A violoncelista

A violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto para sua presença e, nos olhos da plateia, um recanto para a sua perna desnuda até o joelho. Tudo o que existia era sua perna. E o inferno começava em seu joelho. Prelúdio. É possível ver a beleza de uma manhã fria laçada por um sol ridente que acorda sonolento descobrindo as pétalas com uma sutileza feminina. Há aves passeando sem pressa enquanto outras decolam em revoada. Silêncio e movimento. Como se o dia fosse um branco estirão e a noite uma intermitência, ela tocava. Cobria-se de suas lassidões e calava-se para si mesmo. Contrátil, erétil, instrumental. Havia um silêncio e após a valsa ela caminhou em procura. Deslocou-se entre os arcos e estantes. Desceu as escadas, subiu à plateia e deixou para trás as portas do teatro. Aplausos. Reverências. Mas ela caminhava e já não havia mais vozes, pois a noite era a veste negra como no terceiro ato. Suas pernas cruzavam-se, preguiçosamente, provocando os quadris, e o confronto de seu corpo com a brisa fria sobre o chão esquálido solfejava música, como numa sonata com um sem número de partes. Não há consolo, apenas decisão e a água é apenas uma réstia da lua. A plateia, agora retumbante, explode em fulgor. Bravo! E à estrada comprida, formam-se beirais de aplausos firmes. A sinfônica levanta-se como em um funeral e retoma a valsa acordando a cidade. A noite restringe-se à sua insignificância de noite e esmaece em sua extensão. Já não há mais tempo. A ponte é uma pele de rinoceronte e a água é dos afogados. A distância é um salto e o fundo é do príncipe pelo qual espera toda a sua vida de cisne. Alimentou-se de música como os infelizes e alimentou os infelizes de música. Suas margens sempre estiveram inundadas, mas imerso apenas o sonho de menina, travado em seu semblante orquestral de violoncelista. Branca, como asas abertas ao nascente, ela lança-se ao seu infinito. Olhos cerrados, corpo ereto feito um instrumento violado pelas pernas femininas até os joelhos. Pássaro conquistado pelas águas assemelha-se à correnteza com seu bordado de sombra. As luzes acendem e os aplausos cessam ante o emudecer da valsa. Sem orquestra não há amor nem sobreviventes.

(Música incidental: Valsa No. 2 do ballet “O Lago dos Cisnes” – Piotr I. Tchaikovsky).

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 22 de dezembro de 2011 21:26

    Bravo!

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