Acumulando o desnecessário

Por Anna Veronica Mautner
FSP

Estamos abafados por excessos. Temos mais sapatos do que podemos vir a precisar na próxima década

O mundo está dividido entre os milhões abaixo da linha da miséria, que não têm nada, e os que têm. Mas todos sonham com abundância. Falo dos que têm, mas isso inclui os que sonham em ter o mínimo e, depois, bastante.

Parece uma epidemia! Com maior frequência, ouço gente da classe média se queixando da dificuldade para se desfazer de tralhas inúteis. Não sou só eu que me sinto abafada por excessos de tudo. Minha geração toda está assim. A esta altura temos demais de tudo. Mais de 3/4 dos meus livros, confesso, estão nas estantes como quadros de uma exposição. Livro enfeita, cria aconchego. Mesmo assim, não precisava de tantos.

E roupa de cama? Quem não tem mais do que precisa? Estou falando de lares de classe média e até de lares milionários. Mas o vício da acumulação pode ser visto também entre pessoas de estilo e recursos mais modestos. Em geral, temos mais meias, sapatos e chinelos do que podemos vir a precisar na próxima década. Não estou falando de colecionadores. Colecionar é outra coisa -é ter para ter, e não para usar.

E para que tantas frigideiras, conchas, escumadeiras e roupas que nunca usamos? É preciso muita força de vontade para apagar os resquícios que ainda estão na memória coletiva do tempo em que havia somente o necessário.

Por isso a gente vai juntando, como se amanhã não fosse haver mais. Ao nos darmos conta, estamos diante de espaços empanturrados, em casa e no escritório.

Diante dessa situação historicamente insólita, nos encontramos perdidos, sem saber como lidar com isso tudo. Algumas raras pessoas que a natureza dotou de uma extraordinária aptidão espacial são capazes de ordenar os objetos em diminutos espaços. Enquanto as moradias são cada vez menores, portanto os espaços de armazenamento também, nossos bens são cada vez mais abundantes.

Vivendo neste mundo em que os bens mais caros são o silêncio e o espaço, não é fácil arrumar lugar para tudo. E aí caímos num terrível círculo vicioso.

Se não consumirmos, desempregamos. Precisamos continuar a comprar, as fábricas têm que continuar a produzir, senão os empregados não poderão consumir o que os outros estão produzindo.

É um círculo vicioso sem fim. Ou será que algum economista sabe parar essa roda da fortuna ou, quem sabe, roda da pobreza? O consumismo tem um lado sombrio. Tão difícil é a solução que o estudo do destino do não perecível se tornou objeto de teses acadêmicas. O destino do lixo sólido é assunto de política e de ciência.

ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (Ágora) e “Educação ou o quê?” (Summus)

amautner@uol.com.br

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