A vida privada

Por Francisco Bosco
O GLOBLO

No documentário de Miguel Faria sobre Vinicius de Moraes há um depoimento de Chico Buarque (cito-o de memória) em que ele se pergunta sobre como seria a vida de Vinicius se ele estivesse vivo hoje.

Chico vinha falando do desapego material do poeta, de sua generosidade extrema, de ele ter dedicado sua vida antes ao gasto das paixões do que ao acúmulo dos bens. A suspeita implícita de Chico é aí a de que o mundo foi-se tornando o oposto de Vinicius. Essa leitura é também a minha, e quero pensá-la na coluna de hoje por meio de um par de noções fundamentais: o eu e o Gênio. O modo como cada sujeito se equilibra entre essas duas dimensões que lhe são constitutivas define a sua vida. Evocarei aqui três textos para compreendermos essas noções: o conto “O espelho”, de Machado de Assis; a novela “A vida privada”, de Henry James; e o ensaio “Genius”, de Giorgio Agamben.

No célebre conto machadiano, delineia-se uma teoria das duas almas: “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro.” Uma “alma exterior”, portanto, e uma alma interior. A narrativa a seguir tratará de nos explicá-las. Nela, um personagem conta que, aos 25 anos, sendo de família pobre, foi nomeado alferes da guarda nacional. O título causou sensação nos familiares e amigos: sua mãe só lhe chamava “o meu alferes”; um cunhado, “o senhor alferes”; “e sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda hora”. Uma sua tia, Marcolina, pede que “o alferes” vá visitá-la num “sítio escuso e solitário”, para abraçá-lo à vontade, e diz que só o soltará depois de um mês.

Nesse ínterim, Marcolina recebe a notícia de que sua filha está gravemente doente, e parte ao seu encontro. O alferes, então, encontra-se só. Dia após dia, a solidão do alferes vai tomando “proporções enormes”. Até que, buscando ao menos a companhia de sua imagem, resolve olhar-se num espelho.

Então, o assombro: “Olhei e recuei” (…) “O vidro (…) não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, difusa, sombra de sombra”. Conclusão: “O alferes eliminou o homem.” Tanto foi o homem tratado por “alferes” que sua “alma exterior” apoderou-se da alma interior.

A alegoria machadiana ajuda-nos a compreender o que é o eu: nada mais do que um conjunto de identificações. O eu é formado pelos outros, com cujas imagens ele se identificou. Não há nada antes dessas identificações, nenhuma essência do eu. A “alma exterior”, de que fala Machado, são os outros por meio dos quais o eu se forma e se reconhece. No caso do conto, o eu se identifica plenamente com a imagem, social, do “alferes”. Quando se vê privado da sociedade que sustenta esse reconhecimento, o eu se dissolve. O outro, portanto, é parte constitutiv do eu. Daí Lacan insistir em que o eu é constitutivamente alienado. Segundo essa interpretação, não haveria, a rigor, uma alma exterior e outra interior, mas apenas uma “alma” (um eu), em que não faz sentido falar de interior e exterior, pois o eu, desde a origem, é o outro.

A novela de Henry James, por sua vez, apresenta-nos não apenas uma visão semelhante da “natureza” (alienada) do eu, como também nos faz ver o oposto do eu. Nela, há um personagem, Lord Mellifont, que, como o alferes machadiano, desaparece quando não está em sociedade. Na presença dos outros, ele é sempre o mais distinto, o mais espirituoso, o mais hábil, aquele que ocupa o lugar proeminente e cuja fala todos aguardam. Mellifont, a meu ver, representa, no jogo entre o eu e o Gênio que constitui cada sujeito, a parte do eu. O seu eu é inflado, enquanto seu Gênio é esvaziado. O que é, então, o Gênio?

O outro vértice da questão é o escritor Clare Vawdrey, romancista brilhante, mas figura social apagada, indistinta. Certa noite , enquanto Vawdrey conversava no terraço com uma amiga, o narrador da novela vai a seu quarto buscar um manuscrito. Para seu assombro, ao chegar lá, encontra o escritor, curvo sobre sua mesa, como no ato de escrever. Vawdrey estava ao mesmo tempo no terraço e no quarto. A alegoria traduz-se assim: Mellifont, figura primordialmente social, desaparece na vida privada, quando está sozinho; ele é tão somente o eu, e o eu são os outros. Vawdrey, o escritor, só existe verdadeiramente quando não está com os outros, e isso quer dizer, no fundo, quando não está com o eu, mas sim com o Gênio, que é a impessoalidade que ele acessa quando escreve.

Penso na cena desconcertante de Clarice Lispector, em sua poltrona, dizendo: “Quando não estou escrevendo, estou morta.” O escritor (Clare, Clarice) é aquele que leva uma vida em constante passagem a Gênio. À dimensão do eu (a identidade, o pessoal, o narcisismo, a imagem social), contrapõe-se a dimensão do Gênio (o impessoal, o indeterminado, a exterioridade em nós). “Viver com Genius”, diz-nos Agamben, “significa viver na intimidade de um ser estranho, manter-se constantemente vinculado a uma zona de não conhecimento”. Poética é, portanto, “a vida que se leva na tensão entre o impessoal e o pessoal”, entre Gênio e eu. O modo como cada um lida com essa tensão define sua vida. Uma existência muito baseada no eu é rasa de transcendência; uma existência consagrada a Gênio é arriscadíssima. Muitos artistas morreram precocemente por não terem sabido opor, ao Gênio, o eu. Outros jovens artistas hoje vivem a morrer, enquanto artistas, por não saberem opor à tentação do eu (fama, fortuna e mediocridade) o rapto poético do Gênio.

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