Acho que isso deve significar alguma coisa

Foto: ACHO QUE ISSO DEVE SIGNIFICAR ALGUMA COISA    Acho que isso devia significar alguma coisa. Tenho o mesmo corte de cabelo há anos. Tá certo que eles ficaram irreversivelmente brancos, mas é o mesmo corte. Quando era moleque, o pai me obrigava a cortar reco, assim demorava mais pra crescer e ele economizava no barbeiro, mas assim que ganhei minha autonomia capilar, rompi com a infame ditadura do corte militar e passou a ser este corte. Simples, banal até. Tão banal que aliás era eu mesmo que cortava até um tempo atrás. Acho que isso devia significar alguma coisa. Ainda ouço o mesmo tipo de música. Lembro quando o Paulinho da Áudio Discos me mostrou o primeiro Long Play do Freddie King. Fiquei com a certeza de que não podia existir coisa melhor. Eu ouço música pra caralho. Quase toda semana descubro algum som que me estimula, mas eu sempre volto pro Freddie King, pro Van Morrison ou pro Arnaldo Baptista. Acho que isso devia significar alguma coisa. Eu nunca entrei na moda. Quando eu tava entrando na adolescência nos anos 70, a rapaziada toda usava calças boca de sino e sapato com salto alto quadrado. Eu nunca usei. Eu ia me sentir ridículo se usasse algo assim. Eu ando me tocando que eu nunca tive na moda. Acho que isso devia significar alguma coisa. Não consigo usar expressões como "galera", "cair na balada" ou "o pico tá bombando". Simplesmente não consigo articular tais expressões sem que meu estomago revire. Eu nunca consegui usar as expressões em voga, nem quando jovem. Sempre fiquei ali, do lado de fora, estupefato, sem conseguir entrar no jogo. Sem participar da festa. Esse sentimento de inadequação me persegue há tanto tempo que eu fui me acostumando com ele e quase que eu já não me tocava mais disso. Hoje eu percebi o quanto sou inadequado. Vestindo uma camiseta do Túnel do Tempo, com uma bermuda rasgada e o mesmo corte de cabelo. A minha barriga de cerveja, os cabelos brancos e a cara de panaca meio sofrida, meio feliz à toa. Nunca freqüentei os bares da moda. Quando estou casado, gosto da idéia de ficar muito tempo com a mesma mulher. Não experimentei todas as drogas. Costumo beber sempre no mesmo boteco. Acho que isso devia significar alguma coisa. Eu nunca tive carro, nem motocicleta. Acho que eu nunca me liguei muito nisso. Sou tão anacrônico que sou heterossexual. Eu tenho que confessar. Eu nunca fui moderno. E tô me tocando que eu admito isso com um certo alívio. Ainda prefiro os desenhos animados da velha guarda embora colecione em fitas VHS a série do Cowboy Be bop. Acho que isso também devia significar alguma coisa. Não consigo ouvir música eletrônica e não tenho o menor interesse em expandir a minha área de consciência com alguma dessas substancias alucinatórias tão em voga. Eu nunca tive na moda. Eu prefiro expandir minha área de consciência lendo Cioran. Pode parecer de um pedantismo intelectual nojento essa afirmação, mas às vezes eu são tão fora de moda que me permito a ser pedante e asqueroso. Só um pouco. Despudoradamente asqueroso. Tem tanta gente boa por aí, né? Eu sou tão fora de moda que nem gente boa eu sou. Muita gente me acha um grande filho da puta. Pode ser. Fico calmo, sereno, quase dócil. Sou uma ficção exagerada. Devo ter algum problema, ou vários. O que eu sei é que isso devia significar alguma coisa. Esse comportamento atrevidamente fora de moda, meio samba canção, meio descobrindo a bossa nova, essa vontade de ficar quando todo mundo quer ir embora. Essa vontade de cair fora quando todo mundo acha que tá no melhor da festa. Talvez essa merda toda não signifique porra nenhuma. Mas eu acho que devia significar alguma coisa. Nunca quis participar de turma nenhuma. Quando meu joelho permitia, gostava de jogar futebol, mas odeio ir ao estádio. Não gosto de lugar com muita gente. Não quero participar de nenhuma torcida. Não assino abaixo assinado. Não quero participar de nenhuma ONG ou qualquer manifestação pró-causas nobres. Até a novela das oito tá investindo em causas nobres. Algum lucro deve dar, né? Alguém por aí já ouviu falar em Nobreza de caráter? Será que tá valendo alguma merda? Nunca fui descolado e nunca soube empregar a gíria da vez. Tenho um coração atormentado, uma alma velha e o mesmo corte de cabelo há uns bons trinta anos. A soma disso tudo e a aliviada constatação deviam significar alguma coisa. Deviam me trazer alguma espécie de paz sempre que perco meu olhar na noite desavisada. Sempre que perco o pé da situação. Sempre que me vejo naturalmente desamparado. Circunstancialmente sozinho. Previsivelmente inadequado. Nesse momento enquanto escrevo, alguns amigos estão morrendo. Outros se divertindo. A maioria tá se enganando. Minha filha deve estar sonhando na longínqua Londrix com algo que a gente costumava chamar de esperança. Minha irmã disse que anda preocupada. Não se preocupa não, Mana. Eu tenho uma série de dúvidas, mas católicamente faço o sinal da cruz antes de me deitar. Eu sempre tive fora de moda e insisto quase desesperado que isso devia afinal de contas significar alguma porra de coisa.

Por Mário Bortolotto

Acho que isso devia significar alguma coisa. Tenho o mesmo corte de cabelo há anos. Tá certo que eles ficaram irreversivelmente brancos, mas é o mesmo corte. Quando era moleque, o pai me obrigava a cortar reco, assim demorava mais pra crescer e ele economizava no barbeiro, mas assim que ganhei minha autonomia capilar, rompi com a infame ditadura do corte militar e passou a ser este corte. Simples, banal até. Tão banal que aliás era eu mesmo que cortava até um tempo atrás. Acho que isso devia significar alguma coisa. Ainda ouço o mesmo tipo de música. Lembro quando o Paulinho da Áudio Discos me mostrou o primeiro Long Play do Freddie King. Fiquei com a certeza de que não podia existir coisa melhor. Eu ouço música pra caralho. Quase toda semana descubro algum som que me estimula, mas eu sempre volto pro Freddie King, pro Van Morrison ou pro Arnaldo Baptista. Acho que isso devia significar alguma coisa. Eu nunca entrei na moda. Quando eu tava entrando na adolescência nos anos 70, a rapaziada toda usava calças boca de sino e sapato com salto alto quadrado. Eu nunca usei. Eu ia me sentir ridículo se usasse algo assim. Eu ando me tocando que eu nunca tive na moda. Acho que isso devia significar alguma coisa. Não consigo usar expressões como “galera”, “cair na balada” ou “o pico tá bombando”. Simplesmente não consigo articular tais expressões sem que meu estomago revire. Eu nunca consegui usar as expressões em voga, nem quando jovem. Sempre fiquei ali, do lado de fora, estupefato, sem conseguir entrar no jogo. Sem participar da festa. Esse sentimento de inadequação me persegue há tanto tempo que eu fui me acostumando com ele e quase que eu já não me tocava mais disso. Hoje eu percebi o quanto sou inadequado. Vestindo uma camiseta do Túnel do Tempo, com uma bermuda rasgada e o mesmo corte de cabelo. A minha barriga de cerveja, os cabelos brancos e a cara de panaca meio sofrida, meio feliz à toa. Nunca freqüentei os bares da moda. Quando estou casado, gosto da idéia de ficar muito tempo com a mesma mulher. Não experimentei todas as drogas. Costumo beber sempre no mesmo boteco. Acho que isso devia significar alguma coisa. Eu nunca tive carro, nem motocicleta. Acho que eu nunca me liguei muito nisso. Sou tão anacrônico que sou heterossexual. Eu tenho que confessar. Eu nunca fui moderno. E tô me tocando que eu admito isso com um certo alívio. Ainda prefiro os desenhos animados da velha guarda embora colecione em fitas VHS a série do Cowboy Be bop. Acho que isso também devia significar alguma coisa. Não consigo ouvir música eletrônica e não tenho o menor interesse em expandir a minha área de consciência com alguma dessas substancias alucinatórias tão em voga. Eu nunca tive na moda. Eu prefiro expandir minha área de consciência lendo Cioran. Pode parecer de um pedantismo intelectual nojento essa afirmação, mas às vezes eu são tão fora de moda que me permito a ser pedante e asqueroso. Só um pouco. Despudoradamente asqueroso. Tem tanta gente boa por aí, né? Eu sou tão fora de moda que nem gente boa eu sou. Muita gente me acha um grande filho da puta. Pode ser. Fico calmo, sereno, quase dócil. Sou uma ficção exagerada. Devo ter algum problema, ou vários. O que eu sei é que isso devia significar alguma coisa. Esse comportamento atrevidamente fora de moda, meio samba canção, meio descobrindo a bossa nova, essa vontade de ficar quando todo mundo quer ir embora. Essa vontade de cair fora quando todo mundo acha que tá no melhor da festa. Talvez essa merda toda não signifique porra nenhuma. Mas eu acho que devia significar alguma coisa. Nunca quis participar de turma nenhuma. Quando meu joelho permitia, gostava de jogar futebol, mas odeio ir ao estádio. Não gosto de lugar com muita gente. Não quero participar de nenhuma torcida. Não assino abaixo assinado. Não quero participar de nenhuma ONG ou qualquer manifestação pró-causas nobres. Até a novela das oito tá investindo em causas nobres. Algum lucro deve dar, né? Alguém por aí já ouviu falar em Nobreza de caráter? Será que tá valendo alguma merda? Nunca fui descolado e nunca soube empregar a gíria da vez. Tenho um coração atormentado, uma alma velha e o mesmo corte de cabelo há uns bons trinta anos. A soma disso tudo e a aliviada constatação deviam significar alguma coisa. Deviam me trazer alguma espécie de paz sempre que perco meu olhar na noite desavisada. Sempre que perco o pé da situação. Sempre que me vejo naturalmente desamparado. Circunstancialmente sozinho. Previsivelmente inadequado. Nesse momento enquanto escrevo, alguns amigos estão morrendo. Outros se divertindo. A maioria tá se enganando. Minha filha deve estar sonhando na longínqua Londrix com algo que a gente costumava chamar de esperança. Minha irmã disse que anda preocupada. Não se preocupa não, Mana. Eu tenho uma série de dúvidas, mas católicamente faço o sinal da cruz antes de me deitar. Eu sempre tive fora de moda e insisto quase desesperado que isso devia afinal de contas significar alguma porra de coisa.

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