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Ação Leitura inicia 2016 com a poesia popular de Manoel Cavalcante

O pequeno auditório da Livraria Nobel recebeu poucos e bons convidados, na noite da última quinta-feira (31), dia em que a editora Jovens Escribas escolheu para divulgar o calendário do Ação Leitura.

O projeto leva autores às escolas e mostra como a literatura pode ser estimulante para crianças e adolescentes – sobretudo dos ensinos Fundamental II e Médio.

“São aqueles estudantes que estão numa idade muito vulnerável, no bom sentido, para a conquista, o encantamento pela leitura”, disse um animado Carlos Fialho, anfitrião do bate papo com o poeta popular Manoel Cavalcante.

Versificador de Pau dos Ferros, formado em odontologia pela UFRN e dono de mais de 60 prêmios literários, dentre deles o do Cosern de Literatura de Cordel, Manoel morou em Natal e costuma falar sobre o vai e vem dos interioranos em seus poemas.

Tanto na conversa que tivemos minutos antes de sua apresentação, como durante declamações e a interação com os presentes, o jovem de 25 anos mostrou uma rara destreza com as palavras, em total harmonia verbal, musical e vocoperformática – pilares da cantoria e da poesia declamada em público.

Bola dentro da Jovens Escribas incluí-lo na lista de atrações do Ação Leitura, programado entre os dias 09 e 14 de maio, com vários escritores interessantes – Xico Sá, Marcelino Freire, Sérgio Fantini, Pablo Capistrano, Márcio Benjamin, dentre outros.

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Aos 25 anos, Manoel Cavalcante é dentista formado pela UFRN e autor de 21 cordéis; temas, como o matuto, a seca e o ir e vir do interiorano à capital permeiam seus escritos; ele coleciona mais de 60 prêmios literários

Autor de 21 cordéis e dois livros (um deles uma biografia poética de sua cidade de origem), Manoel Cavalcante mostra que o cordel pode ter perdido espaço em distritos e feiras livres, como no passado, mas continua vibrante, rico em efeitos estéticos e semânticos – ainda mais declamado.

O convite para vir a Natal surgiu na Feira do Livro de Mossoró, em 2015.

Fialho recebeu a dica de Rilder Medeiros, organizador do encontro na Capital do Oeste.

“Ele disse: ‘No último dia do evento vai ter um autor aqui, presta atenção, ele é muito talentoso’. Vi e achei muito bom. Esse cara na frente dos alunos, vai encantar, eu pensei”.

Como a essência do Ação Leitura é formar novos leitores, ter bom texto é insuficiente para um autor se conectar com estudantes.

É preciso saber falar bem, ter poder de convencimento de que um livro pode divertir mais que um brinquedo ou um videogame.

E isso Manoel cumpre à risca.

Caatinga

Flagelo da seca e o sofrimento em vida do sertanejo é abordado por Manoel Cavalcante em seus poemas

No meio da caatinga, um desejo de menino

Membro das academias Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel e de Trovas do Rio Grande do Norte (em ambas, seu patrono é Fabião das Queimadas), o dentista Manoel era levado pelos pais à feira de Pau dos Ferros, na infância.

Ao ver cantadores com entonação da voz a realçar elementos dramáticos da narrativa poética, começou a escrever versos quase de brincadeira.

Mas seria um professor de história, com um projeto anual sobre religião, que perceberia os saltos que os significados davam do conteúdo de uma mensagem e corriam por um ordenamento, um padrão, através dos versos do menino.

“Era uma coisa bem tímida, me apresentava nos eventos da escola. Até que um dia esse professor me disse que eu não poderia sair da escola sem lançar um livro. Aí o pessoal gostou e não parei mais”.

Seu primeiro cordel foi a história bíblica “José, um pastor dos sonhos”.

Em temas caros a sertanejos, como o sertão, a seca, a chuva e a vida entre o interior e a capital, Manoel começou a mostrar que sua poesia se enquadrava em uma prática social, pois, através da declamação, completou o pacote forma, conteúdo e interação com a plateia.

Já no fim da adolescência, a mudança para Natal lapidou a arte latejante do pau-ferrense – hoje ele é cirurgião dentista em Assu.

“No interior é aquela coisa mais pura, mais bucólica. Quando eu vim para Natal, passei a visitar os sebos, passei a conhecer pessoas com a mente mais ampla. Não que as pessoas do interior também não tenham a mente ampla, mas foi quando eu vim para Natal que deixei de absorver a poesia como forma e passei a absorvê-la como estado de espírito”.

Na conclusão do curso, educação e saúde ganharam espaço em um cordel feito para alunos de bairros carentes da capital potiguar, com orientações sobre cárie, dieta e escovação – 0 poder pedagógico da literatura germinada por ibéricos e desenvolvida aqui nos trópicos.

