Abraçaço

Por Tácito Costa – Foto: Alexis Régis

Trinta anos depois voltei a assistir um show de Caetano Veloso. A primeira vez foi na década de 1980, no estádio Juvenal Lamartine, ali no Tirol. Não lembro exatamente o ano, mas é bem provável que algum pluralista também tenha visto e lembre.  Ele veio outras vezes a Natal e embora minha admiração seja grande passei batido.

Poxa, trinta anos é um bocado de tempo, mas no último sábado o Caetano que se apresentou na Ribeira, no encerramento do Festival Literário de Natal (FLIN) não era muito diferente daquele de trinta anos atrás, claro, não me refiro a aspectos físicos (rugas, cabelos grisalhos, óculos etc), mas ao vigor, criatividade, trejeitos e provocações no palco. Era o mesmo Caetano que cantou “eu sou neguinha” (“Totalmente terceiro sexo totalmente terceiro mundo terceiro”) no Juvenal Lamartine, não tenho a menor dúvida.

Eu sempre gostei muito do trabalho dele, que considero um dos mais inquietos e arrojados artistas brasileiros. E o seu show “Abraçaço” na Ribeira foi revelador nesse sentido. Como eu só tinha ouvido duas ou três músicas do álbum, de forma isolada, não tinha uma idéia mais precisa do CD, que tem uma pegada bem chegada ao rock.

Algumas pessoas reclamaram porque ele dedicou grande parte do show ao CD “Abraçaço”, Ruim pra uns melhor pra outros. Pois foi justamente isso, a execução das canções de “Abraçaço”, o que mais curti. As interpretações mais conhecidas dele eu não tinha tanto interesse em assistir.  Embora tenha gostado de ouvi-las na etapa final da apresentação.

Vi o show de bem perto, embora a praça estivesse lotada (um público social heterogêneo), achei um cantinho próximo ao palco.  Se não me engano foi o primeiro show de Caetano em Natal ao ar livre e eu gostei por demais, da banda, do cantor, da seleção das músicas, do público. Um show pra ficar na história.

Um dia depois da apresentação comentei com um amigo que gostei de ver tantas gentes, juntas e misturadas na praça, na paz, curtindo uma boa música. Ontem ele me ligou para contar, horrorizado, que na academia de ginástica que ele frequenta uma jovem senhora estava chateada porque tinha muito “povão” no show. Ele me disse que, por essas e outras, vai deixar essa academia, o que conta com o meu mais entusiasmado apoio.

Comentários

Há 20 comentários para esta postagem
  1. Francisco Veloso 19 de novembro de 2013 9:03

    Tácito, esse seu comentário arretado vai pro panteão. Pra o bom entendedor só isto basta: “jamais deixamos de publicar texto aqui porque o editor tem outra opinião e muitas vezes acha desonesto, de má fé, intolerante, arrogante e imodesto ou mesmo imbecil o que chega para publicação”.

    Mermão, tu és o único fodão daqui. O resto é falácia.

  2. edjane linhares 16 de novembro de 2013 11:34

    A beleza, Ednar, estava no encontro. Muita gente querida, em pouco tempo e em um único espaço. Beijos. Senti falta de Jairo, que talvez fosse gostar da mesa ‘Literatura e humor’, com Ricardo Pereira. Bem que Dácio poderia enviar este texto ao SP. Fica a dica, Tácito.

  3. Tácito Costa 15 de novembro de 2013 23:37

    Acho tão natural essas discordâncias e pontos de vista diferentes postados aqui, sejam lá sobre o que for, que na maioria das vezes não respondo. Não respondo exatamente por isso, porque acho natural, salutar, enriquecedor – de verdade – e, sobretudo, democrático que cada um tenha suas próprias opiniões e as expressem livremente. O fato de alguém ter gostado ou desgostado do FLIN ou do show de Caetano não torna nem um e nem outro dono da verdade, gênio, ranzinza, cooptado, benevolente, seria muito chato se todos tivessem as mesmas opiniões sobre quase tudo. Escrevi somente sobre o que acompanhei de perto, deixei isso claro, e do que eu participei gostei, pode melhorar, claro que pode, mas daí a dizer que o evento inteiro não prestou acho temerário, e no limite, irresponsável e de má fé, principalmente se levarmos em conta que até agora não apareceu ninguém aqui pra afirmar – e provar – que acompanhou tudo integralmente. Tem alguns comentaristas, inclusive, que sequer foram ao evento, ou viram 10% do mesmo, e ficam destilando despeito, fel e rancor contra tudo e todos. Com isso não concordo, acho desonesto, mas jamais deixamos de publicar texto aqui porque o editor tem outra opinião e muitas vezes acha desonesto, de má fé, intolerante, arrogante e imodesto ou mesmo imbecil o que chega para publicação.

