A Zila Mamede

Sanderson Negreiros

Era por esse caminho
Que não retornaste.
Era por esse espelho
Que te não refletiste
A imagem desnuda
Das horas surdas.
Era por essa intenção
Que te não revelaste
Ao sonho da noite imediata.
Era por essa hora
Que te não feriste
E desamaste.
Era por esse intermédio
De silêncios e alvitres
Que te não desististe
De tua sombra,
Iluminada pela estrela muda.
Era nessa altura
De margens e lembranças
Que te não reconheceste
Na moldura da lei absurda,
Sem oferta nem procura,
Intacta, decidida
A viver, convivendo.
Era por ser estreito demais
O limite de atravessar
Portas e corredores extremos
Que te demonstraste
A ti mesma
Na urgente instância do
Amanhecer.
Era por essa intenção derradeira,
Era por esse acabar de gestos
Desprendidos.
Era por estar-se à beira das
Fragatas que reduzem
À luminescência
Teu parado mar morto,
Onde pressentiste sempre
Sobreviver.
Era por ser, ter e haver nunca
Escolhido definitivamente
A provisão de partida,
Que te fizeste
Detentora da morte múltipla
Que o quotidiano empresta
À certeza espontânea de viver.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 17 de janeiro de 2011 11:17

    Mediúnico, mago, Sanderson Negreiros se inscreve entre os grandes poetas do século passado.Foi um desconstrutor (legado romântico) do nosso verso.Daí a sua afinidade com as vanguardas (poesia concreta,, poema práxis e poema processo) dos meados do século passado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo