A Visão Romântica

Tzvetan Todorov

“Em 1927, Tsetaeva escreve uma carta a Máximo Gorki, que vivia então em Capri. Ela não consegue deixar de lhe falar de um livro que acaba de ler. Trata-se do volume de Stefan Zweig O Combate com o Demônio, lançado em 1925 e dedicado a três figuras da loucura poética, Kleist, Hölderlin e Nietzsche. Tsetaeva sentiu-se de tal modo movida por essa leitura que quis enviar a obra a Gorki: é um “livro espantoso” e, no que concerne a Hölderlin, “o que se escreveu de melhor sobre ele”. Podemos entender esse interesse: o ensaio de Zweig condensa em algumas páginas a concepção romântica do poeta e da vida dele, o que sempre fascinou Tsetaeva. Sua admiração é, portanto, reveladora de suas próprias escolhas e independentemente do valor que se poderia atribuir à interpretação de Hölderlin proposta por Zweig.

Zweig admite, para começar, que nem todos os poetas e nem todos os criadores se reconheceriam no retrato ideal que ele está esboçando: ao lado dos “demoníacos”, isto é, aqueles que foram aniquilados pelo demônio, como os personagens de seus livros, há outros, como Goethe, que saem vitoriosos desse mesmo combate. Todavia, não são esses “clássicos” que atraem sua atenção; todo o seu interesse se volta para as figuras românticas (ele nem mesmo emprega essa palavra). O demônio que triunfa através desses criadores é apenas outro nome para a “inquietude primordial” que faz com que o homem se lance “no infinito, no elementar, como se a natureza tivesse deixado no fundo de nossas almas um pouco do seu antigo caos”. Essa descrição permite imaginar o que deveria ser a tarefa do poeta: precisamente, fazer viver no íntimo de nosso mundo bem ordenado esses elementos primordiais, incontroláveis, caóticos, aos quais nós não temos mais acesso; permitir que abandonemos o finito em proveito do infinito, as leis terrestres cedendo o passo aos comandos celestes.

Eis aí uma função que, em outros tempos, em outros lugares, seria reservada à religião. Mas, precisamente, afirma Zweig, para Hölderlin, a poesia substituiu a religião, ela “é para ele o que o Evangelho é para outros”. A poesia tornou-se a seus olhos o “princípio criador que sustenta o Universo”. Ou, mais exatamente: os poetas são necessários á humanidade para fazer viver os deuses; sem o entusiasmo deles, estes morreriam. “Sem o poeta, o Divino não existe; propriamente falando, é o poeta que lhe dá o ser”.

A concepção romântica do poeta, encarnada, segundo Zweig, por Hölderlin, implica a existência de um dualismo insuperável: entre divino e humano, céu e Terra, alto e baixo, arte e vida. Nenhuma mediação entre os dois é possível, e Hölderlin transmite através de sua obra o “sentimento de incompatibilidade do mundo exterior – feito de banalidade, de compromissos e não valores -, com o mundo puro das coisas da alma”. Duas espécies de seres habitam o Universo: no alto, “os imortais marcham felizes na luz”; embaixo, “nossa raça marcha na noite […] sem nada de divino”. Hölderlin sente medo da vida material e cotidiana, ele teme sua vulgaridade e busca evitá-la, em vez de transformá-la.

Essa separação nítida entre alto e baixo implica que aquele que quer conviver com os deuses deve evitar os humanos. Não se poderia ter sucesso nos dois planos simultaneamente. Zweig proclama aqui, como faz em sei discurso sobre Rilke no dia seguinte de sua morte: o criador deve renunciar a ser procriador, o amante das musas deve sacrificar o amor das mulheres, quem quer permanecer entre os deuses não poderia gozar plenamente de um habitat terrestre. “Ele sabe que a poesia, que o infinito não pode ser atingido compartilhando seu coração e seu espírito, e dedicando a eles apenas uma parte superficial e fugidia: aquele que quer anunciar as coisas divinas deve se dedicar a elas, deve se sacrificar completamente a elas.” Rilke não dizia nada diferente.

Segue-se que, na vida terrestre, o poeta deve renunciar não apenas à perfeição, mas também à felicidade. A vida cotidiana do artista de gênio é feita de misérias e de sofrimentos: “A vida se vinga daquela que a despreza”, escreve Zweig. O próprio Hölderlin aceitou o preço a pagar para atingir o absoluto: “É apenas na profundeza do sofrimento que ressoa em nós divinamente o canto vital do mundo, como o canto do rouxinol na obscuridade.” O poeta sabe que não pode demorar muito tempo na companhia dos deuses, mas esses raros momentos lhe são suficientes para iluminar o resto de sua existência.

O resgate exigido para se aproximar do fogo celeste pode ser ainda mais elevado: o poeta se arrisca a ter de renunciar não apenas à felicidade terrestre e a pôr de lado as leis de seu país, mas também a deixar o mundo comum, aquele que partilha com seus contemporâneos. É exatamente o que aconteceu com Hölderlin: ele não soçobrou na loucura, acredita Zweig, ele a escolheu – já que não queria mais habitar o mundo dos homens. Ou, solução ainda mais radical, pode preferir a morte à vida. Tal será o destino de Kleist, outra vítima do demônio: para ele, a vida não oferece uma dose suficiente de infinito, enquanto a morte é superlativo absoluto. Ele declara, portanto, preferir “a tumba que partilhará” com aquela que o seguirá em seu suicídio “à cama de todas as imperatrizes do mundo”. DE que valem as alegrias do mundo quando comparadas ao infinito? Kleist dá a si mesmo a morte. Por sua vez, o destino de Rilke é interpretado por Zweig, como vimos, como uma escolha voluntária (e admirável) da morte.

O traço mais marcante dessa concepção romântica não é talvez a assimilação da arte à religião, mas a interpretação dualista, até mesmo maniqueísta, dada a ambas. O mundo dos deuses não se mistura com o dos homens, o artista deve romper definitivamente o contato com as massas vulgares. Essa escolha é extrema: nem toda religião, nem toda arte fazem a mesma coisa. Quando Zweig escreve: “Somente aos deuses é dado se mover na pureza absoluta, num mundo sem mistura”, ele dá as costas a muitas experiências religiosas que não aspiram à pureza absoluta, mas aceitam a mistura. A aspiração pelo absoluto não gera mecanicamente o desprezo pelo relativo. Não é a religião que impõe a descontinuidade entre alto e baixo, a impossibilidade de estabelecer mediações entre infinito e finito, é Zweig, fiel porta-voz da visão romântica”.

(Extraído de A Beleza Salvará o Mundo, Tzvetan Todorov, Difel, 352 páginas, R$45,00)

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Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 12 de outubro de 2011 10:23

    Ah ! meu Binóculo Cine./ as estrelas posavam/ de monoquine.

  2. Marcos Silva 12 de outubro de 2011 10:08

    Pois é, Jarbas, a famosa Carta do Visionário, de Arthur Rimbaud, dirigida a Georges Izambard, datada de maio 1871, disse coisas muito próximas há mais de um século! Não é crime. Mas é bom lembrar as fontes anteriores.
    Entre nós, o velho Mário de Andrade abre “A escrava que não é Isaura” falando sobre a Poesia oculta por adereços desnecessários e desnudada por… Rimbaud!

  3. Jarbas Martins 12 de outubro de 2011 9:31

    Hai-kai on-line:/ clonaram Rimbaud,/ deletaram Verlaine.

  4. Rilke Vieira 11 de outubro de 2011 17:33

    texto maravilhoso e essencial carlos, principalmente nos dias que correm, onde quase todos imaginam que o que escrevem pode ser chamado de… poesia, a propósito há poucos dias, por acaso, ouvi na rádio do senado, uma entrevista com o poeta e crítico (deu um branco no nome, alzheimer precoce – rs, aí fui no google e coloquei: crítico e poeta de goiás), gilberto mendonça telles, onde ele dizia que nem todo poema contém poesia, uma distinção importantíssima e que nos ajuda a entender grande parte da atual produção de frases ou mini textos que erroneamente são alçados por seus autores à condição de… poesia.

  5. Carlos de Souza 11 de outubro de 2011 15:44

    o lance aí é a função, a necessidade da existência do poeta, joão. hölderlin é só exemplo.

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