Abrindo a velha caixa de brinquedos

Por Tânia Costa

Continuação do post de 9 de maio de 2010 (aqui)

Era tempo de tomar banho de chuva, verdadeira festa no sertão. A meninada toda na rua, correndo na disputa pelas biqueiras mais fortes. Tanajura anunciando chuva: “Cai, cai, tanajura, que é tempo de gordura”. Espetar tanajura com um palito de coqueiro, soltar para ela sair voando e girando feito helicóptero.
Tomar banho no sangradouro do açude, brincar de galinha gorda, boiar em cima de câmaras de ar ou em troncos de bananeiras, tomar banho em poços. Era tempo de espreitar o abrir e fechar dos relâmpagos e o estrondo dos trovões – que de tão fortes até parecia que o mundo ia desabar sobre nossas cabeças –, de morrer de medo e correr para se refugiar debaixo da mesa, enquanto os adultos se recolhiam para orar. E não adiantava dizer que era São Pedro arrumando os móveis no céu. Tempo de fazer loucinhas e animais com barro, fazer navegar barquinhos de papel, brincar com roda de aro ou rolar pneu, de puxar roladeira com lata de leite, de espetar no chão fe rrinho na brincadeira do triângulo ou do peixe, jogar biloca aproveitando a terra molhada para fazer as barrocas, fazer barragem no aguaceiro, guerra de torrão de barro ou de carrapateira, chegar em casa e esfregar o “grude” dos joelhos com bucha do mato (bucha vegetal). Tempo de sair de papangu no carnaval, com máscara de papel e grude e um pedaço de pau na mão, com uma bola de meia amarrada num cordão, fazendo medo às crianças menores e dando boladas nos mais afoitos, que se aproximavam tentando tirar-lhes a máscara para ver quem era. Brincar com bomba d´agua ou com lança, atirando água nos colegas. Semana Santa, tempo de sair um magote de três, quatro meninos no escuro da noite para “serra-velho”, com um bocado de chocalho e lata velha. Sair no escuro da noite para roubar galinhas. Assistir a malhação do Judas no Sábado de Aleluia, bonecos de pano, enforcados em árvores, e que, ao raiar do sábado, eram apedrejados, malhados e queimados. Tempo dos compadrios nas fogueiras de São João: “São João disse, São Pedro confirmou, que você fosse minha madrinha (afilhada) porque Jesus Cristo mandou”. De fazer simpatias e adivinhações: botar água numa bacia e levá-la para junto da fogueira. Se não vir o rosto na bacia é porque não estará viva no próximo São João; meter a faca no tronco da bananeira para aparecer o nome do futuro marido; pendurar aliança num fio de cabelo segurando-a sobre um copo e contar as pancadas da aliança no copo, cujas pancadas representam o número de anos que falta para casar. Medo de ficar no caritó: “Bota pó Vitalina, bota pó, que moça véia não sai mais do caritó […]”. “Pipoca, amendoim torrado, carreguei sua mãe no ‘carrim’ quebrado”! Tempo de anunciar a chegada do circo na cidade e o palhaço sair à rua com perna de pau e megafone na mão anunciando espetáculo e cantando com um bando de meninos correndo atrás e respondendo em côro: “Hoje tem espetáculo? Tem, sim, Senhor! Às oito horas da noite? Sim, Senhor! Hoje tem marmelada? Tem, sim, Senhor! E o palhaço o que é? É ladrão de “mulé! O raio de sol suspende a lua […]”. Tempo de virar bunda “canastra”, pisar no bico do sapato novo para tirar o selo, tirar o selo (tapa) no “quengo” dos colegas quando estes cortavam o cabelo, dar peteleco em “ureão”, passar “pitu” nos colegas, pregar um rabo de pano ou de papel nos colegas para vê-los passar ridículo, bater “palminha de unha” para a (o) amiga (o) ao ouvir uma piada sem graça, arengar com a (o) colega e pedir para cortar os dedos a fim de ficar de mal, cortar os dedos ao contrário para ficar de bem, fazer unha comprida do carretel de linha corrente-laranja, pintar e colar por cima da outra. Brincar de meu e seu, mandrake, folhinha verde, andar de figa, mão no bolso, zerinho ou um, assobiar com pente e papel prateado da carteira do cigarro, assobiar com folha de figo dobrada entre os lábios ou com uma folha no meio de dois pedaços de casca da cerca, fumar com cachimbo feito de carrapateira e coquinho ou do talo do mamão verde, fazer campeonato para ver quem cuspia ma is longe, bater na bochecha cheia de ar para provocar um estampido, brincar de imitar o som do peido com a mão debaixo do suvaco, queimar o (a) amigo (a) com o caroço de mucanã – “olho de boi” ou “catota”, esquentado na pedra ou na calçada de cimento, queimar peido com fósforo, rebolar pedra bem embaixo da manga madura para vê-la cair e chupá-la. Tempo de “ir à feira”. De comprar pijama de tecido de flanela estampado, camisa cacharrel, camisa de tecido “volta ao mundo” na cor verde limão e rosa choque, comprar rói-rói, comprar sequilho, raiva, alfinim, grude, beiju e colar de côco catolé pra comer. Acercar-se do “homem da cobra”, que apregoava remédio que prometia a cura para muitos males. Tempo de mau agouro, de adoecer de mau olhado, de quebranto ou de espinhela caída e ser curado por uma benzedeira com um galhinho de arruda, alecrim ou pinhão roxo, reza e muito sinal da cruz sobre a cabeça da pessoa acometida pelo mal e que os meninos imitavam com os seguintes dizeres: “Eu te benzo, eu te curo, amanhã tu caga duro”. Continua no próximo post! COSTA, Tânia et al. Brinquedos e brincadeiras populares: Identidade e memória. 2. ed. Natal: IFRN 2010.

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