Adaptando a confusão

Por Antônio Xerxenesky
BLOG DO IMS

É um consenso entre os críticos que Vício inerente, de 2009, não é o melhor livro de Thomas Pynchon – pouco ambicioso, pouco experimental, sem momentos de grande beleza. A obra do autor norte-americano sempre se dividiu entre romances megalomaníacos, de quase ou mais de mil páginas, que exigem um leitor obsessivo e interessado em história e ciências exatas, e outros livros mais acessíveis, como O leilão do lote 49, Vineland e o recente Bleeding Edge. Vício inerente se enquadra na segunda categoria, e tem forte parentesco com Vineland e sua obsessão por hippies.

De certo modo, é o mais passível de adaptação ao cinema. A trama é centrada em um só protagonista, e o narrador está sempre colado a ele. Trata-se, além disso, de um sujeito carismático e cômico, que dialoga com a difundida tradição do policial hard-boiled, o detetive “Doc” Sportello. Há um objetivo claro no enredo, um motor narrativo – descobrir o que aconteceu com um figurão do meio imobiliário que desapareceu. É um livro linear. Enfim, tudo o que torna o livro de Pynchon quadrado e comportado para os padrões do autor facilita uma adaptação hollywoodiana. O cineasta Paul Thomas Anderson conta em entrevistas que há tempos está tentando levar Pynchon para as telas, mas só com o surgimento de Vício inerente encontrou algo factível. E os acertos e erros do filme, que chegou quinta-feira passada aos cinemas brasileiros, devem muito à fidelidade da adaptação.

O cineasta filma com profundo respeito ao material base. Diálogos são praticamente transcritos, a reconstituição de cenários é primorosa. Mais do que isso: o espírito pynchoniano segue firme e forte, e Anderson é capaz de manter a confusão experimentada na leitura. Pynchon é conhecido por lotar suas histórias de dezenas de personagens, muitos que aparecem e desaparecem sem deixar rastros, e às vezes sem avançar a história. Embora Anderson tenha cortado alguns, manteve um número considerável, de modo a deixar esse caos de nomes complicados e relações incompreensíveis funcionando cinematograficamente.

Vício inerente é um livro/filme sobre um detetive que não sabe ao certo o que está investigando, que esquece o que precisa buscar. Pistas fundamentais são dadas a ele, porém só retornam uma hora depois, quando o protagonista se lembra, cavoucando em sua memória cheia de furos de um maconheiro compulsivo, de que tinha que investigar aquele local. No livro, tal esquema talvez funcione melhor, pois dificilmente um leitor encara as 400 páginas em uma sentada; no filme, esse encadeamento frouxo (propositalmente), esse ritmo relaxado, mostra-se cansativo nas duas horas e meia. É, em parte, um problema do cineasta que quer ser fiel demais ao livro – o mesmo ocorre em O homem duplo, de Richard Linklater, única adaptação realmente próxima à matéria-prima que o escritor Philip K. Dick recebeu. A estrutura do romance é diferente da estrutura de um longa-metragem, inclusive (e não somente) porque pressupõe um investimento (em tempo, em concentração) distinto do leitor/espectador.

Das principais divergências entre livro e filme, a única que não consegui compreender foi por que a ARPANet foi omitida. Explico a quem não leu: muito se fala no livro sobre uma tecnologia criada pelo departamento de defesa americano que seria a “mãe” da internet, algo que o leitor atual capta logo de início. Trata-se o primeiro uso de computadores em redes e, no contexto do livro, é logo comparado com drogas. Quando informam a Doc Sportello que nessa rede você pode buscar informações sobre qualquer outra pessoa, o detetive comenta que então, como o ácido lisérgico, a ARPANet em breve será proibida. Basta o governo notar que, como o LSD, a rede de computadores permite que você estabeleça uma conexão com canais que você não deveria ter acesso…

A relação entre avanços tecnológicos e a história é tema fundamental, talvez central, da obra de Pynchon, que quase só escreve romances “históricos” (aspas complicadoras). O arco-íris da gravidade fala de mísseis V2 na Segunda Guerra; Contra o dia, da grande feira tecnológica de Chicago e as descobertas de Tesla na virada para o século XX; Bleeding Edge, do surgimento da deep web no início dos anos 2000. Até tratando do passado recente Pynchon se comporta como um historiador, ou ao menos como um historiador numa certa definição de Hayden White, como aquele que “estabelece o valor do estudo do passado, não como um fim em si, mas como um meio de fornecer perspectivas sobre o presente”. Visto de longe, a obra de Pynchon desenha um panorama histórico muito peculiar e único sobre forças de resistência (o hippie que se recusa a mudar o estilo de vida, tomando de exemplo Vício inerente) e forças de opressão (o mercado imobiliário, os policiais, o número cada vez maior de hippies servindo de informantes).

A ARPANet tinha sua importância no livro no sentido de que posicionava o romance dentro do grande universo compartilhado de Pynchon e de que acrescentava mais uma melancolia ao “fim da época dourada” de drogas e liberdade. P.T. Anderson certamente tem seus motivos para tirá-la, mas não deixo de pensar que, com a remoção de certos comentários sobre a cultura americana e a história, muitos espectadores saíram do cinema pensando que Vício inerente é diversão doidona e só. O cineasta se recusou a dar muito material que pudesse ser lido como “moral da história” – o que, por um lado, é uma atitude elegante.

Sinto que estou dando a impressão de que detestei o filme. Muito pelo contrário: adorei-o. Ele capta, afinal, o espírito de Pynchon: a confusão, o humor absurdo, a paranoia. É divertidíssimo, de gargalhar alto no cinema, em parte porque é muito bem atuado (vamos todos concordar: Joaquin Phoenix é o maior ator vivo de Hollywood). A trilha sonora de Jonny Greenwood está em toda a parte e lembra a amalucada trilha que Jon Brion fez para outro filme do cineasta, Embriagado de amor. A música conduz o filme, dá ritmo quando o enredo parece mais bambo e desnorteado. P.T. Anderson é um dos nomes do cinema norte-americano que ainda faz sentido acompanhar de perto: sua obra é mutável, tendo ido do alucinante Boogie Nights (quase uma homenagem a Scorsese, como bem declarou o próprio P.T. Anderson) a obras mais clássicas, como o wellesiano Sangue negro, passando por flertes com o fantástico e o surreal em Magnólia e Embriagado de amor.

Na verdade, considero P.T. Anderson um cineasta tão valioso que sinto que Vício inerente só poderia melhorar se o diretor fosse um pouco menos respeitoso com o material em que se baseia. Por melhor que seja Pynchon, cinema é cinema e literatura é literatura. As regras são outras e todos sabem que não há nada mais triste do que a sensação de livro filmado. Não é o caso de Vício inerente, mas na última meia hora do filme nota-se que o peso da estrutura romanesca está lá, sempre presente.

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