Acerca de alguns dispersos de Edgar Barbosa

Jornalistas e escritores costumam deixar atrás de si, com o passar dos anos, amiúde inadvertidamente, um volumoso acervo daquilo que comumente é designado por “esparsos e dispersos”. São textos que, por algum motivo, ficaram como que esquecidos pelo autor, ou à espera de uma oportunidade para publicação que não aconteceu. Às vezes é necessário o esforço de uma geração posterior para que esses textos saiam do limbo do anonimato.

Diferentemente do ofício do livreiro e do editor, o trabalho do pesquisador de dispersos, que inclui também a preparação de texto, tem um sério óbice: a defasagem, haja vista que se ocupa de escritos que foram destinados a um público já deixado para trás. Trata-se, portanto, de um trabalho que só encontra justificativa na expectativa de que o acervo em organização ultrapasse, em virtude de suas qualidades intrínsecas, como estilo, temática, informação de primeira mão, os umbrais da sua época e desperte o interesse de novos leitores.

A trajetória de cronista do escritor Luís da Câmara Cascudo é um bom exemplo desse fenômeno, na medida em que permanece um desafio que, até hoje, não foi devidamente equacionado pelas diversas instituições culturais do Estado. É louvável, nesse aspecto, o esforço que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, através do seu presidente, o escritor Enélio Petrovich, vem fazendo junto à Editora da UFRN, ao Sebo Vermelho e outros, para dar conta do projeto serial “O Livro das Velhas Figuras”, reunindo as centenas de Actas diurnas que Cascudo deixou na imprensa potiguar.

O trabalho solitário e incansável do escritor Jurandy Navarro na recuperação da obra relegada pelo padre Luiz Monte é outro exemplo que vem se traduzindo em resultados que totalizam, até agora, dez volumes. Esse número, porém, ainda é parcial e deve ganhar um acréscimo ainda este ano.

Edgar Barbosa também se presta a exemplificar essa condição de autor de “dispersos e esparsos” que convidam à publicação. Sua longa passagem pelo jornal A República, em fins dos anos 1920, enveredando pelas três décadas seguintes, e abrindo-se numa estreita colaboração com outros veículos da nossa imprensa, tipifica bem tal condição. São dezenas de centenas de textos – crônicas, artigos, notas, críticas, observações das mais várias espécies – que permanecem em boa parte inédita.

Uma fração desse acervo, no qual sobressaem perfis de intelectuais norte-rio-grandenses, o próprio Edgar Barbosa se encarregou de selecionar e publicar, sob o título de Imagens do Tempo, em 1966, através da Imprensa Universitária da UFRN.

Uma outra fornada de inéditos seus compõe o  livro “Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa – Volume 1 (1927-1938”, que tivemos a missão de organizar e que foi lançado pela editora da UFRN, dias atrás, num evento acadêmico.

A edição teve uma acolhida favorável, entre outros, por parte do jornalista Woden Madruga, o qual, em pelo menos três datas de seu “Jornal de WM”, além de reiterar a excelência da prosa barbosiana, se demorou longamente na figura da vaporosa e elusiva Didi da Câmara, poetisa que foi objeto de uma crônica do ensaísta ceará-mirinense, mas cuja identidade e respectiva obra permanecem envoltas em instigante nebulosa.

Em sua Cena Urbana do dia 1º deste mês, o jornalista Vicente Serejo entendeu que a edição que organizamos para a Editora da UFRN seria uma reedição, sob outro nome, de Imagens do Tempo. Esclarecemos que se trata de obras diferentes. O livro organizado por Edgar Barbosa reúne textos que ele publicou na última fase de sua participação em A República, isto é, no período compreendido entre 1947 a 1957; o nosso, remonta aos anos de 1927 a 1938.

Por fim, adiantamos que a edição de Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa deverá ser acompanhada de um segundo volume, a sair ainda este ano, conforme projeto aprovado pela direção da Edufrn.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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