“Faltam pesquisas que solidifiquem isso no meio mais elitizado, no meio da odontologia, mas se sabe que o cordel tem efeito pedagógico. Escrevo desde a coisa mais simples, da simplicidade de um pingo d’água que se tora a uma equação de terceiro grau”.

Pau dos ferros

Biografia de Pau dos Ferros em poesia traz história da cidade de 1717 até os anos 2000; Foram cinco anos de pesquisas, entrevistas e recuperação de documentos

À sombra da oiticica

Cinco anos de pesquisa, entrevistas com moradores, pesquisadores, uma trabalheira dana para concluir “Pau dos Ferros à sombra da oiticica”, espécie de biografia da cidade em cordel.

Epopeia narrativa e pessoal, levada por Manoel Cavalcante como sua obra de fôlego – e custosa para o bolso do então recém-formado.

“Quando eu fui lançar o livro sobre Pau dos Ferros, o poder público da cidade garantiu tudo. Patrocínio: R$7.320,00 para a edição de 1.500 exemplares. Foi um livro de pesquisa árdua, com fotos antigas, fotos recuperadas, documentos que a gente achou em fundo de baú, depoimentos orais de pessoas que já morreram. Foi um trabalho muito laborioso. Quando chegou em cima da hora, eles sairam fora. Então eu peguei o dinheiro emprestado e deu tudo certo. Paguei o livro. Foi até melhor, porque o livro respondeu por todos e se pagou”.

Longe de ser prioridade em gestões públicas por estas bandas, ‘fomentar a cultura’ virou uma expressão batida, sem nexo com a realidade proposta por meros administradores de contas correntes, como nos disse outro dia o tabelião de Arez, Giovany Teixeira.

“Lancei o livro no dia 05 de setembro de 2013. Dia 08 tinha show de Luan Santana em Pau dos Ferros. Foram gastos por volta de R$400 mil para esse show, e me disseram que não tinham sete mil para que fosse lançado um livro que conta a história de uma cidade, que daqui a 50 anos da minha morte ou da morte de quem quer que seja vai ter alguém lendo ou precisando ler esse livro”.

O desabafo foi repetido diante de um público ansioso por suas declamações.

Manoel soltou o verso em quatro ou cinco poemas, tudo de memória, o que é mais impressionante.

Saíram A Casa de Minha Vó (leia ao final desta matéria) e A Assembleia, cujo mote veio da lista de funcionários fantasmas da ‘Casa do Povo Potiguar’.

Ele sabe o quanto é difícil fazer literatura em meio a um oceano de ignorância, seja na capital ou no interior.

“A cena cultural em Pau dos Ferros é morta. Só quem ama mesmo, que faz para levantar a bandeira mesmo, é que continua nessa área. Lá tem os abnegados, que mantém a chama acesa, mas posso lhe garantir que é morta. É um processo complexo [valorizar a própria cultura]. Passa por nós, a população. Passa pelo papel da escola e pelo poder público”.

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Carlos Fialho apresentou as atrações do Ação Leitura 2016, com destaque para escritores Xico Sá, Marcelino Freire, Sérgio Fantini, Pablo Capistrano e Márcio Benjamin; evento ocorre entre os dias 09 e 14 de abril

Literatura em discussão

Algumas escolas ainda serão definidas, mas o Ação Leitura já tem agenda garantida em auditórios da IFRN, do Cemure, no Colégio das Neves, na Escola Estadual Francisco Ivo, no Barracão do Clowns e com médicos cooperados da Unimed.

Carlos Fialho destaca a quantidade de atrações, segmentadas em mais dois eventos paralelos ao Ação – o Iapois Poesia Especial e o Bazar Independente, este fixo na programação da Jovens Escribas.

“Essas pequenas conquistas, ou grandes conquistas que a gente vai tendo com um evento desse é uma espécie de recado que damos para a sociedade em geral, de que é possível fazer um evento literário que seja efetivo, que possa estimular a leitura, toda a cadeia produtiva do livro em uma cidade como Natal e sem investimento de milhões”.

Fotografias: John Nascimento

 

A casa de minha avó…

Poema de Manoel Cavalcante

 

Nasce o dia, o sol se infesta…

Seu brilho intenso se arrola

E os pardais fazem a festa

No olho da Castanhola…

Galo canta no poleiro,

Minha tia varre o terreiro

Com vassoura de cipó…

Ah se eu voltasse o passado

Do terreiro penteado

Da casa de minha avó…

 

No armazém, ração guardada…

E entre sacos e cereais,

Uma galinha deitada

Com uns quinze ovos ou mais…

Grãos de milho na garrafa

E enganchada na tarrafa,

A cabeça de um corró…

Hoje estou muito distante,

Mas não me esqueço um instante

Da casa de minha avó.

