Acusar e reparar

Volto a saquear a edição do Novo Jornal, para compartilhar com vocês o artigo do ex-pluralista Carlos Magno Araújo, publicado neste domingo, sobre o rumoroso caso da denúncia de abusos sexuais numa creche de Natal. Esta edição, por sinal, traz boas matérias, como a de Dinarte Assunção sobre as rodovias estaduais, e a de Annapaula Freire sobre Jacira Costa, a compositora de jingles de Aluizio Alves.

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Por Carlos Magno Araújo
NOVO JORNAL

ACUSAR E REPARAR

Até concluir estas mal traçadas, sábado pela manhã, não seu viu no noticiário nada a respeito da convocação de uma entrevista coletiva – ou algo parecido – por parte de representantes do Ministério Público, da polícia e dos juízes que integram a Vara da Infância e da Adolescência para oferecerem algum tipo de retratação aos dois homens presos em julho passado acusados de molestar crianças na creche Lar Feliz, em Cidade Satélite.

Há pouco mais de dois meses, início de julho, os jornalistas foram chamados para uma entrevista no Fórum Seabra Fagundes durante a qual os integrantes do MP, da Justiça e da polícia denunciaram o envolvimento dos dois acusados, que foram presos porque algumas crianças da creche, segundo o depoimento de uma criança e de uma mãe, haviam sido vítimas de abuso sexual.

Os suspeitos foram publicamente responsabilizados, depois levados à prisão, e a creche em questão exposta, além de fechada. Na quarta-feira passada, de forma surpreendente, um representante do Ministério Público avisou que pediria à Justiça a liberdade dos acusados – a absolvição no processo, portanto – porque não foram encontradas provas suficientes que os incriminassem. Um deles, um senhor de 55 anos, já está solto, mas o outro, de 34, continua detido há 80 dias. Ambos mantêm ligação com a dona da creche onde teria ocorrido o abuso.

É possível imaginar que se aqueles que mobilizaram a imprensa em julho para oficializar a acusação ainda não se manifestaram é porque consideram que, a despeito do entendimento de um promotor, ainda acreditam no envolvimento dos acusados. Ou porque ainda não houve tempo de rebater o entendimento do representante do MP. Nunca, acredita-se, por algo que pareça prepotência.

Do contrário, até pela importância do papel que ocupam – e da enorme significância do Ministério Público e do Juizado para a sociedade, que têm gigantesca folha de bons serviços e boas medidas prestados à causa – já teriam vindo a público reparar o erro, corrigindo a precipitação. A impressão que fica é que, como não se pronunciaram, por ora, não acreditam que os dois denunciados possam ser inocentes.

Não dá para acompanhar o caso sem associá-lo ao da Escola Base, o colégio que foi fechado em São Paulo, em 1994, porque donos e funcionários foram acusados de abuso sexual. Os jornais à época deram enorme repercussão ao caso. A escola foi depredada e saqueada. Os inquéritos, porém, inocentaram os suspeitos.

No caso Lar Feliz, polícia, Ministério Público e Justiça têm as condições de dizer se os dois envolvidos são de fato inocentes. Se forem, a retratação só engrandeceria as instituições.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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