  4. DAMATA 15 de novembro de 2013 22:37

    Não é a primeira vez que discordamos na fruição de um evento artistico . Muitas vezes não concordei com os comentários de Tácito, como não concordo em geral com sua avaliação do FLIN e do Show. Não Vamos brigar por isso.
    Da Timelime da artista plastica Sayonara no facebook

    Nem a banda de Caetano Veloso salvou a noite. Que merda!!!!!!!!!!!

    Sayonara Pinheiro: Caetano depois de tanta besteira. Foi!!!!!!!!

    No que eu concordei e curti.

    Fiquem em paz!

  5. Anchieta Rolim 15 de novembro de 2013 21:49

    Só não fui, porque como disse Ednar, fiquei adoentado. a velha coluna vertebral estava meio derrubada.

  6. Ednar Andrade 15 de novembro de 2013 20:53

    Ei, meu Editor, Tácito Costa: tu e ele estão cada vez mais lindos, mais grisalhos, mais apurados e cada vez melhores.

    • Tácito Costa 15 de novembro de 2013 22:21

      Obrigado minha querida, são seus olhos, sempre generosos. Você é que continua um arraso. Dan não fica atrás, jeitão de galã dos anos 50 de Hollywood – rs. Bjs

  7. Ednar Andrade 15 de novembro de 2013 20:48

    Retificando: Um clima festivo que dava vida à Ribeira.

  8. Ednar Andrade 15 de novembro de 2013 20:46

    Ai! Tácito, Marcos, Lívio, Alex, Da Mata, enfim… Só sei que amo e amo muito. Por aqui sempre brinquei dizendo que um dia, antes de morrer, daria um beijo em Caetano, e que imaginava ele ser tão leve quanto sua voz e tão sutil quanto os pensamentos que, às vezes, me alimentam e embalam a vida.

    Então, estava tudo combinado para encontrar Anchieta e esposa, José de Paiva e esposa, mas, eis que, de repente, chega-me a notícia de que Anchieta adoecera. Bateu-me um desânimo. Eu já arrumada, produzida, perfumada, nada linda, e cansada, sentei-me, perdi a graça. Vou não vou, vou não vou.

    Olhei para Patrik e Danclads, olhava nos olhos e via neles a vontade de sair de casa. Sabe como é, quando ficamos tristes só vem um pensamento: pegar um lençol e cair na cama. Mas, enfim, venci o desânimo e lá fomos nós. Confesso, vi uma Ribeira que nunca vira antes, remeteu-me às noites que antecediam o natal na minha infância, onde da Ribeira à Av. Rio Branco, onde aconteciam os eventos floclóricos: pastoril e boi de reis e muitas luzes. Um clima festivo que dava vis à Ribeira. E foi assim. Muita gente bonita, foi um abraçaço sim!

    Adentrei a tenda, esguerei-me pela lateral direita, na esperança de chegar cada vez mais perto. Estava lá Lívio de papparazzo, Danclads também. Não perdiam uma.

    Muita gente boa. Acabada a mesa, segui na direção daquele beijo sonhado, mas alguém me parou e disse: Ednar Andrade? Eu não pude chegar ao beijo. Mas, ainda bem, vai que beijo e morro. Ufa! Ainda bem. O beijo fica para a próxima, quem sabe?

    Mas, que valeu a pena, valeu. Ele é o mesmo, como disse Tácito. Não importam os cabelos brancos, as rugas, o tempo.

    O tempo não apaga as luzes das entranhas, nunca!
    (Ednar Andrade).

    Ele canta e me encanta. Faz parte da minha história, dos meus sonhos e sonhares e de tantos. Não é, amigos?

    A todos, beijos.

    Por favor, alguém me avise quando tiver outra oportunidade.

    Vou pensar se beijo, hein?

    Ele é tão show.

  9. edjane linhares 15 de novembro de 2013 19:53

    Meninos, depois de ouvir Eucanaã declamar ‘Itapoã, elogios a musicalidade de Caetano é redundância. Ao mesmo tempo, profissional (pontual e 1h e meia de show), moderno (performance de ‘Homem’), saudosista (‘Mãe’) e músicos excelentes (Pedro Sá na guitarra deu um show a parte). Senti falta de ‘Gayana’, a mais bonita do Abraçaço (http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/discografia/abracaco.html).

  10. Marcos Silva 15 de novembro de 2013 16:08

    João, uns novinhos nem tinham nascido ainda quando nós usávamos cabelos longos… O mundo muda, cabelos e tudo mais. Fica a beleza produzida pelos seres humanos.