 

Já passei de um rapazote,

Mas na lembrança sagrada,

Guardo aquele pé de crote

Na beirada da calçada…

Ultrapassou gerações,

Suportou cheias, verões,

Que o tempo lhe impôs sem dó;

Ao lembrar dele eu me encharco,

Que o pé de crote é o marco

Da casa de minha avó.

 

De primo, eu tenho uns quinhentos

E quando “nós se reunia”,

Contava história pros ventos,

Só conversava “arisia”…

-Morreu Zezin! Deus o tenha!

-Dona Toinha está prenha

De Zé do braço cotó!

Era cada história feia

Falando da vida alheia

Na casa de minha avó…

 

Eu lá… Dormindo e sonhando…

Já no sono da preguiça…

Mãe liga o rádio estrondando

De 6:30 na missa.

Eu fazia uma oração

Com um olho em pé e outro não

E a paciência de Jó…!

A altura era tão severa

Que eu pensei que a missa era

Na casa de minha avó.

 

Na parede, em lua cheia,

Haviam cacos de luz…

E ao lado da Santa Ceia,

O Coração de Jesus.

Numa moldura encardida

Minha tia falecida,

Minha velha bisavó

E um santo no calendário

Fazem na sala, o cenário

Da casa de minha avó.

 

Às vezes, de supetão,

Eu entrasse na cozinha,

Melava o pé num pisão

Numa merda de galinha…

Deixava o pé fedorento,

Sendo mole, era preguento,

Se duro, ficava o pó…

Eu gritava: Xôo Galiinhaa…

E ela corria doidinha

Da casa de minha avó.

 

No anoitecer, na calçada,

Tinha paquera e fofoca…

Vez por outra uma lapada

Matava uma muriçoca.

No janelão, três abelhas.

Por entre a brecha das telhas,

O olhar de uma bobó

Que encabulada nos via

Como se fosse vigia

Da casa de minha avó.

 

Mal surgia o sol nascente,

Lenha estalava na brasa

E o cheirão de café quente

Se espatifava na casa…

Vovó com bem vinte filhas

Bulia em bem mil vasilhas

Fazendo uma zuada só…!

Depois do quebrar da barra

Nêgo acordava na marra

Na casa da minha avó.

 

Ao lado da cristaleira

Com cinco latas de aveia

Tinha uma velha copeira

C’um caneco sem aseia…

O pavio da lamparina

De lata de margarina

Era de algodão mocó…

Vô sentado no batente

Sempre orava ao sol poente

Na casa de minha avó…

 

Uma cantiga de grilo

Não deixava vovô manso

Por empatar seu cochilo

Na cadeira de balanço…

Sempre ele aprumava a chapa

E mãe assoprava a papa

Que a fumaça dava nó…

Depois da janta, ao final,

Fazia um “pelo sinal”

Na casa de minha vó…

 

Tinha menino correndo

Fazendo espanto e gritando,

Mesmo sem querer querendo

Terminavam se pegando…

Com as mãos, santas, corretas,

Vovó penteava as netas

Fazendo em cada um cocó

E eu lá, com o olho em cima,

“Doidin” pela minha prima

Na casa da minha avó.

 

A rede num armador,

A gaiola, um passarinho,

E um liquidificador

Coberto com um paninho…

Um gerimum descascado

Já estando acompanhado

De buxo e de mocotó

Pra temperar o feijão

Fervendo num caldeirão

Na casa de minha avó.

 

Vovó rezando sentada

Pai nosso e Salve Rainha

E eu só fazendo zuada

Correndo a casa todinha…

Ela calma, mesmo assim,

Chegava perto de mim

Como o “i” chega do “o”,

Beijava, dava um carinho

E eu ficava bem quetinho

Na casa de minha avó.

 

Era grande o “cunveseiro”

Logo na sala da frente

E lá fora, no terreiro,

Juntava ruma de gente…

Na tábua de compensado

Só se escutava o chiado

Das pedras de dominó,

Mas ninguém fazia aposta,

Que de aposta, ninguém gosta

Na casa de minha avó.

 

Talvez eu não volte mais

Naquela casa encantada

E os meus velhos ancestrais

Virem relíquias do nada.

Com a saudade que apavora

Eu só peço ao tempo agora

Que não me arme um quixó,

Pra eu ter meus sonhos completos

Deixe que eu leve meus netos

Na casa da minha avó…

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Conrado Carlos

Comentários

2 comments

  1. Tânia Costa 7 abril, 2016 at 10:55

    Muito bom. Adorei “a casa de minha avó” e conhecer a poesia de Manoel Cavalcante. Não fui ao evento, mas o próximo não perderei.

  2. natanael avelino santos 11 fevereiro, 2018 at 10:02

    Me deleitei com essa formusura de texto, quase rolam as lágrimas. Parabéns ao autor por essas tão lindas palavras.

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