A volta do habanero

Por Sérgio Augusto
O Estado de S.Paulo

Em espírito, por supuesto, o escritor Cabrera Infante retorna à Cuba que deixou por dissidência com o castrismo

Quem deu o furo foi Mauricio Vicent, correspondente do espanhol El País em Havana: Guillermo Cabrera Infante estava de volta a Cuba. Em espírito, por supuesto. Em carne e osso, seria impossível. O escritor não só morreu há seis anos como, se ainda vivo e por ventura convidado oficialmente a visitar sua terra natal, daria uma resposta Winehouse: “No, no, no”. E no entanto, ei-lo de volta à ilha, desde quinta-feira, como personagem de um laudatório ensaio sobre sua trajetória cultural em Cuba.

Originalmente uma tese de mestrado de dois jovens jornalistas cubanos, Elizabeth Mirabal e Carlos Velazco, Sobre los Pasos del Cronista: El Quehacer Intelectual de Guillermo Cabrera Infante en Cuba Hasta 1965 não só foi editada pela União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba como recebeu da Uneac o prêmio de “melhor ensaio do ano”. Nada mau para um autor maldito naquelas paragens havia cinco décadas.

Estaria a castrodura amolecendo? O romancista Leonardo Padura, um dos muitos cubanos que tiveram de ler Cabrera Infante clandestinamente, viu a premiação como um “sinal de que pouco a pouco o país está voltando à normalidade”.

Cabrera Infante, cujo maior mérito, para Padura e seus pares, foi ter convertido a linguagem do habanero em linguagem literária, tornou-se a referência mais admirável das letras nacionais, um gênio da prosa de língua espanhola fora da órbita de Alejo Carpentier e García Márquez, e um modelo de absoluta integridade intelectual. Cabrera Infante foi o mais respeitado, cintilante, erudito e divertido dissidente político do regime castrista.

Ninguém escreveu como ele sobre Cuba e a cultura havanesa. Havana foi sua musa, seu amor, sua eterna paixão; doeu-lhe vê-la decadente e arruinada pela dupla ação de um caudilhato e um criminoso bloqueio econômico. Ao contrário de Odisseu, jamais abandonou sua Penélope (a atriz Miriam Gómez), mas sua Ítaca ficava em outra ilha: em Gloucester Road, Londres, Inglaterra. Bem longe de Fidel e perto de seus mestres Lewis Carroll, James Joyce e Laurence Sterne.

Com mais de 300 páginas, Sobre los Pasos del Cronista biografa o escritor desde a infância em Gibara, na costa oriental da ilha, onde nasceu em 1929, até 1965, quando lá retornou para enterrar a mãe e dar seu adeus definitivo a Havana. Mirabal e Velazco entrevistaram diversos escritores e personalidades residentes em Cuba, como Antón Arrufat e Pablo Armando Fernández, e fora dela, como Matias Montes Huidobro, Fausto Canel e Luis Aguero. O livro é uma mina de informações sobre a experiência jornalística, o desabrochar cinéfilo e a fugaz carreira diplomática de Cabrera Infante, em boa parte já expostos pelo próprio escritor em algumas de suas ficções autobiográficas e em suas coletâneas de ensaios.

Na capital cubana desde os 12 anos, já mexia com literatura aos 18, quando decidiu estudar medicina, que ao cabo de dois anos trocou pela Escola de Jornalismo. Fraternalmente ligado a Germán Puig, Ricardo Vigón, Néstor Almendros (os dois últimos também mortos no exílio) e Tomás Gutiérrez Alea, criadores e animadores da primeira cinemateca de Cuba, acabou crítico de cinema da revista Carteles, a segunda mais popular do país, e, três anos mais tarde, seu editor. Na mesma época, cuidou do suplemento literário Lunes, do diário Revolución, lançado pelos vitoriosos de Sierra Maestra.

Como conselheiro de Alfredo Guevara no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, viajou com o chefe ao México, em 1959, para tratar com Jerry Wald, o mandachuva da Fox, uma cinebiografia de Fidel Castro, então idolatrado até em Washington. A Fox pensara em Richard Wilson para dirigir a empreitada. Guevara e Cabrera Infante não queriam o antigo assistente de Orson Welles, mas o próprio Welles na direção – e Marlon Brando encarnando Fidel. Cabrera Infante já conhecia Brando de Havana, desde os tempos de Batista, quando Cuba era o playground favorito do show biz americano. Como era de se esperar, o projeto morreu antes mesmo de Washington descurtir a revolução cubana.

Nos primeiros meses do novo regime, Cabrera Infante acompanhou Fidel em todas suas viagens internacionais. Veio, inclusive, ao Brasil, encantando-se com as similaridades entre o Rio e Havana. Àquela altura fazia cinco anos que, com o pseudônimo de G. Caín, escrevia uma coluna de cinema em Carteles, que manteria até o fechamento da revista, em 1960. Com o fim, um ano depois, de Lunes, suspenso pelo governo por seu “revisionismo contrarrevolucionário”, vislumbrou num convite para ser o adido cultural cubano em Bruxelas a chance de distanciar-se por uns tempos do cada vez mais dogmático e fechado regime castrista. Passou três anos em Bruxelas e, diante das dificuldades que enfrentou em sua breve visita a Havana para o enterro da mãe, pediu asilo à Espanha, negado pela ditadura franquista; até que, já tendo renunciado às suas regalias diplomáticas, refugiou-se na Inglaterra.

Sobre los Pasos del Cronista vai até aí. Em Cuba, Cabrera Infante publicou apenas uma criação literária, o livro de contos Así en la Paz Como en la Guerra. Suas primeiras obras-primas, na ilha, foram os comentários sobre filmes e cineastas para Carteles, os mais inventivos e bem-humorados já escritos na língua espanhola.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo