Acho melhor não

No novo livro do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, Mac e seu Contraponto, que estou lendo, tem uma passagem, logo nas primeiras páginas, pronunciada pelo narrador, Mac, que me chamou a atenção.

“… me lembrei que, nos livros, certos personagens mínimos e até bastante singelos às vezes perduram mais que certos heróis espetaculares. Penso no cinzento e discreto Akaki Akákievich, o copista de O Capote, de Gógol, um burocrata cujo destino é ser, pura e simplesmente, um ‘sujeito insignificante”. 

O trecho me remeteu a um personagem literário, que se não é “mínimo”, não figura na galeria dos maiores e referenciais da literatura, que me impressionou sobremaneira, Bartleby, do livro Bartleby, O Escrivão, de Herman Melville, que li há muitos anos.

O enredo é aparentemente singelo. A partir de certo dia o escriturário Bartleby, que trabalha em um escritório de advocacia, decide não mais cumprir as tarefas a ele solicitadas, retrucando-as passivamente com a frase: “Acho melhor não”.

Pois esse estranhíssimo funcionário me acompanhou mais vida afora do que outros de magnitudes inquestionáveis, considerados seminais para a literatura, como o próprio Capitão Ahab, de Moby Dick, também de Melville.

Ou ainda o Coronel Aureliano Buendia, de Cem Anos de Solidão, Ema Bovary, de Madame Bovary, de Flaubert, Raskolnikov, de Crime e Castigo, de Dostoiévski, Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Quixote, de Cervantes, para citar apenas alguns dos meus heróis e heroínas literários preferidos.  

A novela de Melville me marcou, sobretudo, pela presença constante, por vias tortuosas, na minha vida profissional. Não foram poucas às vezes, nas empresas onde trabalhei, em que deu enorme vontade de fazer igual a Bartleby e dizer “Acho melhor não”, diante de solicitação insensata, imbecil mesmo, de alguma tarefa, por parte de superiores. Nesses momentos, vinha logo à cabeça a famosa frase do escriturário.

Pessoas normais: entre a sensatez e a ignorância

Lamento não ter me rebelado algumas vezes, no máximo ponderava e, quando havia abertura para o diálogo, encontrava uma terceira via para concluir o que estava fazendo. Um meio termo entre a sensatez e a ignorância.    

O jornalismo, todos vocês sabem, é aquela profissão que todo mundo domina profundamente e sabe exercê-la muito melhor que os jornalistas.

Então, por exemplo, você passa 30, 40, 50 anos fazendo a mesma coisa, todos os dias, títulos, textos e legendas, o basicão da profissão (se você não for muito burro, pega logo a manha da coisa), mas chega, por exemplo, um veterinário, um burocrata, um engenheiro, um almocreve, um ministro de Bolsonaro ou o próprio e fala para você mudar isso e aquilo no seu trabalho, com a segurança e intrepidez de bestas atravessando uma avenida no horário de pico.

Como toda grande obra, “Bartleby” permite várias leituras. Uma das principais é a que vê no livro a questão da alienação capitalista.

No prólogo da edição lançada no Brasil pela José Olimpio, Jorge Luis Borges aponta uma afinidade secreta entre as ficções de Melville e Franz Kafka, sustentando que a obra do escritor tcheco joga sobre Bartleby “uma luz posterior”.

Curiosamente, Enrique Vila-Matas escreveu um livro Bartleby e Companhia, em que mapeia outros casos – reais ou não – de outros “seres em que habita uma profunda negação do mundo”.

De Rimbaud, passando por Baudelaire e chegando a Melville, Vila-Matas apresenta ao seu leitor a estranheza de pessoas consideradas “normais”.

Comments

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  1. Ana Cláudia 15 de Abril de 2019 20:10

    Nossa! Quem nunca? Como servidora pública abaixei a cabeça inúmeras vezes diante das idiotices que os “chefes” cargos comissionados diziam. Agora, diante da impossibilidade de uma aposentadoria, a literatura é o meu forma de sublimar a ignorância dessa gente.

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