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Acaso ou destino

Nosso destino é determinado? Em que os acasos interferem?

Quem acreditaria que João, nascido e vivido nas Rocas e sem ser formado, exerceu a advocacia e receberia o título de Doutor Honoris Causa em Direito da Universidade de Coimbra. Mereceu, ainda em Portugal, as honras de hospedar-se no Palácio de Queluz, privilégio de reis, príncipes e infantes.

Quem esperaria que um goleiro do Alecrim fosse, por duas vezes, eleito Deputado Federal? E que esse deputado, pioneiro em defesa do divórcio, presbiteriano, seria eleito vice-presidente da República de um país essencialmente católico? E, por um acaso e ocaso de sangue, exerceria a Presidência da República? Sem dúvida, Café Filho mudou o seu previsível destino.

Um mau aluno, considerado “inútil” por professor, provou estar errado o mestre: tornou-se o maior cientista do século XX. Albert Einstein explicou o êxito pela persistência: “Eu tentei 99 vezes e falhei, mas consegui na centésima tentativa”.

Há pessoas que controlam o seu próprio destino, não aceitam o que aparentemente lhe está reservado. Isso é conquista cada vez maior do nosso tempo.

Antes de Cristo, o mundo já se regia por profetas, oráculos, magos, supostos conhecedores do futuro. O Oráculo de Delfos, na Grécia, predizia a vitória ou o insucesso das guerras, a esperança e o desespero, o acontecimento fatídico e a felicidade. Eram sacerdotes e pitonisas que, como em transe mediúnico, adivinhavam o que haveria de vir. Falavam em poemas com a mesma métrica de Homero e de Hesíodo.

Na mitologia, as moiras gregas e parcas romanas eram três irmãs que estabeleciam o destino dos deuses e dos homens. Eram retratadas como belas mulheres nas artes plásticas e feias e perigosas na literatura. Fabricavam teares e teciam toda a vida dos homens a partir do útero das mães até a sua morte.

A vida é um mistério, sabe-se. As coisas simplesmente acontecem, nunca saberemos se foi por acaso feliz ou desafortunado. Não é sem razão que os espanhóis chamam de azar.

Acontecimentos nem sempre são entendidos e explicados pela lógica humana. Quando surpreendem, totalmente inexplicáveis, são considerados milagres pelos religiosos.

A cristandade acredita no livre arbítrio, capacidade humana de agir. No pensamento muçulmano, maktub, o que está escrito necessariamente acontecerá.

Há coincidências tão coincidentes que levam a pensar que é força do destino quando é apenas um conjunto de interações. Muitas são deuscência, determinadas por Deus.

O homem dá interpretações dos fatos baseado nos seus desejos, na sua fantasia, nos seus sonhos.

Calderón de la Barca (1600 – 1681) define: “Toda vida é sonho e os sonhos, sonhos são”. Pablo Neruda fala do seu destino dizendo que tem compromisso com o acaso. O fato é que, neste assunto, não se tem uma posição monolítica.

Deveremos refletir sobre o tema, ainda que, para perguntas existenciais, não haja resposta satisfatória. Entretanto, continuamos indagando. Questionar a vida faz parte da arte de pensar.

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Diógenes da Cunha Lima

Comentários

1 comment

  1. Ruben G Nunes 15 maio, 2018 at 12:52

    Muito bom, Dr. Diógenes! O tema é instigante e não racionalizável. È constante busca. Mas que exercita racionalidades e sensibilidades e suas trocas dialéticas. E para certos níveis de consciência nunca é perda de tempo discutir, pesquisar, tais mistérios. São exercícios do pensar. Como a malhação para os músculos.
    Me lembra o existencialismo de Camus refletindo sobre o turbilhonante absurdo da VidaViva que nos cerca e invade: “Vivre c’est faire vivre l’absurde. Le faire vivre, c’est avant tout le regarder”. Ou seja: fazer viver o absurdo é antes de tudo encarar o absurdo – eis aí a visão existencial e objetiva (apesar do subjetivismo de cada um) de Camus no seu “Le Mythe de Sisyphe”, Gallimard, 1942. Parabéns pelo tema que abarca toda uma filosofia de Vida e de convivência.
    Ruben G Nunes, desfilósofo e romancista

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