Nossa Academia de Letras

Fundada em 1936, a Academia Norte-rio-grandense de Letras surgiu como tentativa de estabelecimento de um cânone literário local, não obstante contemple aspectos mais amplos como a valorização e a preservação da tradição cultural e artística.

A escolha dos patronos das cadeiras revela essa tentativa, sob a forma de homenagem a vultos pioneiros das nossas letras, como Nísia Floresta, Lourival Açucena, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Ferreira Itajubá, Antonio Marinho e Gothardo Neto.

Ainda como patronos, foram também escolhidos nomes prestigiados socialmente e que não eram tidos como literatos e que, até hoje, habitam o nosso imaginário como vultos históricos: Padre Miguelinho, Almino Afonso, Pe. João Maria, Pedro Velho. Outros se destacaram como verdadeiros tribunos, como foi o caso de Amaro Cavalcanti.

Com essa variada representatividade social, parece acertado, no entanto, o desejo de criação de um cânone, a começar pelo título da instituição: Academia Norte-rio-grandense de LETRAS.

Destaco, em caixa alta, o nome que congrega a maioria dos patronos, porque tal característica deve se estender aos primeiros ocupantes e aos sucessores: os membros da Academia, na sua ampla maioria, devem ser escolhidos segundo o critério que está contemplado no título da instituição, ou seja, devem pertencer ao mundo das Letras, o que não exclui representantes de áreas afins.

Com esta breve consideração acerca do mérito de literatos que se candidatam a uma cadeira na tradicional instituição que tem como patrono o mestre Câmara Cascudo, gostaria de tecer um elogio público ao escritor Racine Santos, que por duas vezes foi candidato, embora tenha tido votação insuficiente nas eleições.

Não vou estabelecer comparações entre os concorrentes vitoriosos que, uma vez eleitos, têm o dever de colaborar no processo de continuidade da já consagrada instituição das nossas Letras. Que assim seja.

Racine Santos no palco nordestino

Racine Santos teve peças encenadas em diversos estados brasileiros e no exterior, a exemplo de Pedro Malazarte (Chile e em Portugal).

Racine Santos foi, em 1994, um dos coordenadores do Projeto CUMPLIcidades, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco e pelo Governo Português. O projeto levou ao público português produções de teatro, literatura, artes plásticas e música de Pernambuco e do Rio Grande do Norte.

No ano seguinte, trouxe para cá grupos portugueses, promovendo assim interessante intercâmbio. Ainda como inovador na sua área, o autor de A Farsa do Poder criou e coordenou, em 1998, o Festival de Teatro Nordestino, trazendo para Natal espetáculos de toda a região, durante seis edições.

Racine Santos teve peças encenadas em diversos estados brasileiros e no exterior, a exemplo de Pedro Malazarte, que foi encenada no Chile e em Portugal.

Leia crítica de “Macaíba em alvoroço”, romance de Racine Santos

Os textos das suas peças foram publicados como literatura, com destaque para Teatro de Racine (2003). Como poeta, publicou vários livros. Graças a um deles, ganhamos a imagem de Natal como Uma Cidade Vestida de Sol (1999).

Mais recentemente, dedica-se à escrita ficcional, tendo publicado dois romances: Macaíba em alvoroço (2017) e De susto, de bala ou vício (2019). Perguntado se iria concorrer pela terceira vez a uma vaga na Academia, ele respondeu que no momento está escrevendo um terceiro romance – esta é a prioridade…

O autor de Natal em cena: pesquisa sobre o teatro potiguar (1996) atuou também na imprensa local, como jornalista: repórter, colunista e editor do jornal Tribuna do Norte (entre 1973 e 1975); editor chefe de A República (1978-1979); editor geral de A Verdade (1986).       

Criou e editou vários pequenos jornais culturais alternativos, além de revistas como Palco Nordestino e Grande Ponto.

