de fraqueza, de inutilidade do esforço diante da vida. São os conhecidos criadores atormentados.

Geralmente, quando um escritor segue um dos dois caminhos, em seu texto, há reflexos diretos ou indiretos de sua vida. A literatura é inseparável da vida, porque também respira oxigênio e gases poluídos, porque é energia vital. Edgar Allan Poe (1809-1849), escritor norte-americano nascido em Boston, é uma prova da relação arte e vida. Sua estada na terra foi marcada por problemas e angústias. Observando-a, de maneira simples, sua obra reflete seus problemas e angústias. Porém, fique claro, arte não apenas se resume à vida nem vice-versa, pois, o talento imaginativo do artista também se manifesta na criação.

Poe escreveu contos, poemas e reflexões filosóficas. Em todas essas formas literárias algumas temáticas se sobressaem: medo, escuridão, morte, sentimentos tristes. Sua vida não foi das melhores. Aos dois anos, já era órfão de pai e mãe. Foi adotado por uma família abastada que queria inseri-lo no pequeno, insensível e falso mundo aristocrático da época.

Foi estudar na Inglaterra e voltou, com aprendizados e vícios, para completar os estudos nos Estados Unidos. Não agüentava o manto racional que cobria, ao menos aparentemente, a sociedade em que vivia. Era de uma sensibilidade extrema, capaz de realizar atos que desafiavam a lógica. Resultado de seu comportamento: expulsão da universidade e da casa de seus pais adotivos. Estava, mais do que nunca, como sempre esteve: solitário. Alistou-se no exército: expulso. Ingressou em uma academia militar: expulso.

Seu destino parecia estar traçado (fracasso), porém, havia casado com Virgínia, amor de sua vida, e publicara livros que lhe valeram certo reconhecimento por parte da crítica. Trabalhou na imprensa e ministrou palestras a estudantes. Após o falecimento de sua esposa, Poe passou a levar vida mais desregrada do que já levava. Era fraco para o consumo de bebidas alcoólicas, seu esquelético organismo não as suportava, mesmo assim, insistia em ingeri-las cada vez mais. Morreu como indigente poucos anos depois.

Na literatura ocidental, a influência de Poe, tanto na poesia quanto na prosa, é enorme: desde os simbolistas do final do século XIX até os dias atuais. O Simbolismo recebeu influência de Poe através da divulgação de suas obras pelas mãos do poeta francês Baudelaire. Poe ditou muitas das características desse movimento: musicalidade, apelo ao sonho, descrição dos sentimentos por meio dos sentidos.

O conto policial é considerado invenção sua. Escreveu ainda contos de terror, de mistério e humorísticos (humor negro). Na temática relacionada ao terror, Poe inovou ao utilizar-se do medo presente no interior do personagem. Até então, as narrativas de terror insistiam em descrever um medo exterior ao personagem. Poe criou uma galeria de indivíduos atormentados por alucinações de suas próprias mentes. Apesar de a maioria de seus personagens serem fracos, condenados pelos vícios (o jogo e a bebida), há, em suas narrativas, a ausência de cenas de amor físico. Aparente contradição que faz com que muitos vejam o escritor como uma espécie de anjo caído.

É difícil o criador saber a receita exata de sua criatura; Poe, no entanto, domina-a perfeitamente, é capaz de descrever em um ensaio, “A filosofia da composição”, seu processo de criação de poemas, que também pode ser aplicado à sua elaboração dos contos. Para ele, existem dois segredos para se fazer um bom poema ou conto: “brevidade” e “unidade de impressão”. A “brevidade” diz respeito à extensão da composição textual, que deve ser de um tamanho que o leitor seja capaz de lê-la, segundo ele, “de uma assentada”. A “unidade de impressão” faz referência às emoções despertadas pelo texto literário no receptor.

No conto “A queda da casa de Usher”, o narrador-personagem conta a vida de um homem amedrontado por criações assustadoras de sua própria mente. O ambiente é negro, retomando elementos da estética gótica. A sensação de terror é levada às últimas conseqüências; o leitor atento teme perante os acontecimentos. Texto de extrema intensidade emocional e habilidade literária.

Além de literato, Poe desejava ser filósofo. Embora menos conhecidos, seus aforismos contêm pensamentos interessantes: “Não é realmente corajoso quem teme parecer ou ser, quando isso lhe convier, um covarde”. Outros aforismos tratam da condição do escritor e da obra de arte: “Estudar o mecanismo de uma obra de arte, ver de perto suas engrenagens, seus menores detalhes, podem proporcionar certo prazer especial, mas um prazer de que não podemos gozar sem renunciar ao gozo dos efeitos pretendidos pelo artista. Na realidade, considerar as obras de arte de um ponto de vista analítico é submetê-las, de algum modo, àqueles espelhos do templo de Esmirna, que só refletiam as mais belas imagens deformando-as”.

Pessoas nascem, pessoas morrem e o ciclo biológico da vida continua. Poe, carne e osso, morreu, mas, sua obra permanece viva, talvez seja imortal. Seus sonhos, que se concretizaram em textos, continuam a fascinar leitores e leitoras de todo o mundo. Hoje, sua teoria sobre a composição de um texto pode não ser tão aplicável, porque em literatura a regra é não existirem regras, porém, ela foi importante para a fixação de uma maneira de escrever ainda seguida por muitos escritores.

Professor de língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Tânia Costa 24 de Julho de 2011 22:13

    Muito bom Marcel. Tenho lido seus textos e conhecido um pouco mais sobre esses escritores geniais. Também gostei muito do texto sobre Bukowski, o velho safado. Cada escritor com seu estilo.
    Abraços.

  2. Romana Alves Xavier 25 de Julho de 2011 7:10

    Marcel, seu texto é ótimo!

    Nos faz mergulhar sem sentir no universo do vasto repertório literário e descobrir novos velhos mundos. Não sabia que vc ensinava no IF do Campus Cidade Alta, que legal !!! Dia desses eu e Clarissa (jornalista) encontramos Manuela Sá (Jornalista – ambas colegas de turma da gente), ela está morando em Sampa e veio de férias. É bom reencontrar os colegas e ver que o tempo passou, e com ele muita coisa boa veio junto…menos as rugas, ou melhor até elas. rsrss.

    Abraço!

  3. Marcel Lúcio 26 de Julho de 2011 7:46

    Obrigado, Tânia e Romana. Edgar Allan Poe é um autor sensacional. Sua leitura é envolvente e desperta sentimentos extremos. Sem falar que a vida do escritor é um romance à parte.
    Romana, é bom nos reencontramos por aqui! Venho acompanhando sempre sua produção poética no SP! Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP