A visita cruel do tempo’: caminho novo ou fim da linha?

Por Sérgio Rodrigues
BLOG TODO PROSA – VEJA

Não é uma crítica à sua capacidade de envolver o leitor nos dramas dos personagens – capacidade incontestável, diga-se logo – reconhecer que, pelo menos para quem escreve, o domínio técnico é o que mais chama a atenção em “A visita cruel do tempo”, da escritora americana Jennifer Egan (Intrínseca, tradução de Fernanda Abreu, 336 páginas, R$ 29,90). É preciso ser um monstro para manter tensionada de forma tão impecável a corda de um romance – ou coleção de contos interligados, impossível decidir – em que cada segmento é narrado por uma voz mais virtuosística que a outra, avançando e recuando na cronologia para cobrir cinco décadas e tendo como sombrio motivo de fundo uma reflexão sobre os estragos provocados pela truculenta passagem do tempo na vida dos personagens e da própria cultura americana, que adquire aqui os tons crepusculares de um império que se sabe decadente.

Seria um erro tentar resumir a intrincada trama de “A visita cruel do tempo” numa resenha, mas convém situar os marcos temporais que estão em suas extremidades. O mais recuado fica nos anos 1970 em que o quarentão Lou, produtor musical de sucesso, cheirador e sedutor de menininhas, aparece ao longo de dois capítulos-contos num safári na África (provavelmente a história menos bem-sucedida do livro) e esbarrando, por meio de uma nova conquista amorosa adolescente, com uma turma de jovens punks de São Francisco, já no limiar dos anos 1980. Dessa galera fazem parte Bennie, destinado a se tornar discípulo de Lou e surfar a indústria musical até ser tragado pelo tsunami digital, e Scottie, um guitarrista brilhante, maluco e fracassado que se tornará um improvável ídolo dos bebês – o novo público-alvo do pop, numa piada que só pode ser chamada de genial – no futuro agridoce em que o livro termina, em algum momento depois de 2020. (Spoiler? Não, não chegamos nem perto disso.)

Entre uma ponta e outra, entre a tragédia e a comédia rasgada, a crônica de costumes e o drama psicológico, a narração se alterna entre a primeira, a terceira e até uma exibicionista – levemente gratuita, mas está valendo – segunda pessoa. Personagens vêm e vão, deixam o elenco de apoio numa história para ocupar o centro da cena em outra sem que o leitor se perca no meio do furdunço. Tão estruturante é o papel das elipses – e tão meticulosamente consciente de seus truques é o livro – que o conto-capítulo mais experimental, todo em linguagem de PowerPoint, perto do fim, só poderia ter como tema as pausas que um garoto coleciona, mede e analisa no meio de canções pop. Até que ponto se pode esticar um silêncio sem que ele deixe de ser visto como pausa para ser o fim da história? – parece perguntar Egan.

Se eu destaco o domínio técnico da autora antes de qualquer outra qualidade do livro, isso se deve ao fato de que o escopo do que ela consegue dizer por meio dessa estrutura complicada, cheia de fios e alçapões e piscadelas, vai adquirindo ao longo da leitura uma amplitude crescente e espantosa de gincana, como naqueles velhos desafios televisivos de enfiar 25 pessoas num Fusca. É apropriado que, ao faturar o prêmio Pulitzer de 2011, “A visita cruel do tempo” tenha derrotado um certo “Liberdade”, de Jonathan Franzen, que também é um livro gincaneiro, mas bem menos engenhoso.

Tecnicamente, o maior trunfo de Egan é ser uma contista segura. Tão hábil em espaços pequenos quanto seus conterrâneos Raymond Carver e Amy Hempel, ela nunca abre mão do olhar afiado para dores individuais como as de Sasha, a cleptomaníaca (minha preferida), ou Dolly, a superdivulgadora nova-iorquina caída em desgraça. Só num segundo momento vem a capacidade não intrusiva de situar essa gente num agônico painel histórico, social e cultural. Não se trata, como vi sugerido por aí, de um livro obcecado por bandas, discos, estilos musicais: sem chegar a ser um tema fetichista, essa indústria funciona como microcosmo para os impactos exercidos sobre vida, arte, linguagem e comunicação interpessoal pela marcha da tecnologia.

Entre tantos fios, a questão da linguagem chega ao fim do livro em posição de destaque. Aqui, infelizmente, a boa tradução de Fernanda Abreu não consegue impedir que a experiência de ler “A visita…” em português fique muito aquém da de encará-lo no original. A radicalização das abreviações da comunicação online promovida por Egan se perde por completo: up gOs th bldg vira “lá vai o prédio subindo”, o que é difícil de defender. Mais compreensível, embora também frustrante, é a opção de traduzir o título A visit from the goon squad driblando o desafio de transpor para nossa língua a metáfora do tempo contida na gíria goon (capanga, segurança, sujeito truculento contratado para bater, intimidar e matar).

Engraçado, inteligente, sensível, ridiculamente bem escrito, “A visita…” é o melhor livro americano que leio em um bom tempo, mas deixa um travo meio esquisito. Não é fácil decidir por quê. Acredito que tenha algo a ver com certa ansiedade, aquele sorriso congelado na cara do anfitrião hiperativo, excessivamente preocupado em agradar. É como se Jennifer Egan – que andou declarando dívidas contraídas com as ditas alta e baixa culturas, com Marcel Proust, a série “Os Sopranos” e o filme “Pulp fiction” – tivesse canalizado seu inconformismo com a suposta desimportância da literatura no mundo atual para a confecção de um improvável produto pop-literário perfeito. Em seus próprios termos, funcionou brilhantemente (vai virar série da HBO!), mas é difícil dizer se sua ânsia totalizadora tem o charme de uma picada nova ou do fim do caminho.

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