Detentor de prêmios e condecorações, tem o seu nome designando uma das salas do Teatro de Cultura Popular, da Fundação José Augusto. Se esse teatro permanecer como patrimônio da nossa cultura, se não for derrubado um dia pela fúria destruidora dos nossos governantes, Racine já terá naquela sala a sua imortalidade merecida.

Trailer do espetáculo “Um presente de Natal” (2009), Direção e Roteiro: Diana Fontes; Música; Danilo Guanais e Texto: Racine Santos

Cânone literário potiguar

Voltando à questão do mérito literário como a principal justificativa para um voto em possíveis candidatos à Academia, devemos reconhecer, contudo, que a ideia de cânone literário é uma invenção histórica que depende da circulação das publicações dos autores na sociedade, em determinado tempo histórico.

Por isso, o reconhecimento do autor como digno do cânone deve ser anterior à sua entrada na Academia e não posterior. Racine Santos já faz parte do cânone.

Ademais, não é a Academia de Letras a única instituição habilitada para uma chancela desse tipo. A universidade, por exemplo, chancelou nomes como Zila Mamede e Eulício Farias de Lacerda como imortais das nossas letras.

Veja artigo “Racine Santos: era uma vez o homem e seu tempo”, de Thiago Gonzaga

A Academia Norte-rio-grandense de Letras, não obstante preterir Racine Santos em duas oportunidades, valoriza o nosso autor, senão vejamos o que nos dizem alguns dos acadêmicos. A citações seguintes foram retiradas do curriculum vitae do então candidato, no processo eleitoral:

Diogenes da Cunha Lima (Presidente, Cadeira n. 26): “O nome de Racine já indica um destino. De ser bom nas letras. Racine sabe nominar, dá título com mestria. À Luz da lua, os punhais é um achado de sabor lorquiano”;

Murilo Melo Filho (Cadeira n. 19, vaga): “Fiquei particularmente emocionado com suas excepcionais qualidades de dramaturgo e poeta”;

Luís Carlos Guimarães (Cadeira n. 37, ocupada por Élder Heronildes): “Racine Santos reafirma sua presença no quadro dos autores teatrais brasileiros, com competência, agudeza de observação, argúcia na exploração dos temas e nitidez no desenho das personagens”;

Manoel Onofre Jr. (Cadeira n. 5): “Não tenho o menor receio em afirmar que este livro (Macaíba em Alvoroço) nasce fadado a tornar-se um marco na ficção potiguar”;

Iaperi Araújo (Cadeira n. 23): “Racine Santos é mestre nessas narrativas. Autor de textos teatrais que estampam a realidade armorial do povo, encangando histórias de gente, de visagem e de assombração”;

Nelson Patriota (Cadeira n. 8): “Realidade e ficção se misturam de forma indissociável neste breve, denso romance (…de susto, de bala ou vício…) que traz Racine Santos de volta à cena novelística, após uma estreia bem-sucedida em 2017 com Macaíba em Alvoroço”;

Humberto Hermenegildo (Cadeira n. 2): artigo “O céu dos pecadores: Macaíba em alvoroço” (Substantivo Plural, 7 mar. 2019).

Também Eulício Farias de Lacerda, Deífilo Gurgel, Franco Maria Jasiello, Tarcísio Gurgel e Nei Leandro de Castro, dentre outros dignos representantes das nossas letras, deram opiniões sobre os escritos de Racine Santos. Todos eles não fazem ou não fizeram parte da nossa Academia. Mas as suas vozes, individuais, podem, igualmente, chancelar o cânone local.

Como membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, eu teria, com satisfação, a honra de compor a Comissão de Recepção a conduzir Racine Santos para tomar posse na instituição.

Fiquemos com o lema Ad lucem versus, como a indicar que a nossa luz somente se acende com a energia dos valores consagrados na humanização, que é o fundamento de toda a literatura.

Escritor, pesquisador e professor universitário [ Ver todos os artigos ]

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