A Vizinha da Cabo de São Roque não está mais sozinha

“Há dezessete meses choro,
chamando-te de para casa”

Anna Akmátova in Réquiem – um ciclo de poemas

A vizinha da Cabo de São Roque cobra por aluguel/temporada, e por lá já passaram muitos inquilinos. Uns amigos e outros nem tanto. Uns cheiram e outros nem cheiram nem fedem. Os decibéis incomodam mais. A gorda das frituras deixava a boca cheia de querências proibidas. Na noite magra comida a engordava. Com um outro inquilino era diferente. A sua fome era por liberdade. Parecia um refugiado de guerra não clicado por Sebastião Salgado. Meio tonto e nariz gogolniano. Os seria judeu?

Quando a família o esquecia ele saía em debandada e entrava onde fosse rua e portas. Na minha casa vizinha ele entrou muitas vezes para a nossa alegria. Dizia sempre uma graça e não fazia mal. Pedia algo para comer e os filhos – desesperados e mortos de vergonha – vinham buscá-lo. Gostava dele e senti quando mudou de casa. Implicava com o meu nariz e dizia que eu pertencia a um povo de fora. Com tantos vizinhos fechados e taciturnos – que não conhecemos -, o homem do nariz fazia a alegria da rua.

Assim com num palimpsesto da existência os viventes vão deixando marcas e odores na parede do tempo.

Os aniversários são datas especiais e contagiantes. Quando se canta “parabéns pra você”, ninguém pode reclamar. É o dia da pessoa, mesmo que a música seja alta e os cantores desafinados. Ultimamente tem uns aniversários que são encomendados e comemorados com carro de som e mensagem decorada. A vizinha recebeu um desses carros de som e toda a rua comemorou o seu aniversário. Alguns até choraram. Todo mundo ficou sabendo do paquera da vizinha. E ela nem sabia.

Um outro vizinho gostava de plumagens. Papagaio, arara e periquito. Um canta e o outro leva fama dizia um amigo, quando tinha feito uma besteira. Na árvore rente ao muro que depois foi levantado, ficava a arara. Fazia a alegria de todos. Todos os passantes paravam para falar com ela. Araraaaaaaaaaa…. Às vezes apareciam uns macaquinhos olhando pra gente. Que susto eles pregavam. Vinham pelo telhado e por uma mangueira que cobria o fundo da casa da rua cabo de são roque. Casa suspensa por entre dunas e livros.

Bacana mesmo foi aquele casal recém-matrimoniados num elo de paixão e confiança. Bonitos como a juventude sarada e alegre das praias antes da poluição. Nenhuma discussão e muito amor. Simpáticos, conversavam com todos os vizinhos. Ela lavava roupa só de calcinha na lavanderia da casa da vizinha que fica ao lado do meu quarto. Linda como não vi outra igual. Alegrou meus momentos duros de passar o pano no chão nos sabadões. Meus olhos de “voyeur” jamais sondaram coisa igual. Talvez pela naturalidade associada ao caráter oblativo da lavagem.

Um colega amigo meu se ofereceu para ajudar na limpeza da casa. Nunca recebi tantas visitas aos sábados. Meus amigos passavam em casa com a desculpa de convidar para ir à praia. Aquilo virou uma romaria. A lavagem de roupa é mesmo muito sensual. Algumas lavam roupas agachadas numa ioga votiva. Os cantos também são muito bonitos. Depois pendurar a camisola e calcinhas no varal da casa quintal.

Os tempos mudam acompanhados da trilha sonora. Os sons invadem os vizinhos por todos os lados, de noite e dia. Já ouvi óperas e o som mais brega do mundo. Nesse ultimo final de semana a vizinha recebeu um grupo de pernambucanos vindo de Jaboatão dos Guararapes. O som alto o dia inteiro falava de um tal de Roberval. Incomodou tanto e não me deixou ler. Só na hora de dormir não agüentei e mandei um bilhete de reclamação. Discutir é perigoso. Vou dormir com o som nas ouças. Acordo e vejo um dos casais fazendo amor no quintal parede-meia com o meu quarto de chambre. Um cenário erótico da maior sem-vergonhice. E eu sonolento acordando para mijar. Era uma morena de contornos e bunda bem fornida. Só não tirou a parte de cima, para minha maior contrariedade. Quem já viu uma poluição visual desse tipo em pleno dia de finado. Depois sentados não ouvi mais a conversa. E a pressão arterial desse coração bobo foi a dezessete por nove e meio. Fosse eu o papagaio da outra vizinha não falava tanto. E pior, morrendo de inveja desses vizinhos atrevidos.
Ultimamente mora uma família que parece vinda do interior. Só não tem o galo para cantar. Cedinho o homem acorda e começa a mexer na terra. Não sei o que ele faz todos os dias com a enxada.

E haja rotatividade. De tão rápido vejo a casa ficar branca. A casa da Vizinha da Cabo de São Roque não está mais. Ficou pouco tempo desocupada e descuidada. O mato cresceu e precisa aparar. Chegou uma família grande para morar. Tem meninos, mulheres e homens. Ontem, eu ouvia a voz de Altemar Dutra sendo tocada na vizinha. Tem um homem que tosse muito uma tosse com muita secreção. Ele vai ate o final e tem um gozo aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Os banhos são demorados. A agua jorra constantemente numa lavagem sem fim. Na lavanderia colocaram um pano comprido que impede a visão. Muitas vezes eles falam alto e reclamam feito família. A vizinha da Cabo de São Roque estando ocupada sinto-me menos só. As luzes ficam acesas durante a noite inteira. Quando olho pela janela sinto vida.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 1 de Maio de 2012 18:51

    Vejo luzes. Outros dia estavam apagadas. Ha vida. Ouço vozes.
    Hoje caiu uma bola no meu jardim. Um menino gritou fui atender.
    Perguntou se eu era amigo de fulano. Não sei, talvez, respondi.

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