  11. suely Nobre 15 de novembro de 2013 14:55

    Tácito Costa. Belíssima e por demais abalizada a sua fala.
    Caetano Veloso é um ícone da música bem brasileira, ao lado de outros, igualmente respeitáveis. Ao longo desses tantos anos de estrada, tem produzido canções magníficas. Sua voz e sua presença de palco transferem aos seus admiradores sensações das mais diversas. A par de algumas tendências pessimistas com relação à construção de uma nova cultura de valor, acredito mesmo que, em todas as áreas e vertentes culturais, evidenciam-se manifestações merecedoras de aplausos. Certa, sem dúvida, da necessidade constante e premente de abstrairmos todo esse lixo cultural de alcance mais acessível. Contudo, àqueles que desde cedo aprenderam a separar o joio do trigo, não sentirão dificuldades de garimpar as joias raras que sobrevivem a toda essa massificação. A boa música, a boa leitura, a boa pintura e as demais formas de manifestações culturais renascem em cada tempo e em todos os recantos do nosso País. O que não se pode querer é a sua exposição na mídia televisiva. Pois, desprovida da capacidade de mensurar as boas escolhas, ou talvez mesmo, preparada, por motivos óbvios, para mantê-las à margem de sua programação. Como bem lembrou o Marcos Silva, algumas joias raras que servem ao nosso deleite, não são capazes, também por motivos óbvios, de transformar admiradores em alienados histéricos, mas sem dúvidas, transformam palavras, olhares e sorrisos em verdadeiros abraçaços!

    • Tácito Costa 15 de novembro de 2013 22:30

      Suely, sua análise é perfeita, as coisas andam muito embaralhadas, exigindo mais da gente na hora de separar o joio do trigo, no entanto isso nunca se mostrou tão necessário, diante da força avassaladora das mídias que empurram o joio como se trigo fosse.

  12. Lívio Oliveira 15 de novembro de 2013 11:38

    O show de Caetano foi excelente. Estive em vários lugares da praça, fotografando. A acústica era melhor em alguns pontos. Mas, inquestionavelmente, foi de categoria. Tudo foi e é. O CD “Abraçaço” é ótimo. Caetano e banda são ótimos. A noite estava linda. Não podia ter sido diferente: show inesquecível e que deixou saudades logo que findou. O FLIN deixou saudades. Que venha o de 2014!

  13. DAMATA 15 de novembro de 2013 10:56

    Eu usava cabelo longo e uma mochila também grande arrastava em dias trôpegos carambolando pelas ruas de uma Natal Pacata.
    Estava lá ouvindo um canto que para mim era novo e revolucionário. Hoje entre falas que censuram e um canto que já não me toca me calo.
    Alguns novinhos deviam estar no berço ou no colo dos pais que viveram uma grande época revolucionária.
    Depois vi o grande show de Cae no Machadinho e outras cidades com um grande naipe de negros e tambores. Lindo.
    Cae não mudou mudei eu, pois o Potengi não era o mesmo e o rio não passa duas vezes.

    damata

  14. Marcos Silva 15 de novembro de 2013 10:48

    Gosto muito de Caetano Veloso desde seu primeiro disco (com Gal Costa: Domingo). Assisti a alguns espetáculos dele – meu favorito, anos 70, é aquele que inclui “Samba e amor”, de Chico Buarque, parecia um recital. Certamente, é um grande nome da música brasileira. Prefiro o cantor e compositor ao opinador de imprensa e adjacências. “Janelas abertas nº 2” é obra-prima pra sempre, mais “Clarice”, “Coração vagabundo” e tanta canção.
    Curiosamente, em relação a Chico Buarque, gostei muito das primeiras músicas (“olê olá” foi um grande impacto para mim) mas considerei a paparicação que veio em seguida um saco – os olhos verdes, a fineza da família. Acho que entendi Chico pra valer a partir de “Sabiá”, reouvi os discos anteriores, ouço “Até pensei” sempre que posso. E tem “Ela desatinou”, “Vitrines”, mais dezenas de coisas e coisas.
    Agora, tem os caras tipo Tom Zé, Baden Powell, Edu Lobo. Muito menos visíveis na mídia. Incomparáveis sempre. Não agitam estádios, o negócio deles é no ouvido mesmo, com veredas para o coração.

  15. Alex de Souza 15 de novembro de 2013 10:18

    A penúltima passagem de Caetano por Natal, no finado Machadinho (que Wilma de Faria o tenha e guarde), foi durante a turnê do Zii e Ziê, com essa mesma banda aí. Tou pra ver muita coisa na vida, mas show ruim de Caetano acho quase impossível. Pense.

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